José Luís Carneiro é uma figura central na política portuguesa contemporânea. Ao longo da sua já longa carreira, tem-se destacado pela proximidade às pessoas e pela capacidade de tomar decisões em contextos complexos. Nesta entrevista, o atual secretário-geral do PS partilha a sua visão sobre comunicação em tempos de crise, liderança, juventude e democracia, refletindo sobre responsabilidade e segurança necessárias para uma sociedade prosperar.
Como é que se comunica em tempos de crise, quando cada palavra é escrutinada ao segundo?
A primeira necessidade é a verificação rigorosa dos factos. Depois devemos perceber em que termos a informação pode e deve ser transmitida. Há informações que, se forem comunicadas num momento inoportuno, podem comprometer operações ou objetivos gerais. Diria que é necessário um mecanismo Checks and balances e escolher os canais de comunicação apropriados que permitam alcançar a população alvo.
Vivemos tempos de fragmentação política e crescimento do discurso populista. Acredita que a moderação ainda é uma força vencedora em democracia?
Acredito que perante a polarização social é indispensável haver um mínimo denominador comum sobre o qual aceitamos a nossa vida em sociedade. Esse denominador são os direitos fundamentais e o Estado do Direito Democrático. Portanto, acredito que é possível assumir uma ética da responsabilidade sem, naturalmente, esquecer a ética das convicções, construindo um espaço público baseado no diálogo, na esperança e no futuro.

“Nunca podemos perder a proximidade, nem o uso das emoções”
Se pudesse voltar atrás a um momento da sua vida pública, um erro, uma decisão, uma lição, qual escolheria e porquê?
Sempre procurei tomar decisões de forma ponderada, pois há funções em que há um nível elevado de incerteza. A experiência mostrou-me que é muito relevante amadurecermos bem as palavras, pois estas criam expectativas, nas pessoas e na sociedade, que depois são cobradas. A lição que aprendi é que, quer na relação com os nossos mais próximos, quer na relação com os cidadãos em termos gerais, nunca podemos perder a proximidade nem o uso das emoções. No entanto, quem está na defesa do interesse público tem de tomar decisões que sirvam o bem comum ou o interesse geral, como diriam outros.
Quando recorda o início do seu percurso político, o que levou a escolher este caminho? Foi vocação, mero acaso ou sentido de dever?
Foi tudo ao mesmo tempo. Desde muito jovem, estive relacionado com os grupos de jovens do meu município, revelando uma vocação pessoal e íntima para a entrega. Em 1993, fui convidado para integrar as equipas autárquicas. No entanto, estava a desenvolver a minha licenciatura e apenas aceitei integrar os grupos de trabalho do Partido Socialista, ao que vim a conhecer o engenheiro António Guterres. Foi uma conjunção de várias variáveis, vocação pessoal, cívica e política. Por outro lado, existiram oportunidades e também houve, naturalmente, alguns acasos.
“A vida política é muito absorvente”
Houve algum momento do seu percurso governativo em que tenha pensado desistir da Política?
Há muitos momentos em que nós, na vida política, sentimos que tínhamos vocações para outras coisas. Sou feliz a dar aulas e muitas vezes pensei nessa possibilidade, mas as responsabilidades não me têm permitido. Um dia que saia da vida política, gostava de voltar à escola, à universidade, investigar e escrever. A política dá-me prazer, embora envolva momentos difíceis e críticos que exigem resiliência, e capacidade para se enfrentar obstáculos diariamente. Há momentos em que nos apetecia ter tempo para os nossos amigos, família e lazer, porque a vida política é muito absorvente.
Que diferenças fundamentais existem entre a política local e a política nacional? Que diferenças sente entre estar perto das pessoas num município e representar um país inteiro?
A natureza da responsabilidade e da legitimidade é a mesma, mas o poder local distingue-se pela proximidade e pelo sentido de prestação de contas muito mais claro do que a nível superior. Todos os dias, estamos a ser objeto de escrutínio da parte das populações e todos os dias temos que responder. Há uma dimensão de realização política muito forte nas comunidades locais porque conseguimos detetar as necessidades, temos autonomia para planear as soluções e ainda conseguimos ver o resultado na vida das pessoas. Na administração central é mais difícil, porque nem sempre conseguimos alcançar os objetivos a que nos propomos e nem sempre conseguimos ver os resultados no tempo político que temos disponível.
Hoje assume responsabilidade de liderar o Partido Socialista num momento de transição. Agora, na oposição, o PS precisa de recuperar a confiança dos Portugueses. Como é que um partido que governou cerca de 25 anos desde a sua fundação pode voltar a ganhar a confiança do País?
Com credibilidade. É necessário que o PS seja o partido da oposição, que foi o estatuto que os portugueses nos deram, apresentando sempre propostas e soluções políticas alternativas credíveis e que sejam exequíveis. Com o tempo, a afirmação dessa alternativa vai suscitar a confiança e os portugueses reconhecerão que as nossas propostas e as nossas críticas têm uma razão de ser.
Quando anunciou a sua candidatura a secretário-geral do PS em 2023, disse que se habilitava a ser candidato a primeiro ministro “para garantir segurança, estabilidade e investimento”. Mantém hoje essa ambição? O que é, para si, a segurança que o país mais precisa neste momento?
Com certeza que mantenho essa ambição, ser secretário-geral do PS é habilitar-me a uma candidatura a primeiro ministro. Quando falo de segurança, refiro-me a segurança humana relacionada com saúde, habitação, espaço público, transportes, mobilidade e, depois, com a segurança propriamente dita. Uma sociedade que aposta plenamente na realização do potencial humano é uma sociedade mais autoconfiante e mais segura, pois essas pessoas tornam-se mais propensas ao diálogo e à compreensão dos outros.

“Os nossos jovens socialistas de hoje são muito mais qualificados do que eram as gerações anteriores”
A Juventude Socialista tem sido, desde 1975, um espaço de formação cívica e política para muitos dirigentes do Partido Socialista. Acredita que a nova geração está preparada para assumir um papel mais ativo na renovação do partido e do país?
Sem dúvida. Os nossos jovens socialistas de hoje são muito mais qualificados do que eram as gerações anteriores. Para além da formação, é importante que tenham um sentido de entrega e que estejam onde estão as pessoas e os outros 50% de jovens que não estão nas universidades. Uns porque não tiveram a oportunidade, outros porque não quiseram percorrer esse caminho no Ensino Superior. É muito importante que possam viver essa vida partilhada, pois vão certamente dar um contributo importante. No futuro, podem ser um bom fermento de transformação social e é isso que espero dos jovens socialistas.
Se o Dr. José Luís Carneiro pudesse recuar 30 anos e começar na JS, que causas defenderia primeiro?
Defenderia a justiça social. Foi a procura de maior justiça social que permitiu a liberdade e é por isso que é tão importante a nossa prioridade da habitação, da valorização dos salários dos mais jovens e das empresas, pois são elas que podem criar também oportunidades de emprego com melhores remunerações. Isso só se faz com uma economia mais produtiva e mais inovadora, para absorver na nossa estrutura nacional os jovens mais qualificados que hoje continuam a sair do país.
E se pudesse deixar uma mensagem ao próprio José Luís Carneiro enquanto era jovem, aquele que dava os primeiros passos na política, o que lhe diria hoje?
Arrisca, mas não te precipites.










