Num mundo cada vez mais rápido e digital, ainda existem lugares onde o passado continua vivo. Na Aldeia-Museu José Franco, em Mafra, miniaturas em barro recriam profissões antigas, crianças observam animais com curiosidade e visitantes percorrem uma aldeia construída para preservar memórias de um Portugal que desaparece pouco a pouco.
Na pequena vila do Sobreiro, o silêncio engana. Ao lado do esplendor monumental do Palácio e da vastidão natural da Tapada, ergue-se aqui uma memória mais íntima, feita de cheiros, sabores e texturas. Numa manhã de céu limpo, o sol ilumina as fachadas brancas da Aldeia-Museu José Franco. À entrada, os risos das crianças misturam-se com os sons dos animais e o movimento dos visitantes que começam a percorrer o espaço.
Junto ao pequeno parque infantil, famílias observam os animais que ocupam uma das primeiras zonas: coelhos, ovelhas, galinhas, cabras e porquinhos-da-índia convivem lado a lado, dando ao local uma sensação de verdadeira aldeia rural. Entre o som da água, o barro moldado à mão e os mecanismos em movimento das miniaturas, a sensação é a de entrar num retrato vivo da cultura saloia. Uma memória preservada em pleno concelho de Mafra.
Criada pelo oleiro José Franco, esta aldeia-museu nasceu da vontade de preservar tradições e modos de vida do século XX. Natural da vila do Sobreiro, cresceu rodeado pela olaria, uma atividade profundamente ligada à identidade da região. Embora tenha falecido em 2009, o projeto que idealizou continua vivo, mantendo as portas abertas a milhares de visitantes todos os anos.
Segundo Rita Machado, de 26 anos, responsável pelas visitas guiadas, um dos momentos mais importantes do percurso de José Franco aconteceu em 1940, quando participou na Exposição do Mundo Português. A visibilidade que ganhou trouxe-lhe novos clientes e permitiu-lhe desenvolver o projeto que viria a marcar a sua vida. “Começou a sentir que certas coisas estavam a perder-se, fosse na arquitetura ou nos ofícios antigos, e então decidiu transformar o seu ateliê numa aldeia-museu”, explica.
O espaço começou com uma pequena construção, mas foi crescendo ao longo dos anos. Hoje, a aldeia reúne réplicas de profissões antigas, casas tradicionais, oficinas e centenas de objetos que ajudam a recriar a vida saloia. Percorrê-la é, por isso, percorrer também uma parte da história e das tradições locais.
“Há pessoas para quem esta visita já faz parte do ano delas”
Entre as atrações mais marcantes estão as casas tradicionais saloias, a escola antiga com carteiras de madeira, a oficina do ferreiro, o lagar, a mercearia e os espaços dedicados ao artesanato. Em diferentes pontos da aldeia, as crianças param para observar os detalhes: um moinho em funcionamento, pequenos mecanismos em movimento, animais e dezenas de miniaturas espalhadas. Estas pequenas figuras de barro recriam profissões e cenas do quotidiano rural, tornando-se um dos elementos mais fotografados e despertando curiosidade em visitantes de todas as idades.
“Os visitantes aqui podem encontrar não só um museu vivo, que mostra exatamente como era a vida das pessoas, mas também espaços que continuam ativos”, refere Rita Machado. “Temos a padaria, onde fazemos pão todos os dias há mais de 50 anos, a loja de cerâmica, a mercearia tradicional que vende produtos portugueses… é assim que vamos mantendo este projeto vivo.”
Essa ligação entre património e quotidiano é uma das características que distinguem a aldeia de muitos outros espaços museológicos. Aqui, a experiência não se limita à observação de objetos expostos atrás de vitrinas. Há movimento, sons, cheiros e uma interação constante com os visitantes, criando uma sensação de proximidade com a realidade que se procura preservar.
Entre os visitantes encontram-se turistas estrangeiros, famílias portuguesas e pessoas que regressam ano após ano. “Recebemos muitos portugueses que vivem fora e que no verão fazem questão de vir aqui passear e relembrar”, conta Rita. “Há pessoas para quem esta visita já faz parte do ano delas.”
Enquanto os filhos observam os animais, Mariana Azevedo, de 38 anos, vinda de Lisboa, acompanha o entusiasmo das crianças. “Eles, hoje em dia, vivem muito fechados nos telemóveis e nos ecrãs”, diz, enquanto os mais pequenos tentam aproximar-se dos coelhos. “Aqui conseguem perceber como era a vida antigamente. Acho importante terem esse contacto.”
A opinião é partilhada por muitos dos pais. Para além da componente histórica, o museu oferece às crianças uma oportunidade de contacto direto com tradições, animais e atividades que fazem parte da história rural portuguesa.
A visita desperta também recordações em quem viveu de perto algumas das realidades representadas. António Ferreira, de 74 anos, natural de Torres Vedras, percorre o recinto com atenção, observando as oficinas e as ferramentas. “Há coisas que já não se vê há muitos anos”, admite. “Quando era miúdo, isto fazia parte do dia a dia. Hoje em dia, quase já não existe nada disto.”
“Isto é uma aldeia saloia, mas não faltará muito para ser uma aldeia medieval”
Mas é talvez na ligação emocional ao passado que a aldeia encontra a sua maior força. João Luís Ferreira da Silva, de 70 anos, conhece o local desde a juventude. Trabalhou ali nos anos 60 ao lado do próprio José Franco e regressou em 2015, já depois da reforma. Durante grande parte da vida profissional foi chef de cozinha nos hotéis Tivoli, mas nunca perdeu a ligação às memórias construídas ao lado do fundador.
“Trabalhei aqui na minha infância com o Mestre Franco. Estive seis anos com ele”, recorda. Hoje, dedica parte do tempo a fazer pequenas figuras de barro para as crianças. Sentado junto a uma mesa, molda flores, peixes e animais enquanto vários visitantes observam atentamente os movimentos das suas mãos.
À medida que fala, João Luís continua a moldar pequenas figuras de barro diante das crianças que se aproximam da mesa. Algumas observam em silêncio, outras tentam adivinhar o que vai surgir daquele pequeno pedaço de barro castanho. Em poucos minutos, as mãos já transformaram a matéria num gato, arrancando sorrisos aos mais novos.
Segundo o oleiro, é precisamente essa proximidade entre visitantes, artesanato e tradição que distingue a aldeia de outros museus.
Hoje, esta obra continua a adaptar-se ao passar do tempo. A gestão encontra-se nas mãos dos netos de José Franco, responsáveis por novas iniciativas e melhorias implementadas nos últimos anos. Para João Luís, essa renovação trouxe uma nova vida à aldeia. “Isto tem uma energia diferente.”
As mudanças procuram responder aos interesses de quem passa por ali sem alterar a essência do projeto inicial. O objetivo continua a ser o mesmo: preservar e divulgar um património cultural que faz parte da identidade da região. Num contexto marcado pela rapidez da tecnologia e pela transformação constante dos hábitos quotidianos, locais como este acabam por ganhar um significado diferente. “Preservar estes objetos é importante porque nos traz conexão ao nosso passado e ajuda-nos a conhecer mais de nós próprios”, conclui Rita Machado, preparando-se para mais uma visita guiada.










