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O Anjo Caído, pintura de Alexandre Cabanel

“Coita de Amor” enquanto pilar televisivo

Manuel de Beja 25 Mai 2026 Crónicas, Crónicas

Falar de amor nunca é uma matéria de fácil definição; aliás, tende frequentemente a cair no aborrecimento, no ridículo ou na frieza. Será a “coita de amor” (o sofrimento amoroso) um sentimento perdido no tempo?

Não me parece. É o cliché mediático que recusa o seu próprio óbito. Não me refiro às novelas bacocas que já não captam a nossa atenção — a não ser na altura de cortarmos cebolas para o jantar —, mas sim à vida real. Ou melhor, àquilo que se assume como a vida real para além do real: o reality show.

Quando analisamos a Comunicação Social, é quase sempre necessário recorrer à Semiótica, o estudo das linguagens e dos signos. Sendo o amor algo indescritível, usemos essa mesma ferramenta para desconstruir este fenómeno. Na Semiótica, temos o Signo (a representação), o Objeto (a realidade referida) e o Interpretante (o sentido gerado). Aqui, podemos assumir o Signo como o próprio amor na sua dimensão carnal. O Objeto será o ser desejado: a amada que se cobiça. O Interpretante é a perceção gerada, e é precisamente aí que reside o problema. O amor-cortês baseia-se na tendência de personificar a amada numa figura bucólica ou celestial (“ela é bela como uma flor”, “atraente como um anjo”). 

Embora sejam comparações encantadoras no processo de sedução, são também o ápice da raiz que faz nascer a “coita de amor”. Através desta idealização exacerbada, constroem-se padrões que não encaixam na figura real e natural do outro. O amor-cortês prende o encanto a uma dimensão surreal, impedindo a aceitação do defeito.

No terceiro ato de Othello, de William Shakespeare, Iago conspira contra o Mouro de Veneza usando as suas maiores fraquezas: o amor por Desdémona e a desconfiança quanto à sua própria qualidade no papel de amante. É esta dimensão trágica, intriguista e sobrevalorizada do caráter amoroso que as televisões decidiram plagiar e incentivar consistentemente. O amor-cortês e a consequente “coita de amor” já não são apenas dinâmicas literárias ou interpessoais; são métricas de audiências mediáticas.

Cristina Ferreira — que tanto reclama da especulação das gazetas sobre a sua vida amorosa, mas perde a indignação quando precisa de simular um matrimónio para vender perfumes — tem sido cúmplice desta comercialização do sofrimento. Enquanto diretora de entretenimento e ficção da TVI e apresentadora dos mais recentes reality shows do canal, é uma das maiores responsáveis pela escolha dos concorrentes e pelas condições em que estes entram na “casa mais vigiada do país”.

Na nona edição da Casa dos Segredos, determinou-se que um casal que se inscrevera junto seria separado na estreia. A noiva entrou com um segredo relativo ao matrimónio; o noivo ficou cá fora a assistir à sua cara-metade a experienciar uma vida paralela. Escusado será dizer que não correu bem. Numa questão de dias, a concorrente Liliana aproximou-se de outro participante, Fábio, deixando o noivo, Zé Pedro, a assistir em direto à deterioração da sua relação.

Os portugueses não apreciaram. A produção colocou um casal numa posição de extrema fragilidade e expôs o “culto do corno”, chamando repetidamente o noivo para comentar a traição em estúdio. Ao mesmo tempo, Cristina Ferreira incentivava a proximidade do novo “casal” em público, condenando mais tarde os espectadores por fazerem julgamentos sobre uma situação que a própria TVI montara para ser julgada.

Na mesma edição, outro casal (Marisa e Pedro Jorge) foi desafiado a fingir que não se conhecia durante meses. Pode soar a um desafio trivial, mas pensemos no impacto que teria nas nossas relações: durante semanas a fio, em confinamento, ser obrigado a tratar o próprio cônjuge como um desconhecido banal, enquanto se finge interesse por outras pessoas sob o olhar atento das câmaras. Este é o modus operandi mediático: compra o amor, quebra o amor, cola o que resta e fatura com o processo.

A celebração dos relacionamentos arranjados também conquistou Daniel Oliveira e a SIC, que produziram várias temporadas de Casados à Primeira Vista. Este conceito é construído com o auxílio de “especialistas” dedicados à área das relações que, num jogo de parelhas, associam candidatos com base em perfis supostamente ideais.

No fundo, esta evolução parece ser apenas um rebranding do antigo conservadorismo. O casamento, outrora a união diante de Deus, reassume-se agora como uma união entre dois desconhecidos diante dos olhos do Pai, do Filho e dos espectadores mais atentos. Vale a pena notar que, após tantas edições, a esmagadora maioria destes casais já se divorciou. Presume-se que o título de “especialista” não seja atribuído com base nas taxas de sucesso.

É crença popular que a televisão perdeu a guerra para o digital. Falso. Através dos reality shows, os meios de comunicação apropriaram-se da lógica do algoritmo. Se os reality shows se vendem como visões fiéis da vida real, o algoritmo é a extrapolação dessa mesma realidade. O amor enquanto Signo é consumido pelo espetáculo, ditando a imagem mental que o público deve ter das relações. O Objeto, que deveria ser o desejo pelo outro, passa a ser o desejo pelo estrelato, personificado pelas câmaras e por uma passadeira vermelha numa calçada qualquer.

Significa isto que se pode declarar o óbito ao amor? Não. Mas precisamos urgentemente de devolver a discussão à ciência e à poesia, retirando-a das garras da psicologia pop. Só assim reduziremos a dramatização e a artificialidade mediática, recuperando a essência natural do afeto.

    
2026-05-25
João Ferreira Oliveira
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