Num dia de sol quente de dezembro, no Centro de Treinos do Jamor respira-se a essência pura do ténis. No silêncio destes campos, onde o rigor do alto rendimento se cruza com uma paz quase absoluta, o ambiente convida à reflexão. É neste cenário idílico, longe do ruído mas perto da excelência, que encontramos Nuno Borges, o atual número um nacional. Como é que a serenidade do Jamor molda a determinação de um atleta que, com os pés bem assentes na terra batida, continua a levar Portugal cada vez mais longe?
Natural da Maia, o seu percurso fugiu à norma. Antes de se aventurar a tempo inteiro no circuito profissional, licenciou-se em Cinesiologia pela Universidade de Mississippi State, nos Estados Unidos, onde brilhou no circuito universitário (NCAA). Desde o seu regresso à Europa, a ascensão foi meteórica. Com um título ATP conquistado em 2024 (Bastad), vitórias sobre lendas como Rafael Nadal e prestações sólidas frente a nomes como Novak Djokovic, o atual número um nacional consolidou o seu lugar na elite do ténis mundial.
Em entrevista à Tribuna Expresso, disse que “achava que não tinha o nível” para estar onde está hoje e que “já tinha excedido as expectativas de carreira há muito tempo”. O que o motivou a continuar a lutar por mais, mesmo quando sentiu que já tinha ido além do que esperava?
Faz parte da minha essência. Talvez por influência dos meus pais ou por algo intrínseco, sempre gostei muito de competir e dar o meu melhor. A verdade é que nunca coloquei as expectativas demasiado altas, por isso, sim, superei qualquer plano inicial. Nunca esperei ser o número um português, mas fui subindo degrau a degrau, trabalhando com consistência e, hoje, penso: se já estou aqui, porque não sonhar por mais?
Em que momento sentiu que o ténis passaria de um sonho a uma profissão real?
Não foi um momento isolado, foi um processo. Enquanto estava nos Estados Unidos, não competia tanto no circuito profissional mas, quando voltava no verão para Portugal, aproveitava ao máximo. No segundo ano, quando ganhei o meu primeiro torneio Future e comecei a conseguir resultados que me permitiam sustentar-me financeiramente, [porque] até aí era tudo à custa dos meus pais, percebi que talvez conseguisse fazer disto vida. Foi aí que me senti confortável para me dedicar a tempo inteiro.
Após o jogo contra Djokovic em Atenas, o próprio elogiou a sua exibição e disse que ficou surpreendido. Há jogadores que admira e que o inspiram dentro e fora do court? Novak Djokovic é um deles?
O Federer será sempre o meu ídolo mas, quando procurava vídeos para me inspirar, ia mais para o Novak Djokovic ou para o Andy Murray. O estilo do Roger parece quase inalcançável, é uma técnica muito diferente da minha. Revejo-me mais na forma de responder ao serviço e na postura de campo do Djokovic e do Murray. Foram eles as minhas grandes inspirações táticas.
Na CNN Portugal, depois de vencer Nadal, falou da importância de manter os pés no chão. Que impacto teve essa vitória na sua mentalidade?
Essa vitória foi, sem dúvida, o marco mais importante da minha carreira. É fácil dizer que temos de manter os pés assentes na terra, mas aplicá-lo é um trabalho mental exigente. Tentei não me deixar levar pelas expectativas externas, pelo ranking ou pelo que viria a seguir. Foquei-me apenas no próximo jogo. No ténis, o passado e o futuro não ganham pontos, o que importa é o momento e estar ali presente.
Em entrevista a O Jogo, falou da importância dos “detalhes que não se veem na televisão”. Referia-se a quê?
Refiro-me a ajustes técnicos mínimos. De um ano para o outro, as pessoas podem não ver uma mudança radical no meu gesto, mas são pormenores de um ou dois por cento que tentamos melhorar todos os dias. É ao que nós chamamos o “comer arroz”: o trabalho de base, repetitivo e por vezes invisível, que só a equipa técnica nota, mas que, a longo prazo, faz toda a diferença nos resultados.
“Todos os jogadores do circuito sabem bater direitas e esquerdas. O que separa os melhores é a disponibilidade mental”
Na mesma entrevista, diz que “o básico está automatizado”. Sente que a sua evolução agora depende mais da parte mental do que da técnica?
Sim. Hoje em dia, todos os jogadores do circuito sabem bater direitas e esquerdas. O que separa os melhores é a disponibilidade mental, a atitude e a experiência em grandes palcos. O “básico” já está automatizado. Agora, o sucesso vem da forma como lidamos com a pressão e como nos adaptamos emocionalmente aos momentos decisivos.
Na Taça Davis, disse que jogar por Portugal é uma motivação extra. Como vê o papel dos adeptos portugueses na sua carreira? Há alguma mensagem que gostaria que eles levassem do teu percurso?
É uma motivação extra. Jogar em casa, sentir o apoio do público e saber que estamos a lutar por algo maior que nós próprios é muito bonito. Ver os miúdos a olharem para mim, como eu olhava para o João Sousa ou o Rui Machado, de quem cheguei a ser apanha-bolas, é gratificante. Não jogo para criar essa imagem de referência, mas uso-a como força quando as coisas não correm bem.
Olhando para o futuro, que conselho daria ao Nuno de há cinco anos e o que espera dizer de si daqui a outros cinco?
Ao Nuno de há cinco anos, talvez dissesse para ter a disciplina que tenho hoje e para ter investido mais cedo na parte física, mas não mudaria o meu processo. Sou muito grato às pessoas que me ajudaram. Daqui a cinco anos, espero apenas olhar para trás e estar orgulhoso da forma como fiz as coisas, com boas intenções e respeitando sempre o meu percurso.







