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-Início»Reportagens»Reportagens»Quando a redação deixa de ser um lugar: a resistência da Visão

Quando a redação deixa de ser um lugar: a resistência da Visão

Joana Silva 20 Jan 2026 Reportagens, Reportagens

Há uma solidão inesperada quando um jornalista fica sem redação. Não se perdem apenas as mesas alinhadas, o barulho constante das teclas, o cheiro a café quente, mas também as vozes que se cruzam e que formam as ideias: o riso, a discussão que afina o ângulo, o conselho rápido e o contacto decisivo. Mas é possível fazer uma revista a partir de casa. Vamos falar da revista Visão.

Escrever a partir de casa é possível, mas nunca é igual a uma equipa que pensa em conjunto. Quando a Visão perde a redação física, todos os jornalistas se reorganizam de forma completamente diferente. A equipa, formada pelo diretor, editores, jornalistas, revisora e gráficos, trabalha a partir das casas de cada um, mantendo a produção da revista mesmo sem espaço físico.

O trabalho passa por etapas coordenadas: os textos são preparados, revistos e depois paginados, tudo de forma remota. “As reuniões fazem-se no Teams e as conversas e dúvidas acontecem pelo WhatsApp”, explica Sónia Calheiros, jornalista da Visão há 26 anos, que acompanhou todo o processo de adaptação e destaca a importância da organização da equipa para que cada edição chegue ao leitor.

Apesar da tecnologia permitir reuniões e comunicação imediata, a dinâmica mudou. A troca espontânea de ideias, o debate rápido sobre ângulos e o apoio imediato entre colegas não existem mais da mesma forma, e a solidão do trabalho remoto é constante. Ainda assim, a experiência acumulada permite que a equipa continue a produzir a revista com disciplina e dedicação.

O diretor da Visão, Rui Tavares, sublinha que, apesar das dificuldades, a equipa mantém uma rotina sólida e consegue coordenar todo o processo sem perder a qualidade editorial. “No essencial, o funcionamento é igual, mesmo à distância. Continuamos a trabalhar juntos, cada um na sua casa, mas como se estivéssemos lado a lado”, acrescenta.

Para Sónia, a adaptação é desafiante, mas a ligação à equipa e à revista mantém a motivação. “Para o bom funcionamento da minha cabeça é complicado, gosto de trabalhar em equipa”, admite. O ambiente de partilha que existia na redação, risos, conversas rápidas, debates sobre os textos, foi substituído por mensagens e reuniões agendadas, mas a experiência e a cumplicidade entre os jornalistas fazem toda a diferença, garantindo que a revista continue a existir e a chegar aos leitores, mesmo nas novas condições.

Apesar dos salários em atraso e ameaça de insolvência, 12 jornalistas têm feito a Visão a partir de casa e lutado pela sua sobrevivência

O colapso da Trust in News

O trabalho à distância é apenas a consequência visível de problemas que vêm de longe. A empresa que detém a Visão enfrenta graves dificuldades financeiras. Há atrasos sucessivos nos salários, planos de recuperação que não avançam e, finalmente, a insolvência. A má gestão do administrador principal comprometeu a estabilidade da empresa. Os primeiros sinais aparecem meses antes da declaração de insolvência, quando os pagamentos começam a atrasar-se e o plano de recuperação apresentado pela administração falha.

A empresa acumula dívidas a credores, incluindo o Estado e a Segurança Social, e não consegue honrar compromissos com os senhorios das sedes anteriores. Durante este período, a equipa esteve primeiro na Quinta da Fonte, depois mudou para o Tagus Park, mas em ambos os locais o pagamento aos senhorios não era regular, como contou a jornalista. Essa instabilidade financeira era um dos sinais de alerta que já se fazia sentir antes da declaração de insolvência.

A Visão, que sozinha mostra viabilidade financeira, está integrada num grupo mal dimensionado e mal gerido. O resultado é a liquidação pelo tribunal. Para a equipa, este período é marcado por incerteza, cansaço e negociação constantes. São meses sem uma sede física, reorganizando todo o trabalho em casa, mantendo a revista ativa contra todas as dificuldades.

Apesar da situação crítica, a experiência acumulada ao longo de anos permite que os jornalistas continuem a produzir cada edição, com disciplina e cooperação remota. “A empresa entrou em insolvência, o tribunal liquidou-a e nós é que quisemos continuar a publicar a revista”, explica o diretor, acrescentando: “A Visão, sozinha, é financeiramente viável, inserida num grupo mal dimensionado, não é.” Sónia completa: “Na prática, pode sobreviver, mas para isso, falta que os dois maiores credores digam que abdicam da avaliação que pediram e permitam que os títulos sejam vendidos separadamente.”

A Visão lançou uma campanha de crowdfunding de 200 mil euros para tentar ‘salvar’ a revista. Valor que, entretanto, foi alcançado
Rui Tavares Guedes, diretor da revista

O futuro da Visão e a força da equipa

Mesmo sem uma redação física, a Visão continua a sair todas as semanas. Para os jornalistas, a revista é mais do que um trabalho: é família. Muitos trabalham juntos há décadas, conhecem os pontos fortes uns dos outros, sabem quem escreve melhor cada tipo de texto, quem consegue fechar uma peça rapidamente ou quem dá os melhores conselhos em segundos. Essa cumplicidade, construída ao longo de anos, é insubstituível.

Muitos confessam que continuam porque não querem desistir. “Eu não saio porque não quero sair”, revela Sónia. A ligação à Visão é profunda, é um título que atravessa décadas, acompanhou acontecimentos importantes do país, testemunhou mudanças sociais e políticas e construiu um legado que todos sentem que vale a pena preservar. A história da revista está entrelaçada com a própria história de quem a faz.

A Visão é mais do que um objeto impresso ou digital, é memória, paixão e compromisso para com o jornalismo. Para a equipa, manter a revista viva é também manter viva uma tradição, amizades, aprendizagens e a capacidade de resistir mesmo diante de dificuldades extremas. No fim, o que pesa é o simbolismo. Uma revista com 33 anos não pode desaparecer num ano em que se celebra uma data tão significativa para o país. “Seria muito triste uma revista com 33 anos acabar no ano em que o 25 de Abril faz 50″, lamenta Sónia.

Apesar das dificuldades, a equipa mantém a esperança de continuar a escrever, a produzir e a partilhar histórias que importam. O trabalho atrás do ecrã, a falta de espaço físico e a pressão financeira, nada disso apaga a paixão pelo jornalismo e o compromisso para com os leitores que fizeram da Visão o que ela é hoje.

    
2026-01-20
João Ferreira Oliveira
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