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Tires Day: amigos, magia e futebol

Rafael Cabral 23 Fev 2024 Reportagens, Reportagens

Para a maioria das pessoas é apenas uma quinta-feira, mas para este grupo de amigos é muito mais. É o dia em que se reúnem para a “peladinha” semanal: o Tires Day.  

O frio faz-se sentir em Tires, uma pequena vila no concelho de Cascais. À chegada ao campo, a maioria dos jogadores já lá se encontra. David Reis é um dos principais responsáveis pela criação deste grupo de amigos. “Este grupo começou antes da Covid. Viemos jogar, por acaso, em março de 2020. Jogámos, o ´bichinho´ ficou e marcámos logo o jogo para a semana seguinte. Entretanto, surgiu a Covid e o jogo já não chegou a acontecer”, explica Reis.  Passaram-se os meses de confinamento e a vontade dos amigos era voltar à normalidade. Reis conta: “Convidou-se malta que partilhava o desejo de aliar o convívio à prática de exercício físico. Muitos foram, outros chegaram, mas temos um grupo constante há cerca de três anos.” 

À medida que os restantes jogadores vão chegando, os que já lá estão vão fazendo prognósticos e brincando. Pedro Gueifão, mais conhecido por Pastel, um dos membros mais antigos, descreve o que significa para ele ir jogar com os amigos. “Já me juntei ao grupo há alguns anos. Gosto muito de vir aqui uma vez por semana. É um ritual bonito e acaba por ser um escape da realidade. Durante esta hora, não pensamos em mais nada!” Sobre a sua forma física depois do Natal e Ano Novo, o jovem afirma estar numa fase da minha carreira que, desde que não se lesione, já é bom. “Se fizer um ou dois golinhos ainda melhor”, acrescenta. 

A boa disposição reina. O grupo espera ansiosamente a chegada do décimo e último jogador. Chega Bernardo Pinheiro, entretanto. “A malta aqui só quer divertir-se, dizer umas piadas e maltratar a bola”, brinca. Chegados todos os jogadores, é hora de se equiparem.

Vão comentando a atualidade de Portugal e do mundo, dos mais variados temas, uma vez que nem só de bola vive o Homem. Reis dá o mote. “É o primeiro jogo do ano. Espero que seja um momento bem passado e que as coisas saiam bem. O relvado está húmido, esteve a chover, mas espero que a bola não fuja do pé, a ver se faço umas trivelas ou umas roletas, e se der para carimbar um golo é sempre bem-vindo”. 

Os amigos brincam com Reis, dizendo que este se assemelha a Zinédine Zidane, astro francês que fazia das roletas uma imagem de marca. Pedro Cardiga, ou Cardigolo quando está inspirado, conta o porquê de ter ganho esta alcunha. “Chamam-me Cardigolo porque, às vezes, marco golos” conta, num tom divertido. O jovem explica que “por brincadeira” dizem que jogam no Sport Lisboa e Tires. Foi assim que apelidaram o grupo, designação que mistura o nome do clube onde jogam semanalmente (União Recreativa e Desportiva de Tires) e o clube do coração de alguns dos membros mais antigos, o Sport Lisboa e Benfica. 

O plantel está repleto de craques e os amigos inspiram-se e querem imitar os respetivos ídolos. Francisco Marques (Chico) diz ter no jogo aéreo uma das suas principais forças. “Sou apelidado de Mário Jardel porque costumo marcar golos de cabeça, espero que aconteça hoje.” Chico está ansioso para que o jogo comece e descreve o momento do jogo semanal dizendo que é “mágico. Espero a semana inteira por este dia, para chegar aqui e jogar com a rapaziada”.  

“A malta aqui só quer divertir-se, dizer umas piadas e maltratar a bola.”

Rola a bola 

 Com os jogadores já equipados, chega Andri, o responsável pelo campo, que antes de dar ordem para que o jogo comece, comenta tratar-se de um grupo espetacular e que, desde 2020, “nunca falhou”. 

Antes do início do jogo há tempo para um breve aquecimento e para o primeiro contacto com a “redondinha”. Após uma receção falhada por parte de Bernardo, ainda no aquecimento, Chico brinca. “A bola nos teus pés está sempre a chorar.” Formam as equipas. Pastel, Bernardo, Chico, Xavi e Rodrigo de um lado e Reis, Cardigolo, Pedro, David Rodrigues e Fábio do outro. Poucos minutos passam das 21:00h quando a bola começa a rolar.  

A temperatura está baixa mas o jogo começa a aquecer. Ouvem-se gritos de parte a parte. “Passa a bola, não é falta nenhuma, levanta-te do chão”, são alguns exemplos. O espírito competitivo é alto e todos querem ganhar, mas a competição é saudável. Por vezes, uma entrada mais dura desencadeia reações por parte dos jogadores, contudo, não passa disso. São todos amigos e, como disseram, jogam para se divertirem. Reis vai deixando pormenores interessantes e ajuda a sua equipa a alcançar uma vantagem esclarecedora de 4-0, com cerca de 20 minutos jogados. Pedro e David Rodrigues são os jogadores mais tecnicistas da equipa e, juntamente com a força e determinação de Reis, conquistam um resultado confortável. 

A equipa adversária começa a reagir. Bernardo marca golo atrás de golo. O festejo é sempre o mesmo. Entrelaça os dedos formando uma espécie de máscara e coloca-a à frente da boca, imitando a comemoração do ponta de lança sueco do Sporting, Viktor Gyökeres. Viria a repetir o gesto por mais duas vezes – fez um hat trick. Pastel não quer ficar só a ver e também deixa a sua marca, apesar de o próprio não se ter mostrado confiante antes da partida. Cardigolo fez jus à alcunha que lhe deram e também marcou, para delírio de todos.  

O ambiente é, normalmente, de festa e de amizade, independentemente do resultado e de quem marca os golos. Por vezes, há momentos mais tensos, mas tudo fica selado com um aperto de mão e uma palmadinha nas costas. É futebol. 

O jogo caminha para o fim e Chico perde uma chance clamorosa de golo. Como? Após (e citando Rui Veloso), Voar como o Jardel pelos centrais, surge sozinho frente a frente com a baliza, mas falha – para surpresa de todos. A partida caminha a passos largos para o fim e o momento mais triste da noite chega: Andri aproxima-se para anunciar que o jogo terminou. 

Em Tires, uma hora passa em menos de nada. Ouvem-se pedidos para que Andri deixe jogar mais tempo. “Só mais cinco minutos de compensação”, dizem em uníssono. Termina o jogo. 10-9 para a equipa de Pastel. 

Flash interview 

Enquanto se vão desequipando, fazem o rescaldo do jogo. Quem ganha, provoca o adversário e brinca. Quem perde, diz que o que importa é ter saúde. “Ganhámos, mas não fiz nenhum golo nem assistência”, comenta Chico, que vai para casa com o sabor agridoce de ter ficado em branco.

Bernardo ouve a análise do amigo e, em jeito de brincadeira, interpela: “Jogaste hoje?” 

David Rodrigues, que saiu derrotado, demonstra boa disposição enquanto comenta o jogo, em tom humorístico. “A equipa esteve bem. Sabíamos que era um terreno difícil e um adversário complicado. Queríamos conquistar os três pontos e não conseguimos.”  

Prolongamento é no Nosso Prego 

Ocasionalmente, as quintas-feiras terminam no restaurante Nosso Prego. Lá, Pastel, Reis e Cardigolo debatem o jogo enquanto comem um prego e bebem uma cerveja “fresquinha, como mandam as regras”, brinca Pastel. Reis subscreve e realça a beleza do momento, garantindo que sabe sempre bem “beber uma cervejinha” com os amigos. “Jogamos por convívio e porque é importante que pratiquemos desporto. Acho que toda a gente devia  fazê-lo”, acrescenta Cardigolo, em jeito de conselho.

Chega ao fim a primeira quinta-feira do ano desportivo e toda a gente parece ir mais feliz para casa. “O jogo correu bem, houve muitos golos, falhanços e gargalhadas. Faz parte. Uma coisa é certa: na próxima semana cá estaremos outra vez”, conclui Pastel.

    
2024-02-23
João Ferreira Oliveira
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