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-Início»Entrevistas»Luís Filipe Gaspar: “Para a maioria das pessoas, viajar é simpático, mas é uma vida sacrificante”

Luís Filipe Gaspar: “Para a maioria das pessoas, viajar é simpático, mas é uma vida sacrificante”

Anna Chepak 17 Jul 2026 Entrevistas, Entrevistas

De um simples interrail na juventude aos clubes mais exclusivos de viajantes, Luís Filipe Gaspar é um dos portugueses mais viajados do mundo. Com os 193 países já visitados, pretende agora dar a segunda volta ao globo, mas com “mais calma”. Nesta entrevista — dada em sua casa, na cidade de Lisboa — aborda o início do vício pela estrada, os desafios ultrapassados e a eterna fronteira entre ser turista e viajante.

https://ualmedia.pt/wp-content/uploads//2026/07/anna.mp4

 

Começou a aperceber-se da sua paixão pelas viagens quando tinha 16 anos, após um interrail com um amigo. De que forma conseguiu financiar essa primeira viagem?

Vendendo gelados e livros de porta a porta. O interrail era relativamente barato, e, além disso, dormia em estações de caminho de ferro, comboios ou em bancos de jardim. Comia um iogurte ou dois por dia e passava debaixo das catracas dos museus para não pagar bilhete. Foram os meus pais que me incutiram o bichinho da viagem. Quando parti para o meu primeiro interrail ficaram apreensivos, mas calmos.

Uma paixão que persistiu enquanto adulto. Como é que a sua vida profissional e o gosto pelas viagens acabaram por se cruzar e conciliar ao longo dos anos?

Terminei o curso de Arquitetura, fui trabalhar três anos para a Itália. Trabalhei, depois,em Portugal numa empresa multinacional, que complementava as viagens de trabalho e as estadias longas com a possibilidade de viajar. Por fim, trabalhei 12 anos no Brasil, em São Paulo, que me deu uma maior abertura para viajar.

A partir de certa altura criou um site onde partilha conteúdos relacionados com os destinos por onde passa. Como é que surgiu essa ideia e porque é que sentiu essa necessidade ?

A ideia chegou, em 2012, através de um amigo que faz sites. Na altura, nem sequer se conhecia bem o que era a internet. Quis logo fazer um site para divulgar, gratuitamente, as fotografias. Sempre lutei um pouco contra as redes sociais, não tenho muita apetência para isso. Filmar em viagem impede-nos de desfrutar, pois exige criar uma história e dá trabalho. A fotografia é rápida, prática e não aborrece quem nos acompanha. Por isso, embora tenha vídeos mais complexos no meu site, o blogue vive essencialmente de fotografias.

Existem clubes muito restritos para grandes viajantes. Como funcionam esses clubes e de que forma o confrontaram com a sua própria dimensão enquanto viajante?

Existem clubes muito exclusivos. O mais antigo é o Travelers’ Century Club (TCC), na Califórnia, que tem uma regra muito clara: só admite quem tenha visitado mais de 100 países ou regiões. A exigência pode ir muito além disso. Lembro-me de uma vez estar à boleia entre a Guiana e o Suriname e ter conhecido o grande viajante português, já falecido, José Megre, que me deu boleia. Foi nestas andanças e conversas que percebi a verdadeira escala desta comunidade. Para entrar no verdadeiro ‘clube’ da elite dos viajantes o primeiro degrau é ter visitado todos os países do mundo. Quando percebi isso, fiquei reduzido a uma coisa pequena. Há uma comunidade com cerca de 300 pessoas, que já terminaram todos os países do mundo. Só há, ainda, três pessoas que fizeram a segunda volta, é o que estou a fazer agora.

Luís Filipe Gaspar durante o interrail, em Londres, 1975

Já esteve em todos os países do mundo. De que forma responde aos críticos que dizem ser impossível conhecer verdadeiramente 193 países numa só vida?

Respondendo que há países que num só dia conseguimos conhecê-los. Por exemplo, o Nauru é uma ilha que tem um perímetro de 19 km. Qualquer pessoa que faça uma meia-maratona, dá a volta à ilha a pé. Porém, há outros, que uma vida não chega para o explorar.

Depois de ver as maiores maravilhas naturais e arquitetónicas do mundo, suponho que se cria uma espécie de “imunidade ao deslumbramento”. Ainda é fácil surpreender-se?

É muito difícil. Posso dar-lhe um exemplo. O Glaciar Perito Moreno, na Patagónia Argentina, é talvez o maior glaciar do mundo. A primeira vez que lá estive, fiquei uma manhã a olhar para aquele glaciar. Agora, quando vejo outros, penso que já não é a mesma coisa. Quem vê o templo de Angkor Wat, no Camboja, e vai ver outro templo, não fica desiludido, mas é como comparar Nova Delhi a Nova Iorque, são coisas completamente diferentes.

Como arquiteto e com especial interesse em locais classificados pela UNESCO, como avalia a tensão entre a preservação do património e a pressão económica do turismo de massas?

O selo da UNESCO é uma coisa muito política. Pode ser encarado pela parte positiva ou negativa. Embora seja para preservar determinadas zonas, também as classifica para serem desfrutadas. Há locais, nomeadamente aqueles construídos pelo homem, que qualquer pessoa pode visitar. No entanto, existem patrimónios naturais que é preciso uma licença especial que, muitas das vezes, não se consegue.

“Tenho medo de ter medo”

O Luís, em 2018, contou no podcast “Maluco Beleza” uma das suas histórias mais caricatas no Mali, em 2011, quando tentava chegar à Grande Mesquita de Djenné. Num mundo atual onde o turismo é híper planeado e controlado ao minuto, qual é a importância de se deixar abraçar pelo caos e pelo improviso?

Existe o turista e o viajante. O turista, no meu conceito, é aquele que compra um bilhete de ida e de volta. Quase sempre sou turista, mas na minha viagem de turismo, sou viajante. É um improviso bem estudado, com vários planos. Tenho de ter sempre escapatórias. Nunca tive nenhum problema nas minhas viagens, porque as planifico muito bem. Será isso improvisar? Talvez. Contudo, programar uma viagem dá tanto prazer quase como a fazer.

Como é que se treina a mente para dominar o medo e a ansiedade numa situação de vulnerabilidade?

Tenho medo de ter medo. Por essa razão é que faço uma quantidade de desportos radicais. No entanto, reconheço os riscos. Em determinados contextos e países, não passo do frango com o arroz branco. Se estiver sozinho e tiver um problema intestinal ninguém me vai tirar da cama, até começar a cheirar mal. Portanto, tenho de me precaver.

Passar meses na estrada significa conhecer milhares de pessoas, mas também deixar outras para trás. Qual é o preço pessoal e afetivo de ter o mundo inteiro como casa?

Viajo três semanas por mês. Na semana que estou em Lisboa, revejo as amizades, estou com a minha família e lavo a roupa. Quando viajo, interajo com pessoas, mas não muito. Não sou daqueles viajantes que estão sempre com uma viola a cantar e com histórias. Essas histórias não me dizem nada.

https://ualmedia.pt/wp-content/uploads//2026/07/video-sacrificio.mp4

“O meu objetivo é começar a viajar com mais calma”

Com a formação em Arquitetura e o foco na Património da UNESCO, a sua forma de ler o mundo passa muito pelo espaço e património construído…

Na maioria das vezes, temos de ir aos lugares para ver. Um dos pontos essenciais é respirar o ambiente. Podemos chegar à Torre de Belém e tirar uma fotografia, mas se estivermos lá, conseguimos ver o quão bonita é, e quanto comunica com o rio e a cidade. É importante ir cheirar o que há na Índia, de bom e mau, cheirar o que há em Nova Iorque, porque a fotografia não nos dá isso. Nos livros, é difícil tentarmos transportar esta ideia a não ser no local.

Depois de dedicar tantos anos da sua vida a um objetivo tão grande e exigente, qual foi o sentimento quando completou os 193 países? 

Essa pergunta foi-me feita quando os terminei e disse: ‘agora vou começar a viajar’. É muito gratificante abrir o mapa e ver que já fui a todos os países. O meu objetivo é começar a viajar com mais calma, não apenas visitar o país pela recolha do carimbo.

Sente que poderia ter ficado mais tempo num lugar do que noutro… que não aproveitou a 100%? 

Sim. Mas também sinto que gosto sempre de deixar qualquer coisa para visitar outra vez. Embora digam ‘nunca voltes a um lugar onde foste feliz’.

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2026-07-17
João Ferreira Oliveira
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