Aos 15 anos, em plena pandemia, Júlia Lavezzo criou a LXCIDARTE e transformou as suas ilustrações numa marca de arte.
Júlia recebe-nos no seu estúdio, na Rua da Alfândega, em Lisboa, onde passa grande parte do tempo. A artista brasileira, nascida em 2005, mudou-se para a capital portuguesa em 2019. Foi aqui que começou a desenvolver o seu percurso artístico, criando a LXCIDARTE, uma loja online independente que procura dar forma a sentimentos e pensamentos através da arte – produtos como prints, stickers, t-shirts, tote bags e bijuteria. Entre ilustrações, feiras e criações, o trabalho tem vindo a dar frutos, com a sua marca a afirmar-se no panorama artístico independente nacional.
Mudou-se ainda muito jovem. Mudanças desse tipo podem influenciar bastante o percurso pessoal e criativo de uma pessoa. De que forma essa mudança influenciou o seu percurso artístico ou a forma como hoje cria arte?
Eu e a minha família mudámo-nos em dezembro de 2019, mesmo numa altura em que a pandemia estava prestes a começar. No Brasil, eu estava muito ligada à música, sobretudo ao piano e ao canto. Quando chegámos cá, pouco tempo depois entrou-se em pandemia e acabámos por ficar em casa, num país completamente novo, sem conhecer ninguém e sem grande coisa para fazer. Foi nesse contexto que comecei a desenhar. Pegava em imagens da internet, fazia esboços e fui evoluindo a partir daí. Acho que foi durante a quarentena que nasceu uma grande paixão pela ilustração, que acabou por moldar a forma como faço arte atualmente. A música não desapareceu, mas ficou em segundo plano.
Desde pequena que gosta de desenhar e pintar e descreveu-se como uma criança imaginativa. Quando é que percebeu que a arte podia fazer parte do seu futuro?
O momento de viragem foi em 2022, quando fiz a minha primeira feira com a LXCIDARTE e consegui fazer 60 euros num dia. Com 15 anos, ver aquele dinheiro feito a partir das minhas ilustrações fez-me perceber que aquilo que criava tinha valor e podia chegar às pessoas. Foi a primeira vez que senti que isto podia ter futuro e que talvez conseguisse construir algo a partir da minha arte. Claro que é um caminho incerto. Já houve feiras em que perdi dinheiro, mas faz parte do processo e do crescimento.

“Comecei a notar que as pessoas valorizavam mais quando a arte não tem só significado, mas também utilidade”
Em que momento surgiu a ideia de transformar os seus desenhos numa marca?
Sempre tive muitas referências e gostei de ir a feiras de arte. No início fazia apenas ilustrações e depois imprimia prints. Ao observar outros artistas, percebi que muitos aplicavam os seus desenhos em produtos como meias, t-shirts ou tote bags. Isso fez-me questionar o que podia fazer com os meus próprios desenhos e perceber que a arte podia ir além de uma ilustração pendurada na parede. Comecei a notar que as pessoas valorizavam mais quando a arte tem não só significado, mas também utilidade. Um print pode decorar um espaço, mas uma t-shirt ou uma tote bag acompanha a pessoa no dia a dia e cria uma ligação mais próxima.
Hoje, vende vários produtos, desde ilustrações a peças utilitárias. Pode explicar o processo de criação?
Penso sempre na altura do ano e no que está em tendência. Primeiro faço o desenho sem pensar muito. Depois pergunto-me se faz sentido transformá-lo num produto e em quê. Se tiver uma frase engraçada, pode tornar-se um print; se tiver um design mais forte, pode ser aplicado numa t-shirt. É muito um processo de experimentação, perceber o que as pessoas procuram e adaptar a arte ao produto. Depois passo para a produção, através da impressão ou da aplicação nos materiais, e faço a divulgação nas redes sociais e em feiras, onde o produto acaba por chegar ao público.
Além da loja online, também participa regularmente em feiras e mercados de arte e divulga esses momentos nas redes sociais. Que importância têm esses eventos para o crescimento da LXCIDARTE e para o contacto com o público?
Foi nas feiras que mais aprendi a lidar com o público. Como não tinha orientação, fui aprendendo na base do erro, percebendo como falar com as pessoas e despertar interesse. Estes eventos são importantes porque permitem o contacto direto com pessoas que, só através das redes sociais, eu nunca conheceria. Já tive pessoas que levaram a minha arte para outros países e depois enviaram fotografias, por exemplo do Canadá, com uma t-shirt minha. Isso, para mim, é das coisas mais motivadoras: saber que a minha arte chega a diferentes partes do mundo.
Estudou na Escola Artística António Arroio e atualmente frequenta a Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. De que forma a experiência na António Arroio contribuiu para o desenvolvimento do seu lado artístico e identidade enquanto criadora?
Na António Arroio foi onde mais desenvolvi o meu lado artístico. Eu vinha mais da música, mas lá aprendi muito sobre artes visuais e cultura, tanto em História da Arte como em Gestão das Artes. Estávamos sempre rodeados de arte no dia a dia, entre espetáculos, feiras e exposições, e os professores incentivavam-nos a experimentar. Isso ajudou-me a perceber que sou multidisciplinar, com interesse por várias áreas criativas. Experimentei fotografia, que acabou por se tornar uma paixão, design de comunicação e até ourivesaria, que percebi não ser tanto a minha área. Mais do que tudo, foi importante explorar várias áreas numa fase em que ainda me estava a descobrir.
A LXCIDARTE continua em crescimento, mas construir um projeto artístico independente nem sempre é fácil. Já consegue viver da marca?
Ainda não consigo viver só da LXCIDARTE. Era um sonho dedicar-me totalmente à marca, mas ainda não é possível, muito por conta do contexto em Portugal. A nível económico e cultural, sinto que muitas pessoas não têm capacidade para valorizar e consumir arte de forma consistente. Com o custo de vida atual, torna-se difícil apoiar pequenos negócios regularmente.

“Já me considerei mais artista do que hoje. Atualmente, vejo-me também como alguém que quer mostrar o trabalho dos outros”
Referiu que “é na arte que encontra casa”. Se tivesse de explicar o que é a arte para si, como a descreveria?
A arte, para mim, é experiência e conforto. É experiência porque estou constantemente a explorar e a sair da zona de conforto. Nem sempre é um processo fácil; há frustração e até algum sofrimento, mas faz parte do crescimento. Gosto da ideia de trabalhar a arte de várias formas, desde colagens a som ou investigação. Tenho também interesse pela curadoria e por conhecer diferentes tipos de arte. Ao longo do tempo, já me considerei mais artista do que hoje; atualmente vejo-me também como alguém que quer mostrar o trabalho dos outros. Mas, ao mesmo tempo, a arte é conforto. Quando a vida está complicada e tudo parece um caos, sento-me à mesa, começo a escrever ou a desenhar e sinto que tudo acalma. É como se estivesse em casa, como se, por momentos, tudo ficasse bem.
Muitos artistas começam por vender online e em feiras antes de pensarem num espaço próprio. No futuro imagina a LXCIDARTE com um espaço físico?
Adorava. É um dos meus maiores sonhos. Mas não seria apenas uma loja. Imagino um espaço com cafetaria, música e uma zona de exposições. Um sítio onde as pessoas possam estar, tomar um café, ver arte e descobrir novos artistas. Também gostava de incluir trabalhos de outros criadores. Ou seja, não seria apenas um espaço de venda, mas um espaço de experiência, onde a arte faz parte do dia a dia.










