Com um percurso iniciado em 1976, após regressar de Angola, José Raposo construiu uma carreira entre o palco, o cinema e a televisão. Numa altura em que o consumo cultural é dominado pelas plataformas digitais, o atual presidente da Casa do Artista defende a herança do Teatro como um espaço de resistência humana. Numa conversa intimista, recorda memórias, analisa o impacto da inteligência artificial e reflete sobre a missão social da arte.
O ponteiro do relógio bate as 10 horas da manhã. O frio seco de fevereiro faz-se sentir, colando-se à pele. Lá fora, Lisboa segue o seu ritmo acelerado, enquanto aqui, à entrada da Casa do Artista, tudo parece abrandar. As portas da instituição — espaço dedicado a quem dedicou a vida às artes — abrem-se com discrição, revelando um ambiente que contrasta com a correria do exterior. Há uma quietude viva, feita de memórias, ensaios e criação contínua. É neste cenário que o ator nos recebe de forma simples e calorosa, sem formalidades excessivas. A luz da manhã entra suavemente, criando um refúgio propício à conversa.
Começou a representar profissionalmente aos 18 anos, no Teatro Ádóque, depois de ter vindo de Angola para Portugal. Hoje, em que grande parte do entretenimento ocorre através de ecrãs e formatos digitais, que lugar acredita que o Teatro ainda ocupa na vida das pessoas?
O Teatro ocupa sempre um lugar especial. Além de ser a forma de representação mais antiga, é também a arte-mãe. Por muito que a inteligência artificial tente “clonar” profissionais no palco, isso é quase impossível. Quem está a assistir vai sempre exigir a presença humana. A inteligência artificial vai tirar espaço a vários agentes culturais, mas ao Teatro não, porque a dimensão física do intérprete tem de estar lá. O Teatro nunca vai deixar de ser o que é: pessoas, atores de carne e osso a interpretarem textos ao vivo. Por isso, nunca vai morrer.
De momento, está a interpretar a peça Um Quinteto de Morte, que exige grande atenção por parte do público. No entanto, as pessoas estão cada vez mais habituadas a narrativas rápidas. O Teatro deve adaptar-se a essa lógica ou resistir e manter o seu próprio ritmo?
Acho que deve resistir, não tem de se adaptar. As pessoas querem tudo rápido devido ao impacto das redes sociais, dos TikToks e dessa cultura do imediato. No Teatro, quando o público se senta, gosta de absorver a narrativa específica que acontece ao vivo. Tem uma história, ou não, depende do género, mas quem está atento a essas performances não quer rapidez. Esta peça dos anos 1950 foi adaptada, mas tentámos não a encurtar por causa da exigência atual. O público jovem não está habituado, por isso temos de o habituar. Essa é a função de quem tem mais experiência, de quem assume que os projetos devem manter a qualidade original. Se formos aos textos clássicos de Shakespeare, não podemos chegar lá e dizer: “Olha, corta aí meia hora.” Isso é um crime, é impossível de fazer.
“No Teatro, se há um problema, improvisa-se, e isso é fantástico”
Depois de uma carreira tão longa e diversificada, marcada por grandes êxitos em comédias populares como Isto Vai Com Elas! ou Ó Troilaré, Ó Troilará, o que continua a motivá-lo e a levá-lo de volta ao palco, apesar de todos os anos de experiência e dos sucessos alcançados na televisão?
Tenho feito projetos muito diversificados e géneros diferentes porque isso faz parte do desafio do ator. Quanto a voltar ao palco, sou ator e é o que gosto de fazer, acima de tudo. É esse o propósito da nossa vida. O Ruy de Carvalho tem quase um século de vida, enfrentou problemas de saúde, mas quer regressar ao palco o mais rápido possível. O ator só desiste quando desaparece fisicamente, quando morre. Acho que é das únicas profissões em que se é profissional até morrer. Como presidente da direção da Casa do Artista, um lar para pessoas ligadas às artes, convivo com muitos profissionais disponíveis para trabalhar, já com 80 anos ou mais. Estou dentro desse espectro e serei sempre ator. Ainda me falta fazer tudo e mais alguma coisa.
Ao longo do seu percurso, houve algum momento em palco ou em gravação que o tenha marcado profundamente, seja pela reação do público, por um desafio inesperado ou por uma experiência pessoal intensa?
Sim. No Teatro, as coisas acontecem ao vivo, in loco. Na televisão ou no cinema há sempre o recurso do “corta, vamos repetir”. No Teatro, se há um problema, improvisa-se, e isso é fantástico. Posso contar um episódio engraçado que aconteceu numa revista portuguesa. A revista é um género popular, com humor, dança e canções. Existe um certo preconceito em relação à revista, como se fosse um teatro menor, mas eu faço de tudo e adoro.
Nessa produção, tínhamos uma costureira, a Germaninha, que tinha 93 anos. Estava ali porque, se saísse do teatro, morria; tinha uma ligação enorme àquilo. Ela ia para o camarim duas horas antes e ajeitava os vestidinhos. Um dia disse-me: “Olhe, senhor Raposo, eu vou dizer à Glória para a gente jantar, pode ser?” Eu respondi: “Hoje sou eu que convido, a Germaninha vem comigo e com a Glória, e jantamos entre a sessão da tarde e a da noite.” Durante a peça, quase no intervalo, vejo a Germaninha entrar pelo fundo da sala. Eu estava a meio de uma cena com um burro e pensei: “Deixa ver o que vai acontecer.” A Glória estava sentada na segunda fila e a Germaninha começou em voz alta: “Pss, Glória, Glória.” As pessoas olharam, quebrou a ilusão da cena, mas eu fiquei calado a observar. Ficámos eu e o público a ver. Algumas pessoas na plateia pediam silêncio, mas ela insistia: “Glória, Glória.” A Glória olhou e a Germaninha soltou: “O senhor Raposo disse para irmos jantar com ele a seguir.” Aproveitei a deixa e disse do palco: “Germaninha, acho que a Glória já ouviu a Germaninha, vamos jantar os três.” Ela respondeu: “O quê?” E eu finalizei: “Pronto, já está combinado.” Lá foi ela e seguiu-se uma salva de palmas incrível. Depois expliquei-lhe no camarim: “A Germaninha fez um número fantástico.” É uma história engraçada e mais natural de acontecer no contexto da revista, porque ali não existe a quarta parede e podemos interagir com o público de forma muito brechtiana.
A reação imediata do público — o silêncio, o riso, o aplauso — influencia a forma como vive cada espetáculo e interpreta cada personagem?
Claro que sim. Depende sempre do género. A revista, por exemplo, é completamente diferente do drama, da tragédia ou da comédia. Cada género tem o seu ritmo próprio e permite que o riso, o aplauso, o choro ou os silêncios se adaptem à proposta do espetáculo.
“Sou muito miúdo na minha maneira de estar na vida e acho que é por isso que tenho jeito para isto”
Em projetos de Teatro que exploram temas mais complexos, acredita que o Teatro ainda pode provocar reflexão e debate, num tempo em que tudo acontece muito depressa?
Só tem de provocar isso. Essa é a principal função do Teatro: é fazer refletir sobre tudo e qualquer tema. Perante tudo o que se está a passar, faz todo o sentido ajudar a pensar, ajudar a refletir, lançar achas para a fogueira, como se costuma dizer.
A revista era um tipo de espetáculo interventivo, dentro desses textos, fazia-se uma crítica, havia mensagem política, principalmente no tempo do fascismo, porque, nas entrelinhas, os autores passavam essa mensagem de uma forma inteligente. No jornalismo era a mesma coisa, estava completamente sonegado e tinha de se cingir a regras ditadas pelo regime fascista, mas dentro das tais entrelinhas, tinha de ser ter uma inteligência e uma criatividade enorme para se puder lançar a mensagem sem ser direta.
Atualmente, muitos textos criticam este estado horrível que o mundo está a tomar, e o Teatro tem uma função muito importante: chamar a atenção das pessoas, de as educar. Esse tomar de conhecimento do que é grave deve ser feito no Teatro.
Recuando para o ano pandémico, durante a pandemia muitas experiências culturais passaram para o digital. Acha que este período mudou a forma como o publico olha atualmente para o Teatro?
Sim, mudou, durante a pandemia as pessoas deixaram de ir ao teatro e deixaram de ir a uma série de atividades públicas. Tudo se passava em nossas casas através de uma televisão ou das redes sociais. Isso formatou determinadas gerações para esse fechar social, ou seja, as pessoas deixaram de estar umas com as outras e recomeçar tudo outra vez foi complicado.
Hoje, ainda se reflete esse tempo da pandemia, se bem que, no Teatro está a acontecer o inverso, as pessoas estão com vontade de sair dos seus casulos. Ir ao teatro é também uma respiração nesse sentido, é exatamente o contacto direto com o artista. Teatro é muito melhor que as televisões, que os cinemas. Vão ao teatro, pelo amor de Deus!

“A Casa do Artista apoia pessoas ligadas às atividades artísticas a partir dos 65 anos que tenham necessidade de vir para cá”
Para além do seu trabalho enquanto ator, está também ligado à direção da Casa do Artista. Que papel acredita que esta instituição desempenha na vida e na valorização da comunidade artística portuguesa, e de que forma contribui para apoiar artistas em diferentes fases das suas carreiras?
A Casa do Artista apoia pessoas ligadas às atividades artísticas a partir dos 65 anos que tenham necessidade de vir para cá. Todas as pessoas podem ser sócias e a vantagem é apoiar uma causa nobre, o final de vida de quem nos fez sonhar, deu alegrias e foi nosso companheiro ao longo da vida. É um barco difícil de gerir, para mim, estar aqui é uma missão.
Ao olhar para o seu percurso, que inclui décadas de teatro e televisão, sente que o trabalho em palco o transformou enquanto pessoa? De que forma é que o Teatro moldou a sua visão sobre a arte, o público e a vida em geral?
Vai-nos transformando ao longo do nosso percurso, vamos aprendendo cada vez mais. Temos a sorte de podermos fazer de conta que somos outros e isso dá-nos uma riqueza incrível. É quase como os miúdos que estão a brincar, estamos a brincar uma vida inteira e isso é um privilégio. Sou muito miúdo na minha maneira de estar na vida e acho que é por isso que tenho jeito para isto, mantenho-me nesta “infantilidade” de que gosto muito.





