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-Início»Reportagens»Reportagens»Heartbeat Project: o DJ que voltou à sua terra para dar voz a quem raramente é ouvido

Heartbeat Project: o DJ que voltou à sua terra para dar voz a quem raramente é ouvido

Joana Silva 01 Jun 2026 Reportagens, Reportagens

Todas as quintas-feiras, numa das salas da instituição Valoriza, em Amares, o som não vem de colunas gigantes, nem de pistas de dança. Nasce de instrumentos e palmas improvisadas. No meio da sala está Jonh Mayze, DJ habituado a atuar em palcos internacionais. Mas, desta vez, o cenário é outro. À sua volta, um grupo de utentes com necessidades especiais experimenta, arrisca e escuta. A música ganha ali um significado novo. Não é apenas espetáculo, é partilha. É o Heartbeat Project.

Para Jonh Mayze, Amares nunca foi apenas o lugar onde nasceu. Foi o ponto de partida de quase tudo o que construiu na música. Ao longo dos anos, o artista levou o seu trabalho a vários palcos internacionais, com passagens por Ibiza, Madrid, Marrocos, Colômbia, Egito e Suíça. Projetos como o Mayze x Faria, que começou em Amares (distrito de Braga) e ganhou dimensão além-fronteiras, mostraram-lhe até onde podia chegar. Ainda assim, a ligação à terra manteve-se sempre presente.

Foi dessa ligação que nasceu o Heartbeat Project, uma ideia antiga que ficou em espera. “Era uma ideia que já tinha há algum tempo na minha cabeça. Passei-a para papel e ficou um bocadinho na gaveta”, recorda. O objetivo era simples, mas pouco comum: criar música com pessoas que raramente têm oportunidade de participar nesse processo. Fazer da música um espaço de encontro, partilha e inclusão. E, para isso, fazia sentido começar onde tudo começou.

“É um projeto disruptivo e inovador, um dos melhores que já acolhemos”

A Valoriza — Associação de Desenvolvimento Local, nasceu em 2010 com o objetivo de responder a necessidades da região que não estavam a ser acompanhadas. Segundo Pedro Costa, presidente, uma dessas carências tornou-se cada vez mais evidente ao longo do tempo. “Percebemos que existia uma lacuna muito grande na região: a deficiência intelectual em idade adulta.”

Foi a partir desta realidade que a instituição começou a desenvolver respostas concretas para apoiar pessoas com deficiência intelectual e as suas famílias. Quando Jonh Mayze lhes apresentou a ideia Heartbeat Project, Pedro Costa não hesitou, afinal tratava-se de algo fora do habitual, diferente do que é comum neste tipo de contextos. “É um projeto disruptivo e inovador, um dos melhores que já acolhemos”, afirma o presidente da associação.

A ligação entre o DJ e a instituição também ajudou a que tudo acontecesse de forma mais natural. Ambos partilham raízes em Amares e uma vontade comum de fazer algo com impacto real na comunidade. Mais do que uma simples colaboração, o projeto nasce dessa proximidade, de conhecer o território, as pessoas e aquilo que ainda faz falta.

“Gosto de sentir a batida no coração”

Dentro da instituição, o impacto fez-se sentir quase de imediato. Alexandra, monitora na Valoriza há mais de uma década, acompanha a atividade desde o início e não tem dúvidas sobre a diferença que trouxe. “Desde que o projeto começou, eles ficaram muito animados”, conta. As sessões acontecem todas as semanas e, para muitos utentes, já há um dia especial: quinta-feira. “Sempre que chega quinta-feira, perguntam logo qual é o grupo que vem trabalhar com o João.”

Ao longo das sessões, Alexandra tem assistido a mudanças que nem sempre são fáceis de explicar. Alguns utentes, normalmente mais reservados, encontram ali uma forma de se expressar. “É muito engraçado e emocionante ver como alguns, que por norma são mais calados, de repente se libertam e se entregam à música. A música proporciona-lhes isso: alegria, movimento, expressão. É incrível acompanhar esses momentos.”

Na sala onde tudo acontece, os sons surgem de forma espontânea. Um começa a marcar o ritmo, outro acompanha e, pouco a pouco, a música vai ganhando forma. Mais do que notas certas ou erradas, há espaço para experimentar, para sentir e para participar.

Entre os participantes está o André, de 17 anos. A bateria tornou-se rapidamente o seu instrumento preferido; é ali que se sente mais à vontade, onde o ritmo parece sair de forma natural. Quando fala sobre o projeto, usa palavras simples, mas que dizem muito sobre a forma como vive a música. “Gosto de tocar bateria e ser DJ”, conta. Mais do que aprender, para o André trata-se de sentir, de estar presente naquele momento. E há uma frase que resume tudo isso: “Gosto de sentir a batida no coração.”

Para muitos utentes, a música tornou-se mais do que uma atividade, é um espaço onde podem ser eles próprios. Diogo, de 21 anos, participa nas sesões com entusiasmo. Gosta de cantar e de tocar bombo e, quando lhe perguntam o que sente ali, responde de forma simples: “Feliz.”

Entre ritmos e momentos partilhados, outros participantes expressam sentimentos semelhantes. Jorge resume tudo de forma simples: “Gosto de estar ali.” Já Augusta vai mais longe e imagina um futuro maior para o projeto: “Gostava que o projeto saísse para o mundo todo.” São frases curtas, mas carregadas de significado, sinais de que, neste espaço, a música não se limita a ser ouvida. Sente-se.

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“Aqui somos todos iguais. Somos todos músicos”

Habituado a atuar perante multidões, o DJ Jonh Mayze encontrou aqui uma experiência diferente de tudo o que vive nos palcos internacionais. “Aprendo muito com eles”, admite. “Não sinto apenas a evolução a nível musical, mas também como pessoa.”

A forma como os utentes se envolvem e reagem à música continua a surpreendê-lo. Mais do que técnica ou perfeição, o que encontra ali é entrega e vontade de participar. Para o DJ, o projeto carrega uma mensagem que vai além da música: “Na música, como na vida, há espaço para toda a gente.”

O próximo passo será levar estas músicas mais longe, com o objetivo de as lançar em plataformas como o Spotify, permitindo que o trabalho e o talento dos utentes cheguem a muitas mais pessoas. Porque, como o próprio resume, “aqui somos todos iguais. Somos todos músicos.”

    
2026-06-01
João Ferreira Oliveira
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