Com um longo percurso na Marinha Portuguesa e um sem número de cargos de liderança ao longo das últimas décadas, Marta Gabriel fala-nos sobre a sua carreira, aceitação, igualdade e o contributo para dar visibilidade às mulheres (e aos jovens) num meio maioritariamente masculino.
Como surgiu o desejo de seguir a carreira militar?
Eu sou da Praia de Mira, filha e neta de bacalhoeiros. A ligação ao mar sempre foi muito grande, mas não foi só por aí. Quando entrei na Faculdade de Letras de Lisboa, em 1992, em Línguas e Literaturas Modernas, percebi que o esforço financeiro era muito desafiante para os meus pais. Tinha de ter a minha autonomia. Nessa altura, a Marinha abriu, pela primeira vez, o recrutamento para mulheres. Concorri em 1993, entrei, e aqui estou! Quando vim para a Marinha, o objetivo foi tentar retirar esforço das costas dos meus pais e ganhar a minha autonomia financeira.
Qual foi a reação da sua família à candidatura, sendo o primeiro ano de abertura às mulheres?
Foi de estranheza, no sentido de desconhecimento, porque não se sabia ao que se ia. Não me impediram, não me criaram entraves e apoiaram-me. Eu tenho hoje a certeza — eles nem precisam de me dizer — que têm muito orgulho. Senti sempre muito apoio. Apesar disso, notei claramente que ficaram, principalmente o meu pai, apreensivos. Eles sabiam o que era a vida no mar. Isso havia de me calhar pelo caminho. Não com muita intensidade, mas calhou.
No seu processo de recrutamento, comparando com os seus colegas homens, sentiu alguma dificuldade que estes não tiveram de ultrapassar?
Não, as provas são iguais para todos. A parte física, sim, respeita o género e a idade, mas, além disso, não houve diferenciação no que toca a outro tipo de avaliações. Há sempre uma desagregação da parte física e da parte psicológica, mas não no sentido de prejudicar a mulher em relação ao homem, ou vice-versa. E, neste momento, a Marinha não tem nenhum entrave. Desde 2006 que mantém a abertura a todas as áreas operacionais. Depois é uma questão de sermos capazes de lá chegar.

“Se há coisa de que gosto, é de ser desafiada”
Em 1993, por ser o primeiro ano das mulheres na Marinha, existiu um foco adicional sobre vocês?
Em 1993, sim, havia um foco muito grande em cima de nós. Até a nível dos órgãos de comunicação social. Como costumo dizer, “éramos uns bichinhos raros”. As poucas que tiveram a ousadia de enfrentar as fileiras receberam uma atenção muito grande na altura. Nem sempre era desejado por nós, mas conseguimos a nossa integração juntamente com os rapazes, para que não se sentisse uma posição privilegiada da nossa parte. O escrutínio sobre a mulher é maior e não é preciso fazer muito. Basta estarmos fardadas.
Em 2003, tornou-se chefe do Departamento de Língua Inglesa. Foi fácil desempenhar esta função?
Eu era muito jovem a nível de posto quando a situação se deu. Na organização militar, o posto tem a sua importância e, agregado a ele, o valor da pessoa. Foi um processo natural. Integrei-me sempre muito bem com as minhas equipas — se calhar é o espírito de professora. Além disso, gosto muito de lidar com pessoas. Não é difícil para mim a parte da liderança e de levar equipas a cabo. Há sempre uma pessoa ou outra mais desafiante, mas isso faz parte. Se há coisa de que gosto, é de ser desafiada.

“Foi muito desafiante dar os primeiros passos na desconstrução de barreiras: linguagem, narrativa, discurso e abordagem de imagem”
Após este cargo, desempenhou funções como adjunta da Direção de Educação e Formação da Marinha Portuguesa, coordenadora da Nação Anfitriã na Conferência Anual da NATO , em 2018, e no Seminário Profissional da NATO , em 2020. Qual foi o cargo mais desafiante?
O percurso mais longo foi na chefia do Departamento de Língua Inglesa. Foram 12 anos. Em 2011, fui nomeada para fazer o Curso de Oficiais Superiores, para a promoção a capitão-tenente. Então, foi-me dado outro desafio: o cargo de adjunta da Direção de Educação e Formação da Marinha. Na altura, fiquei bastante frustrada porque não era, de todo, a minha área. Esta passagem de cargo fez-me olhar para a mudança como algo importante, porque passei a aprender outras coisas, a ver a Marinha pelo lado da área da formação e do desenvolvimento. Foi uma adaptação e um pensamento de “não é o cargo que me faz, sou eu que faço o cargo”. Acabou por ser muito positiva a vinda para esta função.
Quando sou considerada para o Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA), em 2016, como responsável pelos processos de aferição linguística para cargos internacionais, quer da NATO, quer da União Europeia, era adicionalmente assessora de género. Respondia em situações várias enquanto representante nacional, como conferências fora e dentro do país. Os desafios eram muitos, mas também foram imensas as oportunidades para crescer não só profissionalmente, mas pessoalmente. Tive cinco anos cheios de experiência no exterior. Organizei cinco eventos em que Portugal foi Host Nation: em 2018, uma conferência do projeto BILC, com 43 países participantes; o seminário de integração da perspetiva de género nos países de expressão portuguesa; a iniciativa “5+5 Defesa”, com a Líbia, Argélia, Marrocos, Tunísia, Espanha, Itália e outros países. No ano da pandemia, foi online; em 2020 houve ainda uma semana do projeto BILC. Foi uma função que me agradou muito fazer. Muito trabalhosa, mas muito gratificante.
Desempenhou ainda o cargo de Oficial Superior e Conselheira de Género no Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA). Quais os seus maiores feitos nesta função?
Este cargo não existia antes, fui a primeira pessoa a assumi-lo. Foi muito desafiante dar os primeiros passos na desconstrução de muitas barreiras: linguagem, narrativa, discurso e abordagem de imagem. Mas foi muito importante também. A nossa missão era criar espaço de oportunidade para todos. O primeiro passo é perceber que somos todos diferentes, temos necessidades diferentes. Esta área é a que mais me apaixona. Assessorei muito a nível de discurso e de escrita, em que houve pequenas mudanças que trouxeram visibilidade. O facto de eu ser de línguas também me apoiou nessa tarefa, porque a nossa língua permite-nos a inclusividade. Creio que foi possível às Forças Armadas fazer alguma diferença neste âmbito.

“Quando cá cheguei, não éramos atrativos o suficiente para os jovens”
Hoje, chefia o Centro de Recrutamento, com a função de desenvolver estratégias para o futuro das Forças Armadas. Quais as maiores dificuldades que enfrenta?
Quando cá cheguei, não éramos atrativos o suficiente para os jovens. Primeiro tentei perceber qual era a minha população-alvo, qual a linguagem e as plataformas que usam, para estar onde eles estão. Foi o primeiro desafio. Depois, questionei os processos: porque é que os concursos demoravam um ano? Debati-me com o pensamento de “foi sempre assim”, porque não gosto de pensar assim. Exigi a aceleração dos concursos. Passámos de um ano para três meses e foi um dos maiores impactos que vi acontecer. Mas é tudo muito difícil de implementar e moroso. Estamos a falar de gestão de pessoas, tem de se ter sempre muito cuidado para não perder a credibilidade.
Há ainda outro desafio muito grande, da própria geração: querem tudo muito rapidamente, não têm paciência para esperar. Por outro lado, existe muito talento. Outra questão é a natalidade: se não há nascimentos, também não podemos exigir grandes números de recrutamento. Temos de suscitar as regras de recrutamento na lei. Se o limite de idade para concorrer a Praça é 24 anos, estou a perder pessoas. Há pessoas a estudar até aos 30, por que é que para se ser Oficial só se pode concorrer até aos 27? Ainda há muito a melhorar, mas são processos muito delicados.
Existem cerca de 3460 mulheres nas Forças Armadas, mas apenas 817 na Marinha — o número mais baixo face ao Exército e Força Aérea. A que se deve esta discrepância e o que está a ser feito para a minimizar?
A Marinha tem 700 anos e, em apenas 33 anos com mulheres, houve evoluções enormes. Mas claro que sim, houve também uma estagnação. Não há, de todo, uma paridade do número de mulheres dentro da Marinha a comparar com a população de mulheres portuguesas, ou mesmo com os outros ramos. A Força Aérea é mais atrativa porque é uma força muito mais jovem. Mas a Marinha foi a primeira a abordar a parentalidade e isso foi um passo de muito orgulho.
O que diria à Marta Gabriel de início de carreira?
Dizia-lhe: “Vai com tudo que vai correr bem, vais encontrar pessoas espetaculares, que te vão proporcionar muito apoio. Vai ser difícil, uma luta dura, mas vais conseguir”. Sem dúvida, que voltava a fazer tudo igual.





