Alverquense de raiz, Fernando Orge assumiu a presidência do F.C. Alverca em 2011 e reconstruiu o clube desde a base até ao regresso histórico à Primeira Liga na época 2024/2025. Ex-jogador e treinador, alia experiência no futebol a uma visão estratégica centrada na formação, estabilidade financeira e ligação à cidade. Recebeu-nos no coração do clube, abrindo as portas do estádio para mostrar o mundo que ajuda a construir todos os dias. *

Desde que assumiu a presidência, o F.C. Alverca viveu um crescimento contínuo. Que passos permitiram essa evolução?
Quando entrei, encontrei um clube deficitário, com graves problemas financeiros e desportivos. Tinham terminado o escalão sénior, em 2004, e tivemos de recomeçar tudo. O centro de formação não existia e os escalões treinavam no “velhinho pelado”, muitas vezes apenas num terço de campo. Foi um caminho difícil. Tivemos que rever o orçamento, cortar despesas, gerir dívidas e apostar na formação. Criámos o centro de formação, que gerou receitas e catapultou o clube para outros patamares. Criámos outras equipas, como a equipa B, e surgiu a ideia de criar uma SAD para alavancar o clube. Em dezembro de 2012, quase tivemos de acabar com o futebol sénior, mas conseguimos manter a equipa a competir. A partir daí, foi crescer lentamente.
Como se sentiu ao ver o clube da sua cidade regressar à Primeira Liga, mais de 20 anos depois, sob a sua presidência?
Foi uma alegria enorme para mim, enquanto presidente e alverquense. Foi um sonho realizado. Dos cinco elementos da direção, três vêm desde 2011, os outros dois entraram pelo caminho, e trabalhámos sempre com o objetivo de lá chegar. Agora é viver este sonho e continuar a trabalhar para atingir os objetivos.
Acredita que a sua experiência como jogador e treinador o ajuda a compreender melhor as necessidades do clube e dos atletas?
Sair de jogador para treinador é uma mudança grande, essencialmente na mentalidade das pessoas. Sair de treinador para presidente é completamente abismal. Quem me vê hoje, não vê a pessoa que eu era há 15 anos. Depois de 17 anos como jogador e mais 15 ou 16 como treinador, fui ganhando bagagem em perceber os problemas entre treinador e jogador, o jogador insatisfeito por não jogar e o treinador que não ganha. O conhecimento do balneário e do futebol dá-me algumas valências que outros não têm.
Olhando para os anos que antecederam a subida, houve algum momento em que duvidou que seria possível alcançá-la?
Nunca me passou pela cabeça que o Alverca não chegasse lá. Passámos três épocas na Liga 3, com os primeiros dois anos à beirinha de subir e sem conseguir, por pequenos detalhes, o que criou algumas expectativas e desconforto. Quando subimos à Liga 2, foi uma alegria enorme. Passar para o futebol profissional como campeões da Liga 3 ficou marcado na vida do clube. Aí tive plena convicção de que, mais um ano, menos um ano, iríamos lá chegar. Na época passada, conseguimos atingir o objetivo primordial para a construção da SAD, para o clube e para a união entre clube e SAD.

“Temos que tomar medidas que não agradam a todos”
Durante o processo de crescimento do clube, houve alguma decisão difícil que teve que tomar, mas que hoje considera ter sido crucial para o sucesso?
Muitas! Como diz o velho ditado: “Antes decidir mal que não decidir”. Quando estamos em cargos de decisão, temos de tomar medidas que não agradam a todos. Por vezes, as decisões são difíceis e nem sempre acertamos. Mas, ao percebermos que a decisão foi menos boa, temos de ter coragem para a corrigir e regressar ao caminho certo, para atingir o objetivo: ter um clube estável, numa divisão estável, e com os sócios e alverquenses satisfeitos.
Participou em programas de formação e cursos de gestão desportiva. Que aprendizagens trouxe dessa experiência?
Há 11/12 anos apostei na minha formação. Fiz o curso de gestão e organização desportivas, essencial para um clube como este. Pelo caminho, participei em várias ações de formação, como a da CBF, da Federação Portuguesa de Futebol e da Associação de Futebol de Lisboa. Tenho tido também algumas intervenções ao nível do desporto, da organização e daquilo que é a mudança de um clube para uma SAD. Essas vivências são sempre períodos de aprendizagem e importância. Não podemos dissociar o que somos enquanto aprendizes, estamos sempre a aprender.
Desde que assumiu a presidência, como descreve o envolvimento da cidade no crescimento e sucesso do clube?
Foi das tarefas mais difíceis que a direção encarou. Sou filho de Alverca, nascido e criado aqui. O meu pai foi treinador e eu joguei no clube, portanto há uma ligação muito grande. Contudo, havia algum afastamento da cidade, e uma das linhas orientadoras ao assumir a presidência era abrir o clube à comunidade. Muitas pessoas não sabiam que o clube tinha outras modalidades além do futebol. Trabalhámos várias situações e fizemos muitos eventos e campanhas de divulgação, aproximando a comunidade. Hoje, o Alverca tem cerca de 1200 atletas e muita responsabilidade social e na formação dos miúdos. Temos campeões em várias áreas e é importante que todos percebam que o clube é dinâmico e multifacetado.

Atualmente, quais são os maiores desafios em termos de gestão?
A maior ameaça do Alverca está na gestão interna. O clube tem de estar extremamente bem organizado e não pode fugir nem um milímetro do orçamento. Não podemos entrar em défices. Outro desafio é crescer de forma lenta e desenvolver infraestruturas. Nos últimos 15 anos, investimos 2 milhões no centro de formação, sem dever à banca. O que não é fácil num clube desta dimensão. Fomos à banca quando necessário, pagámos tudo e hoje somos um clube positivo, sem dívidas externas e cumpridor com o Estado. O objetivo é crescer com infraestruturas sólidas para que, mesmo havendo um recuo, o clube se mantenha estável. Não se pode construir sem alicerces.
Olhando para tudo o que construiu desde que assumiu a presidência, sente-se orgulhoso com o percurso do Alverca?
Orgulho-me de ser uma pessoa íntegra na condução de um clube de futebol, mais do que isso não. Isto é um trabalho de equipa, que exige muitos anos e dedicação. Ao contrário do que acontece em clubes como o Benfica, Sporting e Porto, no F.C.A. nenhum diretor ou dirigente é remunerado. Estamos aqui pro bono, porque gostamos do clube e damos tudo em prol deste projeto. É um orgulho desenvolver esta equipa, envolver as pessoas no clube, torná-las solidárias e alcançar os objetivos fundamentais do Alverca. Isto não é sobre o Fernando Orge, é sobre o clube.


“O clube foi falado no mundo inteiro”
A entrada de Vinícius Júnior como proprietário marcou um novo capítulo na história do Alverca. Como tem sido a relação com ele?
A SAD mudou de donos: era de uns investidores vicentinos, que agora são proprietários da do Santa Clara, e o Vinícius Júnior, como maioritário num grupo, comprou a participação do Alverca. Ele não tem um papel ativo diretamente na gestão diária. Interage sobretudo com os CEOs. Mesmo assim, é um parceiro importantíssimo, catapultando o clube para patamares internacionais nunca antes vistos. Lembro, por exemplo, que uma fotografia do Camavinga e do Travis Scott com a camisola do Alverca teve milhões de visualizações. O clube foi falado no mundo inteiro.
Em 31 de agosto de 2025, o craque do Real Madrid marcou presença no Estádio. Como descreve essa visita e que impacto teve para o clube?
É sempre um impacto grande. O Vini tem vários milhões de seguidores no Instagram e cada fotografia dele tem enorme repercussão. Houve muita interação, especialmente com os miúdos e o público mais jovem, que naturalmente têm um fascínio maior pelos craques. Foi muito divertido, pois mostrou-se à vontade com eles. Quanto aos patrocinadores, não houve interação direta, mas eles têm de perceber que estar ligados a uma marca como a do Vinícius Júnior eleva automaticamente a visibilidade da sua própria marca para patamares muito superiores aos que teriam com alguém menos conhecido.
Depois da subida, o foco passa, naturalmente, para a consolidação na Primeira Liga. Quais são as grandes prioridades desta nova fase?
O Alverca passou por uma grande transformação. Pegar num clube e, de uma época para outra, ter apenas um jogador do plantel e formar toda a equipa é difícil. Organizar a equipa para jogar bem, pontuar e manter-se na Primeira Liga foi um grande desafio. Na formação, também houve uma grande expansão. Hoje, as quatro equipas principais do clube estão no escalão máximo: sub-15, sub-17, sub-19 e a equipa principal. Esta subida traz mais miúdos, melhor formação e melhores homens. O objetivo é formar jogadores de qualidade, integrá-los na equipa principal e ajudá-los a chegar ao futebol profissional. Realizar o sonho dos miúdos de jogar na Primeira Liga
*Entrevista realizada no início da temporada 2025/2026.





