Há tuk-tuks junto dos passeios, hostels em cada esquina e línguas de todo o mundo a ecoarem nos elétricos que já quase ninguém de cá apanha. Lisboa cresceu, ficou cara e ficou famosa. Enquanto a cidade se vende ao mundo, há quem insista em guardá-la. Nas marchas e nos Tronos de Santo António, a cidade encontra o que o turismo não compra.
Na Meo Arena, antes de sequer as marchas começarem, Diana Garcia, 21 anos, está no meio da multidão com uma camisola que não deixa dúvidas sobre a sua lealdade ao Alto do Pina. Cresceu naquele bairro e nesta tradição. “Estou nas marchas desde que nasci”, diz, sem hesitar. “Apoio o Alto do Pina porque sou do bairro desde sempre.”
Há qualquer coisa de profundo na forma como fala, um espírito de pertença. “A marcha do Alto do Pina tem uma coisa que as outras não têm”, explica com uma alegria imensa. “A união. Somos uma família. É a nossa garra. Ninguém se mete connosco e estamos sempre unidos.”
“É o espírito de Lisboa. Chega aquela altura e todos os lisboetas já sabem.” Quando se lhe pergunta se as marchas devem continuar, Diana quase se ri da pergunta. “Claro que sim. É uma tradição que já vem de há muitos anos e não se pode perder, mesmo. É o espírito de Lisboa.” E para quem nunca viu? A resposta é imediata. “Venham ver as marchas, mesmo que não apoiem nenhuma. Vão entrar completamente no espírito.”
Foram as marchas quem primeiro conquistou a cidade moderna. Surgidas formalmente em 1932, com raízes anteriores nos arraiais populares, tornaram-se o rosto mais visível da festa.
Em 2026, 20 marchas sobem a concurso, mais três fora de competição, com o tema unificador “Somos Lisboa, Somos Europa”, como homenagem ao Tratado de Lisboa e aos 40 anos da entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia. Uma cidade que olha para fora sem esquecer o que tem dentro.
“Oh ié ié ié, a Bica é que é”
Cada bairro traz Lisboa às costas de uma forma diferente. A Voz do Operário canta a Diversidade. Benfica homenageia a Fábrica Simões, símbolo de inovação e dignidade no bairro. A Bica divide-se entre aventuras no mar e segredos da calçada. São Domingos de Benfica evoca jardins antigos e aves exóticas. A Graça homenageia Santo António, com o manjerico como símbolo principal. A meio da atuação, uma marchante desmaia. Um minuto depois, levanta-se e continua. O aplauso que se ouve não é de alívio, mas sim de reconhecimento. Há formas de demonstrar o amor por uma tradição e por esse sentimento bairrista que nenhuma palavra alguma vez chegará a descrever completamente.
O Bairro Alto, campeão do ano anterior, entra com o sentimento de quem quer ser bicampeão e guarda a surpresa para o final. As saias das marchantes acendem luzes, iluminando as casas bordadas nelas. E logo de seguida vem a Mouraria para encerrar com “um fado de todas as cores”.
“Como todas as tradições de Lisboa, esta é importante. Há que manter”
Longe dos holofotes, há outra Lisboa que também trabalha junho com afinco. A cidade dos Tronos de Santo António, estruturas decoradas em honra do padroeiro da cidade, uma tradição que remonta ao século XVIII e que famílias, escolas e comércios mantêm viva.
O Museu de Santo António, perto da Sé, distribui estruturas-base a quem queira participar e preserva os melhores exemplares de cada ano. Duarte Esmeriz descobriu os tronos por acidente, em 2024, quando foi ao museu com o filho. À saída, havia estruturas disponíveis. “Trouxe um trono para casa e, no caminho, decidi fazer um mas comecei a pensar: não quero fazer uma coisa igual à que os outros fizeram.”
A ideia que surgiu foi o Milagre dos Peixinhos (a famosa passagem bíblica da multiplicação dos pães e dos peixes) mas do ponto de vista dos peixes. “Devem ter ficado muito espantados, não devem ter percebido nada”, brinca Duarte. O trono mostrava os peixinhos todos a olhar para Santo António com cara de perplexidade, a questionarem-se ‘porquê nós’? Um projeto feito em massa de moldar que envolveu toda a família.
No ano seguinte, o tema veio dos postes de luz de Lisboa, as caravelas, a bandeira, o azul da cidade. “Conciliei os dois temas: a bandeira de Lisboa e a caravela que trouxe o padroeiro para a cidade.” O mar transformou-se num mar de rosas. Este ano, 2026, o terceiro trono, o foco esteve nos Casamentos de Santo António. “Um bolo de casamento com os noivos, um grande coração coberto de flores como se fossem flores de açúcar e Santo António a abençoar.” Há ainda um elemento surpresa, mas esse afirmou que não iria ser revelado ainda.

Quando se pergunta a Duarte se os tronos estão a desaparecer, rejeita a ideia com firmeza. “O livro Tronos de Santo António (publicado pelo Museu de Lisboa – Santo António) tem dezenas de participantes. Acho que todos os anos há mais.” Caminhar por Alfama em junho confirma-o: há tronos nas montras dos comércios, nas entradas das escolas e nas casas.
Quanto ao que une tronos e marchas, Duarte nomeia-o sem hesitar: “O Santo António. O amor que a cidade tem por este santo.” Para quem não conhece, o conselho é simples. “Visitem o Museu de Santo António. É uma forma de conhecer a tradição e é um projeto que pode ser familiar.”
Lá fora, Lisboa está quente e cheirosa. Algures em Alfama, num trono à janela, Santo António tem os braços abertos, como sempre, para toda a gente.








