O lançamento do álbum Muito Mais marca a etapa mais autêntica de Beatriz Pessoa. Depois de quase ter abandonado a música por exaustão com a indústria, a cantautora lisboeta — com um percurso dividido entre a escola do jazz e os palcos do Festival da Canção —, deixa para trás a timidez de Primaveras e Prazer Prazer e encontrou agora um registo (mais) honesto. Nesta conversa, revela como se libertou de expectativas alheias para ser, finalmente, a artista que sempre quis.
Aos 13 anos, trocou as referências pop com que cresceu pelo mundo do jazz, na Lisbon Jazz Summer School, no CCB. Como descreveu à Culturgest, bastou uma jam session para sentir de imediato que “pertencia ali”. Num universo até então desconhecido, de onde surgiu a certeza de que estava no sítio certo?
Nunca me senti tão confortável na minha pele como quando estou a cantar. Às vezes nem é na minha pele — é na pele que quero ser naquele momento. Dependendo da canção, posso ser coisas diferentes. Como o jazz vem dessa liberdade, senti logo que era aquilo que queria fazer. É claro que é importante percebermos até que ponto temos talento. As pessoas à minha volta foram-me dando essa confiança. Senti que tinha esse ‘chão’ para estudar música.
Dois anos depois, estreia-se profissionalmente no Hot Clube, mas foi nos concertos do extinto Café Tati que surgiu o verdadeiro clique. Em entrevista à NiT, confessou que, numa dessas noites, desabafou a um amigo: «Quero ser cantora». Quando é que percebeu que a música era a sua escolha definitiva?
Foi quando comecei a ter mais disciplina e a querer perceber, na prática, como funcionava o meio profissional. Nesse sentido, sempre fui muito curiosa, mas com os pés no chão. Por ter uma família com muitos artistas, nunca romantizei a carreira: sempre soube que o meio das artes tem coisas muito incríveis, mas também alguma precariedade. Precisava de enfrentar essa realidade para poder crescer e ser independente.

“Essa vontade de descobrir e de conquistar tudo sozinha é importante para a autoestima e para a visão do mundo”
Em 2015, a Licenciatura em Canto Jazz na Escola Superior de Música de Lisboa levou-a de Erasmus a Paris. Nessa mesma entrevista, recordou ter sido aí, «debruçada sobre o piano», que compôs o EP de estreia, Insects, lançado no ano seguinte. O que despertou essa urgência de contar as próprias histórias?
No início, a composição é algo abstrato e assustador, porque não sabes que não há regras. Quando percebi que tem muitos começos diferentes, senti tranquilidade. Foi a primeira que estive sozinha numa cidade. Essa solidão de estar num sítio que não me era confortável, mas que ao mesmo tempo era ‘meu’, deu-me um espaço que se calhar não teria em Lisboa. Quando voltei, tive a certeza: é isto que quero fazer. Ganhei rapidamente um vício por essa forma de desabafar.
Em 2019, o que começou por ser uma simples viagem ao Rio de Janeiro transformou-se no seu primeiro disco, Primaveras, editado em 2021 – um acaso que admitiu no podcast 1 Cover, 1 Copo ter sido «nada planeado». De que forma gravar tão longe da sua zona de conforto transformou a confiança nas suas próprias capacidades?
Viver no Rio de Janeiro foi uma experiência mágica. Estava dentro do meu conto de fadas, a cantar em sítios onde passaram nomes como Caetano Veloso e Elis Regina. Precisamente por ter sido um processo muito espontâneo e aos trambolhões, acabei por não criar grandes expectativas, ajudando-me a gerir a ansiedade. É um disco muito meu: sou a compositora, fiz os arranjos e a produção, o que me provou que sabia o que estava a fazer. Estar longe de casa trouxe-me uma confiança e independência imensas. Essa vontade de descobrir e de conquistar tudo sozinha é importante para a autoestima e para a visão do mundo.

“Da mesma forma que as pessoas romantizam a vida artística, às vezes romantizo o ‘nove às cinco’. Invejo rotinas”
Ao Observador, sublinhou que às mulheres artistas «não chega escrever música […] temos de ter beleza». Quão exaustivo é ter de gerir constantemente o que veste, diz e partilha?
O sexismo não faz parte só do meio artístico — faz parte da sociedade. Chateia-me que a resposta e a reflexão sobre esse problema recaiam sobre nós. A uma mulher artista é sempre feita essa pergunta. Numa entrevista, respondi «Mas faz essa pergunta a artistas do sexo masculino?» Essa exigência é um peso: temos de saber falar sobre tudo, ter uma determinada imagem e parece que nunca está certo. As redes sociais intensificaram isso. Quando fui mãe, perdi três mil seguidores num dia. Nem partilho muito a vida pessoal, mas muitas artistas, para se manterem ativas depois de serem mães, têm de tornar a maternidade numa parte da sua influência. Onde está a linha entre a publicidade, os influenciadores e a arte? Está tudo misturado.
Em 2023, após editar o disco Prazer Prazer, chegou a ponderar o fim da carreira. No entanto, revelou à Rádio Olisipo que dessa mesma exaustão nasceu, em 2025, o single Pó de Palco. Escrever sobre esse limite reacendeu a vontade de continuar?
Foi uma surpresa até para mim. Estava muito saturada do meio, tinha acabado de ser mãe e comecei a repensar se queria continuar nesta vida precária e de gestão constante de expectativas. Da mesma forma que as pessoas romantizam a vida artística, às vezes romantizo o ‘nove às cinco’. Invejo rotinas. Sinto que o meu trabalho nunca acaba e estou sempre a lutar por atenção, o que mexe imenso com a autoestima. Pensei em mudar de vida. Mas, no meio dessa confusão interna, a minha reação foi ir desabafar para o piano. Quando dei por mim a escrever canções, ri-me e acabei por aceitar: é o que sei e gosto de fazer, não ia ser feliz a fazer outra coisa.
“Se vou fazer, vou fazer o que quiser. Estou-me a lixar”
No Festival da Canção, já viveu três papéis muito distintos: em 2018 deu voz a Eu Te Amo de Mallu Magalhães, juntou-se ao coro de MARO em Saudade Saudade em 2022 e, em 2025, assinou a letra de Eu Sei Que o Amor, para a Margarida Campelo. Entre a performance e a composição, onde sentiu maior responsabilidade e onde encontrou total liberdade?
Mais livre artisticamente foi, sem dúvida, com a Margarida. É uma das minhas melhores amigas e foi uma das minhas primeiras professoras. Vê-la a brilhar num palco que lhe pertence deixou-me muito feliz. Quando não tens de estar em cima do palco, é mais fixe [risos]. Fiz a parte divertida e no Festival estava só em ‘modo amiga’. Mais livre não podia ser.
A responsabilidade senti quando cantei a música da Mallu. Foi a minha primeira vez na televisão e vivi tudo de forma muito intensa. Era a responsabilidade de cantar uma música que não era minha. Lembro-me de estar com roupas que não eram o meu estilo, o que me fez confusão.
Com a MARO… ir à Eurovisão é um mundo! Quando vais com o coro, estás mais protegida, mas o silêncio de uma multidão de dez mil pessoas é um som muito específico. É tão viciante que percebo porque artistas dessa dimensão acabam por ceder a drogas ou a estilos de vida mais extremos. É muito fácil caíres nesse abismo de achar que aquilo é para ti e sobre ti. Percebi essa sensação porque, de facto, é uma moca.
A 27 de março deste ano chega Muito Mais, um disco que, como antecipou à ON FM, está «mais perto de quem sou». O que ainda falta libertar para descobrirmos “muito mais” de si?
Não ouço só música brasileira, nem só jazz, nem só pop – ouço muitas coisas. Sou uma pessoa muito viva, falo muito, tenho algum caos. Sempre tive algum preconceito em ser ‘eu toda’, até a nível estético. Gosto da parte performativa de estar no palco, mas sempre tive alguma timidez em ser mais assim. Depois de ter sido mãe e do momento de desencanto com o meio, pensei: se vou fazer, vou fazer o que quiser. Estou-me a lixar! Tem sido exatamente o que quero fazer, sem pensar como as pessoas vão receber. Quando tens orgulho no que fizeste, ficas menos sujeita à opinião de terceiros. Este disco sou eu.
Quando a música para, o palco fica vazio e os holofotes se apagam, quem é a Beatriz por trás da artista?
Ui, pergunta difícil [pausa]. Orgulho-me de saber rodear-me de quem me faz bem. Sou feliz com pouco. Sou insegura, mas gosto de acreditar que a confiança se constrói aos poucos e por momentos. Quando me olho ao espelho, gosto de me ver cheia dessas mesmas pessoas e, mais do que isso, sentir que as consigo fazer felizes.





