Investigadora especializada em violência sexual e nos discursos culturais que moldam a forma como entendemos o trauma, a intimidade e o consentimento, Maria João Faustino tem analisado fenómenos como o abuso baseado em imagens, os impactos emocionais nas vítimas e o papel dos media na perpetuação de mitos. Nesta entrevista, reflete sobre as mudanças trazidas pela tecnologia, o peso emocional do trabalho e os desafios que persistem na forma como abordamos estas temáticas.
Em 2022, publicou um estudo sobre a Violência Sexual Baseada em Imagens (VSBI), em parceria com a também investigadora Isabel Ventura. Este tipo de violência digital desafia o modo como entendemos o trauma e a intimidade?
Na altura, a VSBI era pouco discutida: havia pouca produção académica, atenção mediática ainda incipiente e grande imprecisão terminológica. Quisemos mapear a VSBI em Portugal, os impactos e a cobertura mediática. A VSBI evidencia algo que já sabíamos, mas reforça: não é preciso contacto físico para ferir alguém sexualmente. Sempre existiram formas de violência sem contacto, como o assédio, as ameaças e as chantagens, mas a proliferação de imagens abriu uma nova escala. Agora, há uma nova caixa de pandora com as imagens — vivemos saturados delas — e isso torna possíveis danos profundos sem qualquer contacto físico: ansiedade, ideação suicida, depressão, ruturas familiares e autoculpabilização. Esta realidade obriga-nos a repensar a violência sexual, o trauma e as ferramentas de prevenção e apoio.
Calculo que seja difícil manter o equilíbrio entre o rigor da investigação e o envolvimento emocional?
É um equilíbrio difícil. No início, sobretudo durante o doutoramento, ouvi histórias duríssimas e a gestão emocional era muito exigente. Com o tempo, ganhei ferramentas de distanciamento e o hábito cria alguma resistência. Momentos como o movimento #MeToo deram-me esperança e reforçaram alianças com outras investigadoras. Sem essa rede, seria muito mais difícil.
Realizou o seu doutoramento em Auckland, na Nova Zelândia. Isso interferiu no seu ponto de vista sobre os temas que aborda?
Sim, absolutamente. Tive uma orientadora brilhante e um contexto cultural diferente, que facilitou um projeto que talvez encontrasse mais resistência em Portugal. Conviver com outras culturas e formas de fazer ciência foi muito importante e acho que consegui trazer algumas dessas coisas para cá.

“O viés continua a ser o de desconfiar das vítimas”
Integra o projeto UnCover, onde analisa a forma como os media portugueses retratam a violência sexual. Que padrões mais a surpreenderam ou preocuparam nesta análise?
Alguns aspetos não foram surpresa, porque consumo media e conheço as narrativas dominantes, mas há muito trabalho a fazer. Após o #MeToo surgiram trabalhos rigorosos que desmontaram mitos da violação, mas continuam a existir discursos que culpabilizam vítimas, de forma mais ou menos subtil. Um dos padrões mais persistentes é o das falsas denúncias. Atribui-se grande destaque a esses casos e muitas vezes confunde-se absolvição com mentira. A ciência mostra que as falsas denúncias são residuais e que a violência sexual é amplamente subnotificada. Ainda assim, o viés continua a ser o de desconfiar das vítimas. Esta ideia circula com força, sobretudo em espaços de opinião, e atravessa vários meios de comunicação.
Como referiu, ainda há uma tendência para culpar as vítimas. O que é que falta mudar na forma como comunicamos estes casos?
É essencial enquadrar cientificamente e ouvir especialistas, para não tratar cada caso como um episódio isolado. As vítimas devem ser ouvidas sem exploração sensacionalista. A continuidade é fundamental: perceber fatores culturais que tornam a violência sexual tão presente e silenciada. Diria que é preciso cuidado com o discurso dirigido às vítimas, atenção ao contexto e um trabalho jornalístico consistente.

“As entrevistas do doutoramento ficaram-me tatuadas na alma”
Foi uma das coautoras do livro “#MeToo – Um Segredo Muito Público”. Que mudanças sentiu após a publicação?
O livro foi um contributo importante e gerou muitas discussões em câmaras municipais, escolas e universidades. Mas insere-se num caminho iniciado há décadas por muitas mulheres e associações. A obra ajudou a dar continuidade e visibilidade a esse trabalho.
Quando pensa nas mulheres com quem já trabalhou, há alguma história que nunca esqueceu?
Muitas. As entrevistas do doutoramento foram especialmente marcantes, ficaram-me tatuadas na alma. Uma mulher de cerca de 60 anos contou-me, pela primeira vez, que tinha sido violada analmente de forma muito violenta. O detalhe de o agressor acender um cigarro de imediato foi descrito como uma humilhação profunda; parece um pormenor, mas foi algo que me tocou muito e me doeu muito ouvir. Também ouvi relatos de jovens de 15 anos — foi um padrão — que nunca tinham contado a ninguém. Essas histórias ficam connosco.
Uma das suas últimas investigações olha para a forma como o sexo anal é retratado nas relações heterossexuais. O que essa pesquisa lhe revelou sobre poder, género e consentimento?
Quando era jovem, o sexo anal era tabu. De repente, tornou-se omnipresente em séries e filmes. Quis perceber o que impulsionou essa mudança. Encontrei discursos que usam a liberdade sexual das mulheres como imperativo: “explora o teu corpo para seres livre”. Essa retórica convive com pressão social e prescrição de comportamento. O consentimento aparece como escudo, quase como o “consuma responsavelmente” nas garrafas de álcool: promove-se a prática, mas acrescenta-se um aviso. Isto fez-me repensar o papel do consentimento, que tem limitações e não explica toda a dinâmica de poder envolvida.

“Não quero recrutar ninguém”
Publicou recentemente um post mostrando ataques que recebe online. Como lida com estes comentários?
Hoje lido melhor. Quando escrevi sobre o Ronaldo, em 2018, recebi muito ódio e isso abalou-me. Com o tempo, habituei-me e passei a olhar para esses comentários como material de trabalho, com lentes de cientista social.
Que aprendizagens pessoais lhe trouxe este percurso?
Aprendi que estamos mais sozinhas do que gostaríamos. Muitas pessoas comprometidas publicamente com o combate à violência contra as mulheres ficam silenciosas quando o agressor é alguém próximo. Analisar a violência sexual em Portugal ajudou-me a perceber muito sobre os silêncios culturais do país.
Que conselho deixaria a quem quer estudar ou intervir nesta área, mas teme o peso emocional do tema?
Eu não quero recrutar ninguém, de todo. Acho que há muitas ferramentas para lidar com a seriedade do assunto e para não permitir que nos engula a vida toda. Há mecanismos de autoproteção e distanciamento, de gestão emocional, que se vão aprendendo. É possível. Mas também acho que as pessoas só devem mergulhar neste tema se isso não implicar um custo demasiado alto; há outras formas de contribuir, de participar e de divulgar.





