Num momento em que a indústria cinematográfica enfrenta a concorrência das plataformas de streaming e a diminuição do número de salas, ver filmes no grande ecrã deixou de ser um hábito e passou a ser uma escolha cada vez mais consciente. O Cinema Nimas, em Lisboa, é um caso particular de resistência: um espaço onde o cinema tradicional procura reinventar-se num contexto predominantemente digital.
Sábado à tarde, Avenida 5 de Outubro. O centro da cidade ganha um ritmo próprio de fim de semana, mais leve e espaçado. Os carros passam lentamente enquanto várias pessoas caminham em direção ao número 42, rumo a uma das mais emblemáticas salas de cinema de Lisboa.
A fachada, marcada por letras brancas, mantém uma aparência simples e discreta. À direita, uma pequena bilheteira encaixa-se junto à entrada. O interior é pequeno e o vermelho domina o espaço. Cartazes de filmes preenchem as paredes, lado a lado com a programação das semanas seguintes. Tudo em papel.
Entre as pessoas que esperam pela sessão das 17h00 está Odete Duarte. Vem ao Cinema Nimas três ou quatro vezes por semana, uma rotina que mantém há vários anos. Nascida em Lisboa, guarda uma relação antiga com as salas de cinema. Para Odete, o Nimas é um dos poucos que sobrou fora dos centros comerciais. “Foram desaparecendo todos. Agora é raríssimo”, diz. Tem Netflix em casa, mas raramente usa a plataforma para ver filmes. “Prefiro vir ao cinema. Ainda sou fã da sala e do ambiente.”
Quando questionada sobre o que perderia se a sala fechasse, Odete não hesita: “Faria falta. É um local acolhedor e com uma programação muito boa.”
A programação como forma de resistência
O espaço é pequeno, mas acolhedor. Além da sala de cinema, há uma pequena sala de estar no piso superior, composta por sofás vermelhos e candeeiros decorados com referências ao universo cinematográfico.
É a partir daqui que se acede à área mais reservada da casa e onde são guardadas películas de 35 milímetros, um dos formatos que o Nimas continua a exibir regularmente. Nesse piso fica também o escritório de Marta Fonseca, gerente da sala há três anos. É ali, longe do burburinho, que organiza o funcionamento diário da sala de cinema e acompanha as sessões através de uma pequena janela de vidro.
Perante a forte concorrência das plataformas de streaming e dos cinemas de centro comercial, os espaços independentes procuram formas de se manter relevantes e atrair público. No caso do Cinema Nimas, a resposta passa, sobretudo, pela programação. “Não temos uma estrutura muito rígida”, afirma Marta Fonseca. O catálogo segue uma lógica orgânica em que uma estreia pode dar origem a novos ciclos temáticos. “Estreámos um filme chamado Os Domingos, que fala muito da fé, e a partir daí surgiu a ideia de criar um ciclo sobre a fé”, explica.
Segundo dados do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), os cinemas portugueses registaram cerca de 10,8 milhões de espectadores em 2025, o valor mais baixo desde 2004, excluindo os anos da pandemia. Ao contrário da tendência nacional, o Nimas registou em 2025 um crescimento de mais de 30% no número de espectadores.


A aposta para atingir estes números passa também por obras que não encontram espaço no circuito comercial. “São filmes que não têm lugar numa cadeia de cinema como a NOS ou a UCI”, refere Marta, sublinhando que esta escolha é também uma forma de fidelizar diferentes perfis de cinéfilos.
O resultado é uma programação que cruza gerações de filmes e públicos, dos clássicos às estreias recentes. “Tivemos um ciclo de Marilyn Monroe que atraiu um público que viu esses filmes quando se estrearam e que agora os está a rever décadas depois”, recorda, acrescentando que, ao mesmo tempo, há jovens estudantes de cinema a descobrir atores e realizadores pela primeira vez. “É essa diversidade que conseguimos manter.”
A experiência de sala reforça esta identidade. No Nimas não há pipocas nem refrigerantes, sendo apenas permitida água dentro da sala. “Parece muito restrito, mas ao mesmo tempo estás numa sala onde consegues ouvir todos os diálogos, sem aquelas distrações”, justifica, com um sorriso.
Para Marta Fonseca, o futuro dos cinemas independentes não é motivo de alarme. “Enquanto houver pessoas que gostam de cinema e de vir à sala, não vejo razão para deixarem de vir porque podem ver em casa. A experiência é totalmente diferente”, sublinha.
“O Nimas é um dos meus balões de oxigénio”
Quando a tarde avança e os ponteiros se aproximam das 17h00, o Nimas começa a encher. Sentada num dos sofás vermelhos no piso de cima, Ema Mendes aguarda o início da sessão. Frequenta esta sala desde os 23 anos. Hoje, tem 70. “Continuo a apontar na minha agenda todos os filmes que quero ver, para não escapar nenhum”, conta.
Ao longo de quase cinco décadas, o cinema tornou-se uma presença constante na sua vida. Para Ema, o Nimas representa muito mais do que um local que passa filmes. “É uma das minhas catedrais. É um dos meus balões de oxigénio”, afirma. Na programação da sala encontra tanto uma forma de compreender a atualidade como a “oportunidade de revisitar grandes autores da história do cinema”. Mais do que um espaço cultural, descreve o Nimas como um lugar de descoberta e reflexão: “Eu encontro-me no cinema. Encontro partes de mim.”
Apesar da ligação que mantém com o espaço, olha para o futuro das salas de cinema com alguma preocupação. Receia que algumas manifestações culturais percam terreno numa época marcada pelo consumo rápido de conteúdos. Ainda assim, encontra motivos para acreditar na continuidade destas salas sempre que observa o público que as frequenta. Ver jovens nas sessões é um desses sinais. Ema valoriza a presença de pessoas de todas as idades, mas encontra um significado especial nas novas gerações que continuam a frequentar espaços culturais como o Nimas. “Quando vejo jovens a vir ao cinema, fico descansada. São o futuro.” Para a espectadora, cada sala cheia é uma prova de que o interesse pela sétima arte continua vivo.





