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-Início»Entrevistas»André Penim: “Estejam sempre insatisfeitos”

André Penim: “Estejam sempre insatisfeitos”

Marina Schmidt 02 Mai 2025 Entrevistas, Entrevistas

Licenciado em Comunicação Social e pós-graduado em Televisão na Universidade Autónoma de Lisboa, André Penim foi repórter de televisão, criador de conteúdos e jornalista. Atualmente, escreve guiões para a televisão e é produtor de conteúdos das manhãs da Rádio Comercial.

De que forma descobriu a paixão e o talento pela comunicação?

Quando era miúdo, adorava fazer vídeos. Quando comecei a ouvir rádio, fiquei fascinado. Queria fazer toda a minha formação na parte da rádio e depois acabei por trabalhar mais em televisão. Rádio é uma coisa muito mais recente para mim. A rádio era aquela paixão de adolescente que só agora se realizou. A comunicação sempre foi uma vocação. Inicialmente, achei que era a parte do jornalismo, mas, quando experimentei, percebi que não era bem “a minha praia” e fui mais para o entretenimento, onde estou até hoje.

Como foi a passagem do meio universitário para o meio profissional?

Aquilo que queria na altura era rádio ou televisão e, por sorte, acabei por estar no sítio certo e na hora certa. Uma colega de faculdade, que tinha feito um estágio numa produtora de televisão, enviou o meu nome para lá estagiar. Acabei a pós-graduação numa sexta-feira e, na segunda-feira a seguir, comecei a estagiar e, entretanto, acabei por lá ficar.

“Como já tinha feito tudo e mais alguma coisa em televisão, decidi arriscar e vim para a rádio”

Em relação à forma como se direcionou para o mercado de trabalho, teve sempre em mente o que gostaria de fazer ou esteve aberto para outras propostas?

Totalmente. Costumo dizer sempre que, mais importante do que saber aquilo que queres seguir, é saber aquilo que tu não queres seguir. Fiz um ano de jornalismo, fiz vários estágios e percebi que não era aquilo que me faria feliz, que não era o caminho e que não seria esta a minha vocação. Precisava um bocadinho mais de liberdade para criar. Trabalhei com televisão por 16 anos, surgiu a oportunidade da rádio, área que eu sempre disse que gostava de experimentar. Como já tinha feito tudo e mais alguma coisa em televisão, decidi arriscar e vim para a rádio.

De que forma as suas experiências em diferentes áreas da comunicação enriqueceram a sua trajetória profissional?
Fui criador de conteúdos, ainda hoje sou guionista, fiz produção, edição, workshops de operador de câmera… Acho que é super importante saber um bocadinho de tudo. Quando fiz cursos de operador de câmera, cresci muito enquanto guionista, deu-me outras perspectivas de coisas que poderia fazer. Quando comecei a editar vídeos, isso deu-me outras perspectivas sobre que planos é que gostaria de ter nos meus produtos feitos em televisão. Acho que é muito importante saber o que é que os colegas que estão ao teu lado fazem, para poder ajuda. Quer em televisão ou em rádio, é sempre um trabalho de equipa e se souberes mais sobre o trabalho dos teus colegas, melhor. Só te enriquece.

Quais são as competências pessoais que considera importantes para esta função no meio dos media?

Paciência [risos]. Sou muito paciente e acho que isto é mesmo uma grande vantagem. Não querer que as coisas apareçam feitas em dois segundos, pode acontecer, mas se calhar não fica bem feito. Sempre fui muito paciente e é uma qualidade que tenho conseguido preservar. Há dias e dias. Há dias em que a paciência ficou na cama [risos], mas acho que a paciência é uma grande vantagem neste meio.

Fotografias cedidas por André Penim

“Outro tipo de profissões vão surgir por causa da inteligência artificial”

O mercado de trabalho em comunicação tem evoluído constantemente. Existem novas oportunidades que acabam por mudar as expectativas dos futuros profissionais?
O mais importante é mantermo-nos sempre atualizados, porque fazer conteúdos hoje não é nada do que era fazer conteúdos quando comecei a trabalhar. As redes sociais têm grande responsabilidade, mais facilmente se filma ou se capta o áudio de alguma coisa. Acho ótimo, mas temos de estar sempre atualizados e saber como fazer isto bem. Hoje, com o Instagram e o TikTok, acho que é uma formação constante, muitas vezes surgem novas ideias através dessas novas redes sociais. Vejo como uma coisa boa, porque é um meio que está sempre a transformar e, desde que seja para chegar às pessoas, é válido.

Acredita que a inteligência artificial pode ter alguma influência no desemprego de pessoas do meio da comunicação?

Isso vai acontecer inevitavelmente, mas outro tipo de profissões vão surgir por causa da inteligência artificial (IA). Há coisas da IA que nos devem assustar para nos tornar mais alertas, mas não a vejo como uma coisa má. Já se veem produtos bem feitos com IA, acho que usada da forma certa vai-nos ajudar a evoluir em todos os sentidos. Acho que falta ainda uma regulação para que as coisas sejam feitas sem prejudicar mentes que trabalharam muito para criar alguma coisa. Ainda há um caminho muito longo a percorrer, mas não vejo a IA como um papão, como algo assustador. Vejo como algo que nos vai levar a evoluir e a aprender mais.

“Vivermos acomodados é meio caminho andado para passarem dez anos e estarmos no mesmo sítio, infelizes”

A 1 de julho de 2023, iniciou a carreira como criador de conteúdos na Rádio Comercial. Na rotina de um criador de conteúdo em rádio, quais são os principais desafios a enfrentar?

Faço um programa diário e é muito desafiante ter conteúdos novos todos os dias que sejam atuais e adequados ao público exigente que temos. É um bocado assustador, às vezes, pensar que uma ideia vai chegar a um milhão de pessoas. A Rádio Comercial, pela manhã, chega a ter picos de um milhão de ouvintes, mas nem conseguimos imaginar o que é chegar a um milhão de pessoas. Abrimos o microfone e falamos sem fazer ideia de quantas pessoas nos estão a ouvir. Quando recebemos um feedback das pessoas, percebemos que estão realmente a ouvir aquilo que dizemos. É preciso ter uma grande responsabilidade, há muita gente que está a ouvir. É preciso estar constantemente atualizado e atento às notícias. A criatividade não surge todos os dias, não é quando queremos, mas somos uma equipa por isso. Se calhar, quando um está menos criativo, há outro que naquele dia está com mais “pica” e cria muito mais. Alimentamos-nos da criatividade uns dos outros, e noto que trabalhamos muito em equipa neste sentido. Alguém manda uma ideia, alguém põe uma ideia por cima desta e no fim sai uma ideia completamente diferente para a qual todos contribuíram, e isso é o melhor de tudo.

Em relação à profissão de guionista, como é o seu dia-a-dia?

É uma coisa mais esporádica, não é uma coisa que faço em uma base diária, é quase como um trabalho de freelance, neste caso. A rádio dá-me essa vantagem. Como faço as manhãs, acordo muito cedo, mas consigo sair cedo. Dá-me tempo durante a tarde para poder escrever à vontade. É um trabalho muito mais solitário, sou eu e o meu computador no meu sofá, de fones nos ouvidos a ouvir música e a escrever. Dá-me muito gosto, mas não é uma coisa que faça todos os dias.

Que erros comuns recomendaria evitar aos finalistas de Ciências da Comunicação?

Querer acabar a faculdade e ter logo um trabalho. É mais do que legítimo, porque estudaram para isso. Não achar que um trabalho vai ser para a vida toda. Já passei por muitos trabalhos para ter várias perspectivas. Sempre fui muito insatisfeito nesse sentido, tipo “ok, já percebi como é que se faz, é giro, gosto, mas quero experimentar outra coisa”. Nunca perder a ambição e não querer logo ter um trabalho de sonho. Pode acontecer, espero que aconteça, mas também é um trabalho procurar o sítio que nos faz feliz. Pode demorar tempo, pode até não acontecer, mas vivermos acomodados é meio caminho andado para passarem dez anos e estarmos no mesmo sítio, infelizes. Portanto, estejam sempre insatisfeitos.

    
2025-05-02
João Ferreira Oliveira
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