Natural de Coimbra, Marco Fresco, 43 anos, criador do programa Retro-Gamers (SIC Radical), já colaborou com grandes marcas como a PlayStation e a Nintendo e é uma das principais caras do gaming e de eventos de videojogos em Portugal. Nesta entrevista, conta várias histórias sobre paixão à qual dedica grande parte da sua vida.
Em entrevista à Magazine HD, referiu-se a grandes nomes da indústria e a colegas de profissão com enorme respeito. Tem figuras de referência que moldaram a sua forma de estar à frente das câmaras?
Tenho inspirações, como o Templo dos Jogos da SIC e alguns criadores de conteúdo online. Sinto que a maioria da criação de conteúdo, hoje em dia, não tem a sua fixação no jogo, mas sim neles como a personagem principal daquele vídeo. Hoje os vídeos procuram muito mais conteúdo rápido do que qualidade. No TikTok tenho mais de 100 mil seguidores e no YouTube 25 mil, sinto que as pessoas querem, cada vez mais, dopamina rápida. O mesmo nos jogos: como as pessoas têm menos tempo preferem jogar o FIFA que é um jogo rápido e sem cutscenes do que jogarem o The Last of Us devido à sua longa história, até já vi gente a dizer que Red Dead Redemption II era uma seca!
Demonstra um grande carinho pela SIC Radical, onde foi apresentador do programa Retro-Gamers. Na altura, o que o fez sentir que aquele canal era o certo para começar a sua jornada, em vez de seguir caminhos mais convencionais na televisão ou fortalecer as redes sociais?
Uma das razões pelas quais eu sempre achei que a SIC Radical era realmente o canal certo para mim, foi porque eu próprio não sou uma pessoa muito de ver televisão. No entanto, segui este canal desde que apareceu, era um canal irreverente, feito para jovens, que eu sentia que era quase o YouTube; qualquer pessoa podia realmente estar alí a apresentar uma coisa desde que soubesse o que é que estava a falar. Ao contrário dos canais convencionais em que tem pessoas mais formadas. É exatamente para isso que que esses canais servem. Sempre senti que este canal era mais alternativo. Aliás, o nome diz tudo: radical. Quando soube que o meu programa, que era mais direcionado para as redes sociais, iria estar lá, disse: “Perfeito, porque este é o canal para este tipo de conteúdo”. Lembro-me da SIC Radical e vem-me uma nostalgia muito grande com os primeiros episódios do Curto Circuito. Os videojogos têm exatamente a mesma essência: é nostalgia.
Sente que essa nostalgia ajudou-o a abrir portas, não só a si, mas para quem experienciou esse sentimento?
Nostalgia é uma das principais razões pelas quais o retro é algo falado ainda hoje. E por isso é que o meu programa teve sucesso, exatamente pela nostalgia, pelas memórias que as pessoas têm com muito carinho. É como a música. Há certas melodias num jogo que te enviam logo para anos atrás, para uma altura em que eras muito feliz a jogar. Quando comecei no YouTube nunca pensei alguma vez que ia passar a estar num canal de televisão. Estive no canal de televisão exatamente por ter começado no YouTube. Isso mostra que estava a fazer alguma coisa correta. Lembro-me que, quando era mais novo, jamais pensaria neste futuro que muitos podem ter agora, isso para nós não era sequer uma possibilidade. Então, fico muito contente por abrir portas e que os jovens possam enveredar por profissões que não existiam há quinze, vinte anos.
“Quando os comentários são negativos e não são construtivos, mais vale não ligar e passar para o próximo”
A comunidade de gaming pode ser muito intensa, passa-se de “ídolo” a “alvo de críticas” num post. Como lida com essa volatilidade da opinião pública e o que sente quando percebe que o público reconhece o seu papel como pioneiro na área?
Pioneiro não me chamaria, porque muitos já faziam aquilo que eu faço. Quanto às críticas é muito simples: é não querer saber. Quando os comentários são negativos e não são construtivos, mais vale não ligar e passar para o próximo.
Hoje, com as redes sociais, o feedback é imediato e, por vezes, duro. Prefere a honestidade bruta dos comentários online ou sente falta da distância que a televisão proporcionava?
Prefiro ter o feedback rápido porque, em televisão, muitas vezes gravávamos dois ou três episódios antes de serem emitidos e não tens noção do que o teu público quer que mude. Antes do meu programa, não sabia bem o que fazer com as mãos sem ter um microfone, parecia que as agitava muito. Só passados quatro episódios é que reparei nisso depois de ver as críticas. Na internet é imediato e assim podes melhorar.

Ainda na entrevista à Magazine HD disse que o panorama nacional, nos últimos dez anos, tem estado cada vez melhor, destacando o retro-gaming em Portugal. Sente que teve uma grande importância nesse papel? O que gostaria que as pessoas dissessem sobre o seu legado?
Esta pergunta é um bocado ‘o que dizem os teus olhos’ (risos). Quando as pessoas querem saber sobre algum jogo, gostaria que, tal como hoje se vai pesquisar à Wikipédia, elas fossem ao meu canal fazer essa pesquisa. O que mais gosto em eventos é a chance de ver, como já me aconteceu, pais e filhos que me reconhecem, mas de formas diferentes: o pai reconhecia-me da TV e o filho do YouTube. Fico contente por ver estas situações.
O retro vai continuar a aumentar pelo mundo fora?
O retro vai sempre acompanhar-nos. Hoje em dia, as consolas que achava que nunca iriam ficar para trás no tempo, como a PlayStation 3, são consideradas retro. É algo a que as pessoas voltam a jogar pela sua infância. O retro-gaming evolui com as pessoas e haverá sempre a curiosidade do que veio antes, por isso sinto que só vai aumentar com o tempo.
No mundo da televisão e dos eventos ao vivo, há sempre imprevistos. Alguma vez teve um momento numa emissão em direto em que pensou: “Isto não estava de todo no meu guião”?
Uma vez, a gravar o programa do Retro-Gamers, tive um entrevistado que estava muito entusiasmado para aparecer no programa e ficou o tempo todo, antes da gravação, a contar-me histórias que se encaixaram na perfeição com o episódio. Mas, assim que as câmaras se ativaram, ele paralisou e as respostas eram apenas de sim ou ‘não. A única resposta boa que ele me deu foi assim que os alarmes da SIC dispararam.
Já produziu conteúdo com diferentes marcas. Já alguma vez teve algum problema com alguma marca?
Já tive muitas marcas que vêm atrás de mim e que pediram para falar sobre os seus produtos, mas sinto que, se não gosto do produto, não o vou divulgar. Estaria a divulgar um produto que não iria consumir e iria perder a minha credibilidade. Quando se começa, pensas no dinheiro que eles oferecem, mas as marcas grandes não gostam quando já deste voz a produtos maus. Os meus seguidores iriam perder o respeito por mim e pensariam algo do género: “ele já me fez perder dinheiro em coisas más, para quê confiar nele?”
“Faço projetos a pensar naquilo que eu gosto mesmo”
Nem todos os projetos ou lançamentos de jogos correm como esperado. É muito autocrítico quando um projeto não atinge os números ou o impacto que previa?
Sim, sou muito autocrítico comigo próprio. Muitas vezes, faço projetos a pensar naquilo que eu gosto mesmo e esses costumam ser os que têm menos visualizações, mas os que recebem melhores críticas. Quem vê sente que o vídeo foi feito também para si.
Mencionou que é preciso saber desligar. Quando não está à frente de um ecrã, a gravar conteúdos, o que é que o Marco Fresco faz para fazer o reset total?
Amo ouvir música especialmente Metal. Ainda agora fui ouvir o concerto do Shawn James, que é um dos compositores de The Last of Us. Muitas vezes, viajo para outros países para concertos e viajar. Mas o que gosto mesmo muito é de praticar Jiu-Jitsu, onde tenho quatro graus.






