Num tempo marcado pelo afastamento das pessoas devido à evolução das tecnologias, será que o teatro surge como um meio de combate a essa distância? Para responder a essa pergunta, fomos visitar o projeto Palco de Chocolate, em Lisboa, onde assistimos ao ensaio de duas das suas turmas e conversámos com a coordenadora, os professores e alguns dos jovens alunos.
No Lagar de São Vicente, em Telheiras, vários jovens esperam que alguém lhes abra a porta das traseiras de uma casa amarela. É então que surge Cláudio Martins, um dos professores, levando-os para uma sala com paredes brancas, onde cerca de 20 jovens começam a preparar-se para mais um ensaio da peça final. “Só faltam quatro”, diz uma das jovens enquanto pensa em todos os ensaios que restam até ao grande dia. Quando estão todos prontos, surge Natasha, professora e coordenadora, que dá a indicação de início do ensaio.
O Palco de Chocolate, que conta já com 23 anos de existência, nasceu quando Natasha realizou alguns projetos de teatro em escolas e percebeu a importância e impacto desta atividade no desenvolvimento dos mais novos. “A minha especialização é teatro para crianças e jovens, por isso nunca tive como objetivo dar aulas a adultos”, confidencia. “Já aconteceu, mas aquilo que nos interessa mesmo é a faixa etária entre os 5 e os 18 anos”.
O que distingue este projeto de outros é, segundo a coordenadora, a dedicação e o foco em dar aos alunos o carinho de que precisam para que cresçam de forma saudável. “Gostava que eles, no futuro, soubessem colocar-se no papel dos outros e que levassem consigo muitas das amizades que vão fazendo ao longo deste percurso”, diz Natasha.
A harmonia que se vê nos ensaios parece comprovar as palavras da coordenadora. A maioria destes jovens teve o seu primeiro contacto com esto teatro no Palco de Chocolate, muitos deles ainda não andavam no ensino primário. É o caso de Carlota*. “Quando tinha quatro anos, vim ver uma peça e achei espetacular”, conta a jovem de 16 anos. Mal acabou o espetáculo foi ter com Natasha e disse-lhe que no ano a seguinte também queria participar.
Começam cedo e, em muitos casos, ficam largos anos ligados à instituição. “Temos meninos que estão oito e nove anos connosco”, acrescenta a coordenadora.


O combate à timidez e a conquista de confiança
No teatro como na vida, a convivência entre várias personalidades é fundamental. “O que nós gostamos é que haja um equilíbrio entre os mais tímidos e os extrovertidos”, diz a professora Margarida Vasconcelos. Opinião reforçada pelo seu colega,, Cláudio Martins.“O desafio é tentar que eles cruzem a valência que têm a mais para criarmos um grupo mais equilibrado”.
Os professores acreditam que estar em palco ajuda no desenvolvimento de ferramentas para o futuro destes jovens, seja em que área for. Mais do que formar atores, o objetivo passa por formar adultos confiantes, empáticos e prontos para qualquer desafio. “O teatro tem impacto na forma como nos relacionamos com o outro e como encaramos o dia-a-dia”, garante Cláudio Martins. “Cada vez mais, a sociedade está presa aos ecrãs e acho que eles têm essa consciência e acabam por procurar o teatro como uma atividade para estarem presencialmente com outras pessoas”.
Um desses casos é Tomás , de 16 anos, que começou a fazer teatro com oito anos de idade. O jovem não tem dúvidas que se tornou “mais comunicativo e mais extrovertido”.
A timidez e a vergonha são, segundo estes pequenos atores, os traços de personalidade que o Palco de Chocolate mais ajuda a superar. “Comecei a fazer teatro para conhecer mais pessoas e tirar a minha timidez”, confirma Sofia, de 12 anos. Carlota, quatro anos mais velha, reforça as palavras da colega.”Era muito nervosa e agora já consigo descontrair e fazer coisas sem vergonha. Sempre tive dificuldade em fazer amigos e o teatro ajuda-me a não ter medo de ir ter com as pessoas”.
“No dia a dia temos imprevistos e também temos de improvisar. Acho que o teatro ajuda imenso nisso”
Para que isto aconteça, há um grande trabalho por parte dos três formadores da casa. “Quando as crianças são tímidas, normalmente não vêm por vontade própria e é importante respeitarmos o espaço delas”, diz Margarida Vasconcelos. Diz também o histórico e a experiência que, de aula para aula, “vão ganhando mais confiança”.
Os ensaios, o palco e a convivência semanal acabam por ajudar a moldar personalidades destes jovens muito para além das paredes da instituição. Emília, também ela com 16 anos, confirma. “Foi a maneira de descobrir qual é a minha personalidade”. A jovem adolescente avança que, ao contrário da escola, em temos uma tendência para “imitar outras pessoas”, no teatro podemos mostrar verdadeiramente quem somos. “Ao interpretares outras vidas, percebes que características queres ter”.
O improviso é uma das ferramentas fundamentais neste processo. “Fazemos exercícios que não estamos nada à espera e temos de criar algo que faça sentido”, avança Júlia, de 14 anos. “No dia a dia temos imprevistos e também temos de improvisar. Acho que o teatro ajuda imenso nisso”.
Laura, do alto dos seus 12 anos, resume de forma assertiva, tudo o que aqui se passa. “No teatro o que fazemos é (representar) uma vida diferente, podemos ser muitas pessoas ao mesmo tempo”. Colocando-se no papel do outro, estes jovens descobrem-se a si próprios.
- Os nomes são fictícios, de forma a proteger a identidade dos jovens.





