Com raízes cabo-verdianas e guineenses, a jovem portuguesa é uma das mais promissoras judocas do país. Aos 21 anos, a atleta do Sport Algés e Dafundo já conquistou medalhas importantes, incluindo o ouro no Grand Slam de Astana, em 2024, e representou Portugal nos Jogos Olímpicos de Paris — algo que descreve como um “milagre”. Nesta entrevista, Taís fala sobre a sua trajetória, os desafios, as rotinas e as lições aprendidas, mostrando que a determinação e a paixão podem abrir caminho até ao topo do judo.
Cresceu num ambiente multicultural e iniciou o judo aos oito anos, integrando posteriormente o Sport Algés e Dafundo, onde se tornou uma das jovens promessas do clube. Como é que as suas origens, o clube e o judo moldaram a sua disciplina, resiliência e a forma de olhar para o desporto?
Comecei o judo aos oito anos, num projeto social na minha escola, Ricardo Alberty, inicialmente como diversão. Hoje é um dos pilares fundamentais da minha vida. Carrego sempre as minhas origens, nunca me esqueço de onde venho. Apesar de ter nascido em Portugal, a cultura cabo-verdiana e guineense estiveram sempre presentes. A minha família sempre me apoiou, sentindo que uma parte deles está representada em mim, o que me motiva todos os dias.
O salto para sénior implica técnica superior, preparação mental, gestão de lesões, viagens e confrontos com atletas com histórico em campeonatos mundiais e Jogos Olímpicos. Que obstáculos inesperados encontrou nesta adaptação e quais foram as estratégias utilizadas para superá-los?
Enquanto júnior, não pensava tanto nas grandes competições e tinha uma mentalidade diferente. Nos seniores, percebi que é preciso refletir muito antes de cada combate, porque qualquer erro pode ser decisivo. Para superar esta dificuldade, passei a encarar cada combate como se fosse uma final, adotando essa mentalidade estratégica em todas as situações.
Em maio de 2024, conquistou a medalha de ouro no Grand Slam de Astana, depois de derrotar adversárias de alto nível. De que forma esta vitória influenciou a sua confiança e motivação para as competições seguintes?
O Grand Slam de Astana foi um marco na minha transição de júnior para sénior. Conquistar a medalha de ouro fez-me sentir realizada e motivada. A vitória aumentou a minha confiança, mostrando que consigo competir ao mais alto nível, e deu-me mais motivação para encarar as competições seguintes com determinação e foco.


“No início, não estava a treinar com o foco nos Jogos de 2024. Estava a pensar nos de 2028, em Los Angeles”
A rotina diária inclui treinos intensos no Sport Algés e Dafundo, deslocações para competições, recuperação física e estudos no ISCSP. Como organiza os seus dias para encaixar tudo isto?
Gerir os amigos é sempre complicado. Às vezes, evitamos saídas ou convívios por causa dos treinos e competições, mas é por uma boa causa e eles compreendem. Ainda assim, consigo encontrar tempo para estar com eles de vez em quando. Quanto à rotina, treino de manhã por volta das 10h, vou para a faculdade, depois volto para o treino da tarde. Treino todos os dias, de segunda a sexta, e aos sábados de manhã. Também faço estágios nacionais, normalmente do fim da tarde de sexta até domingo de manhã. Conciliar os estudos com o judo é difícil. Saio dos treinos cansada e preciso de paciência, foco e força de vontade para estudar. No geral, é complicado, mas quando se gosta, compensa.
Muitos atletas têm hábitos ou rotinas antes dos combates como respiração, visualização ou aquecimento específico para manter a concentração. Qual é a prática a que mais recorre antes de um combate para manter a calma e o foco mental?
No dia anterior, analiso vídeos com os treinadores e ouço dicas sobre as adversárias. O sorteio sai uns dias antes ou no dia anterior e definimos estratégias. Gosto de ouvir música — sempre os Måneskin — antes do combate. Também uso sempre a mesma licra e meias rosas da Looney Tunes, o que me dá conforto e concentração.
Como descreve o período em que conquistou o Grand Slam de Astana e se preparou para os Jogos Olímpicos de Paris? Essa experiência influenciou a sua confiança e evolução como atleta?
No início, não estava a treinar com o foco nos Jogos de 2024, estava a pensar nos de 2028, em Los Angeles. Vejo isto como um milagre, um sonho tornado realidade muito cedo. A prova de maio, o Grand Slam de Astana, foi fundamental para ganhar pontos; sem ela, provavelmente não iria aos Jogos, então ajudou-me imenso a ganhar confiança. O período para os Jogos foi um bocado atribulado: consegui o apuramento seis meses antes, embora no judo se comece a preparação dois anos antes, então tive pouco tempo.
Comecei em Paris com o 5.º lugar no Grand Slam, um dos mais prestigiados do mundo. Depois, o selecionador disse-me que tinha oportunidade de ir aos Jogos, o que não estava à espera — foi muito cedo. A partir daí, fiz quase todas as provas do circuito. Algumas correram bem, como a de Astana, e outras correram mal. Sempre pensei, quando corria bem: “ah ok, vou aos Jogos”; quando corria mal: “fogo, já não vou conseguir”.
O meu treinador ajudou-me a lidar com a pressão, dizendo: “pensa que não vais aos Jogos, pensa que isto não aconteceu”. Ao pensar assim, fui para as competições muito mais leve, descontraída, sem aquela pressão de “tenho que fazer pontos”. Senti-me pressionada a partir do momento em que disseram que eu ia aos Jogos. Todas as provas contavam e fiz sete para conseguir o apuramento. Sendo júnior, na fase de transição, nunca tinha experienciado tantas competições e estágios internacionais a lutar com outras atletas. Foi desafiante, mas ajudou-me bastante a evoluir.
Nos Jogos Olímpicos há não só competição, mas também momentos emocionais nos bastidores e convivência entre atletas de diferentes países. Quais foram as memórias mais marcantes dessa fase, dentro e fora do tatami?
Gostei muito da abertura nos barcos, ver tantos portugueses a abanar a bandeira e a apoiar-nos, todos juntos a gritar, foi muito especial. Também foi marcante ver a minha amiga Patrícia Sampaio conquistar o bronze e mostrar que o trabalho é recompensado. No dia da minha competição, a presença do meu pai, treinadores e presidente do clube foi importante. Abri o Instagram e vi pessoas com camisolas com o meu nome. Isso deixou-me contente e emocionada, e entrei no combate sentindo-me mais acolhida. Saber que tenho pessoas ao meu redor é especial. Quanto ao convívio com outros atletas, não foi muito; só com os portugueses, porque tinha que treinar. Gostaria de ter visto outras modalidades, mas só acompanhei o judo.


“É frustrante perder. Nunca é fácil, ainda estou a aprender, mas as derrotas ajudam-me a perceber erros e melhorar”
Ao longo do seu percurso como judoca, nem sempre as vitórias aconteceram. Como lida com os resultados que não correspondem ao esforço investido?
Costumam dizer que o judo é ingrato, porque o que se faz no tatami é definido por um curto período. É frustrante perder. Nunca é fácil, ainda estou a aprender, mas as derrotas ajudam-me a perceber erros e melhorar.
Quais são os seus objetivos mais ambiciosos para os próximos anos? Já pensa nos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028, nos Campeonatos do Mundo ou em outros grandes torneios?
Sim, os Jogos de 2028 estão sempre presentes, mas antes temos o Europeu e o Campeonato do Mundo. Os meus objetivos futuros são medalhar nessas competições e manter a consistência de medalhas no Grand Prix e Grand Slam.
Tendo vindo da Amadora, com raízes africanas, e já alcançado feitos internacionais como judoca, que mensagem final gostaria de deixar para jovens que sonham em alcançar patamares semelhantes no desporto?
Digo que não importa de onde vens, consegues sempre fazer a diferença se tiveres um objetivo ou um sonho. Nunca desistas. Mais do que acreditar em ti, é importante estar rodeado de pessoas que acreditam em ti e no teu potencial.






