Da rádio aos cenários de guerra, Luís Castro construiu um percurso no jornalismo português, marcado pela proximidade aos acontecimentos que fazem a História. Ao longo de mais de duas décadas, passou por redações, conflitos internacionais e cargos de responsabilidade editorial, acumulando experiências que moldaram a sua personalidade e identidade profissional. Hoje, com um percurso consolidado, o atual apresentador do Sociedade Civil, na RTP2, olha para trás com carinho e orgulho, mas sem saudosismo.
Antes de chegar à televisão, passou por estações como a Rádio Renascença e a RDP, colaborando também com a BBC. De que forma essa experiência moldou o jornalista que viria a ser?
O jornalismo mudou muito e eu também fui mudando ao longo dos tempos. Quando comecei, a minha atividade principal não era o jornalismo, era a eletrónica. Pode ser curioso, mas eu também sou técnico de eletrónica. Foi a minha primeira profissão. Depois, quando sou colocado na Rádio Lajes — a rádio da Força Aérea nos Açores —, é aí que muda o percurso da minha vida. Largo a eletrónica e decido seguir o jornalismo.
Inicia funções na RTP em 1992. O que encontrou na estação nessa altura e como foram os primeiros anos de adaptação à televisão?
A minha primeira experiência na RTP foi como jornalista de desporto. Fiz uma época e meia no desporto. Tive de fugir do Estádio das Antas, do Estádio do Aves, do Estádio 1.º de Maio, em Braga… os Super Dragões quase que me viravam um carro à porta do Departamento de Futebol do Porto. Passei por estas e outras peripécias e achei que não era aquilo que queria fazer. Apesar de gostar muito de desporto e de ser praticante de várias modalidades, achei que não era aquilo que queria fazer. Fui então realizar um programa de desportos radicais chamado Sem Limites, isto enquanto era editor de Política na Antena 1, porque trabalhava na rádio ao mesmo tempo e, ao fim de semana, ia praticar desportos radicais.
Nos primeiros anos na RTP, trabalhou nas áreas de Política, Economia e Internacional, no centro de produção do Porto. Que tipo de jornalismo fazia nessa fase e que impacto teve na sua evolução?
Nessa altura, quando estive na RTP Porto, em 2001, era editor de Política, Economia e Internacional, mas isso fez-me também afastar um bocadinho daquilo de que gostava verdadeiramente, que era a reportagem de guerra. Era um trabalho muito de redação, quando preferia o trabalho de terreno. No entanto, foi uma experiência importante porque, obviamente, me deu uma boa bagagem de coordenação. Eu também já tinha sido coordenador do Bom Dia Portugal, em Lisboa, mas o Porto deu-me uma maior latitude na área da coordenação e uma experiência acrescida para a gestão de equipas na direção.
Ainda na década de 1990, começa a afirmar-se como repórter internacional. O que o levou a dar esse salto para o terreno e para fora do país?
Era algo que queria experimentar. Mais tarde, ao ir frequentemente a universidades e a escolas, perguntavam-me sempre: “mas por que é que queria ir para a guerra?” Porque, na verdade, vamos para os locais de onde todos os outros estão a fugir. Havia sempre aquelas respostas “chapa cinco”: vamos dar voz aos mais fracos, vamos noticiar o que lá se passa. Na verdade, vim a descobrir mais tarde o motivo de gostar tanto e de querer correr para o sítio de onde todos os outros iam fugir: o facto de podermos estar onde se faz a História, ser testemunha activa desses acontecimentos e poder contar as pequenas histórias que vão ajudar a construir a grande História.
“Tem de haver uma certa dose de loucura”
Ao longo da sua carreira, acabou por cobrir cerca de 25 conflitos, incluindo cenários como o Iraque, Afeganistão, Angola e Timor. O que distingue um repórter de guerra de qualquer outro jornalista?
Primeiro, uma certa dose de loucura. Perguntavam-me muitas vezes também: “É casado?” — na altura era. “Tem dois filhos, então porque é que vai para a guerra? É maluco?” Tem de haver aqui uma certa dose de loucura, mas, acima de tudo, também tem de haver a essência do jornalismo, que é ires procurar as coisas onde elas acontecem, ires ver lá com os teus próprios olhos e não ficares à espera que te cheguem as imagens das agências para montares as tuas reportagens e fazeres de conta que lá estiveste.
Entre todos esses cenários, houve algum que tenha marcado um antes e um depois na sua vida pessoal e profissional?
Julgo que saberás que estive preso no Iraque durante quase quatro dias e fui dado como morto. Foi talvez a guerra mais mediática das que aconteceram durante o período em que cobri conflitos — que foram 15 anos em que saltitava, basicamente, de guerra em guerra, e fiquei viciado em adrenalina. No entanto, talvez a guerra que me tenha marcado mais tenha sido a de Angola. Passei muito tempo em combate, debaixo de fogo, com as Forças Armadas Angolanas e, antes disso, percorri os campos de refugiados do Planalto Central de Angola, onde havia um milhão de pessoas a morrer à fome. Eram esqueletos andantes, pessoas que mais nada esperavam do que a morte.
Durante esses momentos, chegou a pensar afastar-se desse tipo de cobertura?
Sim, houve um momento em que disse: “chega”. Quando estava preso no Iraque, metido num buraco, a levar porrada, sem comida nem bebida, e a saber que, provavelmente, achavam que estava morto. Foi a minha décima primeira guerra e pensei: “Não tenho necessidade de passar por isto, mas, acima de tudo, não tenho necessidade de provocar este sofrimento que calculo que esteja a acontecer na minha família e nos meus colegas. Por isso, esta será a minha última guerra.” Mas, quando saí dali, ainda saí com mais força. Quando saí daquele buraco, ainda saí com mais força e pensei: “Não, é mesmo isto que eu quero fazer, ninguém me vai torcer, ninguém me vai vergar e vou continuar a fazer isto porque é disto que gosto.”
“Se me perguntas se gostava de estar nos principais palcos de guerra, é claro que sim, mas tudo tem o seu tempo”
Em 2004, assume funções como coordenador do Telejornal, na RTP. Como foi a passagem do terreno para a responsabilidade editorial?
Já tinha tido a responsabilidade editorial de coordenar o Bom Dia Portugal, de ser editor de Política, Economia e Internacional, mas a responsabilidade de passar para a coordenação do Telejornal foi, obviamente, superior. Porquê? Porque quando coordenas um espaço que é o principal bloco informativo do teu canal, do teu órgão de comunicação social — e na altura o Telejornal era claramente o líder de audiências —, em que escrutinas diariamente dezenas de pessoas, profissões e instituições, e prestas, para além do mais, um serviço público, isso traz-nos outras obrigações. E isto nada implica que todos os outros não sejam igualmente sérios e honestos nas suas práticas.
Em 2007, publica o livro Repórter de Guerra. Foi um exercício de memória, denúncia ou reflexão pessoal?
Costumo dizer isto e repito-o muitas vezes. O próprio Barack Obama disse que os principais erros que terá cometido enquanto presidente dos Estados Unidos foram quando não teve tempo para pensar, ou quando não pensou. E isto foi claramente também um momento de reflexão para mim e de introspeção. Durante anos escrevi aquele livro, o que me fez revisitar tudo o que tinha redigido, todos os trabalhos que tinha feito. Foi ver todas as peças, todas as reportagens e, muitos dos diálogos que lá tenho, estão gravados mesmo na imagem e no som. Por isso foi uma reflexão, foi uma introspeção, mas foi também uma partilha. Uma partilha que devemos fazer, porque há muitas coisas, muitas histórias que ficam por contar e muitas experiências que ficam por partilhar, e achei que o deveria fazer naquele livro.
Ao longo da década seguinte, passa também por funções mais visíveis em estúdio e programas de debate. O que mudou na sua forma de fazer jornalismo quando deixou o terreno?
Se me perguntas se gostava de estar nos principais palcos de guerra, é claro que sim, mas tudo tem o seu tempo. Não devemos querer voltar a coisas que nos fizeram felizes ou que tivemos um profundo prazer em fazer. Porquê? Porque as coisas acontecem no seu tempo, acontecem no seu timing, no seu contexto. A partir do momento em que também deixei a reportagem — deixei porque tive um problema de saúde —, nessa altura, comecei a crescer também na hierarquia da RTP. Obviamente, as duas circunstâncias concorreram para me afastar um bocadinho do jornalismo de terreno.

“Mantenham sempre um espírito aberto de humildade, de conhecimento, de ouvir os mais velhos”
Mais recentemente, assume a apresentação de formatos como o Sociedade Civil. O que é que este programa lhe permite fazer que o jornalismo de guerra não permitia?
São coisas completamente diferentes. Fazer jornalismo de guerra é uma coisa; fazer jornalismo diário numa redação é outra completamente diferente, que é o mais prático e o mais habitual; e fazer-se um programa de televisão com o perfil do Sociedade Civil é ainda mais diferente. Porque a abordagem é completamente distinta, é um programa de serviço público. São formas de fazer jornalismo completamente diferentes. Fazer jornalismo diário, de agenda, de redação, é uma coisa e ir para cenários de guerra é outra. Se bem que os cenários de guerra, atualmente, cobrem-se de uma forma muito diferente daquela de há 10 ou 15 anos.
Olhando para o seu percurso desde a rádio, passando pela guerra, pela edição e agora pela apresentação, quais foram os momentos-chave que definiram verdadeiramente a sua carreira?
O primeiro é na Força Aérea, quando sou colocado na rádio. O segundo é quando sou convidado para ir para a RTP. E o terceiro é quando sou convidado para vir para Lisboa, porque me levou para fases muito distintas da minha vida. Por isso, talvez essas três tenham sido as etapas mais importantes. Depois há outras, como referi: as guerras por onde fui passando, que me foram moldando e que me foram tornando uma pessoa diferente, mas para melhor.
Que mensagem ou conselho deixaria aos jovens que hoje decidam enveredar pelo caminho do jornalismo, especialmente como correspondentes internacionais?
Acima de tudo, muita humildade. Porque, como dizia, também já tive a tua idade — já todos tivemos a tua idade — e somos donos e senhores de muitas certezas. Mas podes ter uma certeza: tu não sabes, nem de perto nem de longe, aquilo que achas que sabes. Por isso, mantenham sempre um espírito aberto de humildade, de conhecimento, de ouvir os mais velhos. Os mais velhos já passaram por tudo aquilo que vocês estão a passar e é necessário que eles partilhem com os mais novos, e que os mais novos aceitem essa partilha de experiência e conhecimento. Foi isso também que me tornou, julgo eu, pelo menos um bocadinho melhor profissional do que seria se não tivesse bebido da experiência dos mais velhos.






