Engenheira mecânica de formação, professora catedrática, deputada europeia e conselheira na Comissão Europeia, ex-ministra da Ciência e do Ensino Superior em dois executivos anteriores, Maria da Graça Carvalho lidera agora a pasta do Ambiente e Energia. Alguém que une o conhecimento técnico à experiência política para enfrentar os desafios climáticos e energéticos de Portugal. Nesta entrevista, fala sobre o seu percurso, as prioridades do Governo e os principais problemas ambientais do país.
Como começou o seu interesse pelas áreas de Ciência e Energia?
Desde muito cedo, gostei da área da energia. No quarto ano do liceu, já sabia que queria ir para Engenharia e trabalhar neste setor. Havia muita discussão sobre se Portugal ia ter energia nuclear ou não; interessei-me pelo assunto e acabei por vir trabalhar mesmo nesta área.
A sua experiência académica e profissional foi fundamental para aceitar o cargo de ministra do Ambiente e Energia?
Já tinha sido ministra na área da Ciência e Inovação e a minha formação é precisamente em energia, clima e também ambiente. Juntou-se essa experiência técnica com a experiência governativa. Fui convidada para o cargo e, no fundo, aceitei — não tinha como não aceitar.
Quais são as prioridades do Governo nesta área?
Temos três princípios fundamentais: colocar as pessoas no centro, combater as alterações climáticas e atrair investimento para Portugal. As nossas prioridades são seis: ação climática, transição energética, recursos hídricos, biodiversidade e conservação da natureza, resíduos e proteção das pessoas contra a poluição.
Na ação climática, criámos a Agência para o Clima, estamos a preparar a participação na COP30 e lançámos o mercado voluntário de carbono. Em 2026, teremos também o Fundo Social do Clima para ajudar as famílias mais vulneráveis na transição energética. Na adaptação às alterações climáticas, estamos a financiar grandes obras, como os túneis de Lisboa e intervenções em zonas com cheias, além da renaturalização de rios para evitar inundações.
Na transição energética, após o “apagão”, apresentámos 31 medidas para reforçar a rede elétrica, melhorar o arranque das centrais e proteger infraestruturas críticas. Estamos a simplificar o licenciamento das energias renováveis, a criar zonas de aceleração e a preparar a estratégia para o armazenamento e para a indústria verde.
Nos recursos hídricos, estamos a reduzir perdas, aumentar a eficiência e reforçar infraestruturas, incluindo a dessalinizadora no Algarve e o reforço de barragens. Na biodiversidade, avançámos com o plano nacional de restauro, a proteção do lobo-ibérico e novas áreas marinhas protegidas nos Açores e na Madeira, aproximando-nos dos 30%.
Nos resíduos, vamos lançar uma campanha nacional para reduzir a produção e aumentar a separação, porque os aterros estão quase cheios. Em 2026, entra o sistema de depósito e reembolso com 220 máquinas, que vai incentivar fortemente a reciclagem. Estamos ainda a trabalhar na estratégia para o ruído, na qualidade do ar, na educação ambiental e na poluição visual, ainda sem regulamentação adequada em Portugal. Estas são as nossas prioridades, que serão apresentadas no Orçamento do Estado.

“Há muito interesse dos investidores, mas os projetos atrasam-se por causa da burocracia”
Recentemente afirmou que, em 2026, a meta prevista é que 80% da nossa eletricidade seja proveniente de fontes renováveis. Que medidas concretas estão a permitir estes avanços?
No nosso Plano Nacional de Energia e Clima, os 80% estavam previstos para 2028, mas no ano passado já chegámos aos 74%. Por isso, é natural que, em 2026, alcancemos essa meta. Para isso, estamos a facilitar a ligação à rede e a simplificar os processos de licenciamento ambiental. Há muito interesse dos investidores, mas os projetos atrasam-se por causa da burocracia — tanto na ligação à rede, que passa pela Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), como nas autorizações ambientais da Agência Portuguesa do Ambiente (APA).
A transição energética pode ser cara e demorada. O Governo já assumiu que serão necessários 45 a 60 mil milhões de euros para Portugal atingir as metas renováveis e de hidrogénio até 2030. Como garantirá que é feita de forma justa para todos os cidadãos?
Temos a estratégia da transição justa e vamos contar com o Fundo Social do Clima, que terá um financiamento significativo da Comissão Europeia. Esse financiamento é alimentado pela taxa de carbono — ou seja, os combustíveis pagam essa taxa — e deve ser usado para apoiar as pessoas: reduzir a pobreza energética, ajudar nos transportes públicos e individuais elétricos, e na eletrificação e conforto dos edifícios. A partir de 2026, o financiamento será essencialmente destinado a garantir essa justiça na transição.
As emissões por consumo de combustíveis rodoviários foram de 17,8 milhões de toneladas de dióxido de carbono. Quais são as medidas tomadas para reduzir as emissões neste setor e garantir que Portugal cumpre as metas até 2030?
Estamos atrasados nos transportes. Estamos a financiar e a construir as extensões dos metros de Lisboa, Porto e Coimbra. Há também o metro de superfície na margem sul, de Almada para a Costa da Caparica, uma nova linha em Loures e o metro de superfície que ligará Loures a Oeiras. Precisamos destas obras para que menos pessoas usem o carro próprio. Outra questão essencial é a ferrovia: precisamos de novas linhas, carruagens e comboios, e temos financiamento europeu. Mas tanto a CP como as Infraestruturas de Portugal demoram muito a concretizar os projetos. Esse é o nosso estrangulamento.
Como podemos equilibrar o crescimento das energias renováveis com a proteção da natureza e das paisagens?
Estamos a trabalhar com um grupo de professores universitários para elaborar um mapa de Portugal que identifique as zonas onde as energias renováveis não entram em conflito com valores ambientais, de paisagem, biodiversidade, cultura ou agricultura. Há muitos terrenos sem esses valores — como os baldios — que podem ser usados sem problema. O importante é não instalar renováveis em áreas de alta qualidade agrícola ou com biodiversidade significativa, onde grandes painéis ou ventoinhas criariam um contraste indesejado.

“Acho que é a partir das escolas que a mensagem se propaga à sociedade”
Que importância têm as escolas na sensibilização ambiental e energética?
Muita. Por exemplo, na área dos resíduos — reduzir, separar melhor e reforçar a economia circular — a campanha vai focar-se sobretudo nas escolas e nos jovens. Acho que é a partir das escolas que a mensagem se propaga: saber comprar, comprar menos e com menos embalagens, separar e tratar bem o lixo. O mesmo vale para a energia e para a luta contra as alterações climáticas.
Os jovens portugueses estão realmente atentos a estas questões?
Acho que sim, muito mais do que os pais e os avós. Podem ter aqui um grande papel.
Qual é o desafio que Portugal vai enfrentar nesta área nos próximos anos?
Os resíduos são a área mais difícil. E também os transportes, mas aí temos solução: acelerar as obras da ferrovia e dos metros. Já nos resíduos, não é só atraso — é que não há soluções técnicas perfeitas. A única forma realmente eficaz é produzir menos lixo.
Para terminar… consegue identificar o momento mais marcante da sua carreira até hoje?
Ser ministra do Ambiente e Energia é um dos momentos mais marcantes da minha vida profissional. É muita responsabilidade: a água, a eletricidade, o gás, o território, as espécies e os resíduos. No apagão, por exemplo, tivemos de fazer um decreto-lei de emergência, perceber o que era afetado e assumir decisões diretas, como definir se os combustíveis iam para as bombas ou para os serviços essenciais. No fundo, toda essa responsabilidade recai sobre o ministério. São coisas vitais que damos por garantidas. É uma missão enorme, mas muito interessante.





