Em dia de jogo frente ao Famalicão para a Taça de Portugal, num encontro onde a angústia perdurou e os golos escassearam, o GRUPPO, claque do Estoril Praia, continua a ser a alma da Amoreira. Nesta reportagem, mostramos como a claque apoia o clube de múltiplas formas.
A tarde na Amoreira estava cinzenta, espelhando a tensão típica de uma eliminatória da Taça de Portugal. No relvado, o Estoril Praia e o Famalicão travavam um duelo fechado, onde o segundo golo parecia uma miragem e a angústia crescia a cada minuto que passava. Mas se dentro das quatro linhas o jogo era de paciência e nervos, na bancada, o coração do clube continuava a bombear sangue. É ali, no meio do cimento e das bandeiras, que o GRUPPO se afirma não apenas como uma claque, mas como o guardião da mística estorilista.
Num futebol moderno cada vez mais higienizado e distante, este grupo de adeptos contraria a corrente, transformando o ato de apoiar numa missão social e comunitária. Onde outros veem apenas 90 minutos de desporto, o GRUPPO vê uma extensão da família e da identidade local.

Para compreender a dimensão desta simbiose entre bancada e direção, é preciso ouvir quem lidera os destinos do clube. João Vieira de 50 anos, presidente do Estoril Praia, não poupa nas palavras quando descreve a importância da claque. “Têm um papel fundamental na comunidade, fazem agregar todos os estorilistas que gostam do clube, são a alma e acompanham o clube para todo o lado”, afirma o presidente.
A relação entre o GRUPPO e a nova estrutura do Estoril ultrapassou a barreira do simples apoio nas bancadas. Hoje, são parceiros estratégicos. O presidente recorda como, ainda durante o tempo de campanha, participou em reuniões organizadas pela claque para desenhar o futuro: “Partilhámos ideias, temos interesses comuns como aumentar o número de sócios, acompanhar a formação e as modalidades.”
Dessa mesa de negociações nasceram frutos reais que beneficiam toda a gente. João Vieira destaca um projeto que une o clube à economia local, impulsionado pela força do GRUPPO. “Uma das ideias que já estamos a colocar em prática é trazer o comércio local para o clube. Todos os sócios têm agora 10% de desconto em diversas lojas locais e o GRUPPO tem tido um papel importante a contactar essas pequenas lojas na nossa região.” É a prova de que o associativismo é um motor de desenvolvimento para o concelho de Cascais.


“O futebol não é uma guerra”
Para lá da estratégia, vive-se a emoção e o convívio. O epicentro dessa vivência tem um nome: FanZone. É neste espaço que encontramos José Sousa, de 71 anos, adepto fervoroso e empregado de mesa, que encontrou no GRUPPO uma segunda juventude.
“Acho fantástico. Se não houvesse os grupos do GRUPPO no Facebook nem WhatsApp, eu, que já sou velho, só há quatro ou cinco anos é que entrei dentro do GRUPPO e conheço hoje o Estoril melhor”, confessa José, com a satisfação de quem descobriu que o clube não é um círculo fechado. Para ele, a FanZone foi a chave para esta abertura: “Despolarizou este espaço aqui… deve ser das maiores salas de convívio ao ar livre que temos no Estoril. Isto é que fez aproximar as pessoas.”
José Sousa é a voz da experiência que preza o respeito acima da rivalidade cega. Ele destaca com orgulho a amizade rara que o GRUPPO mantém com a claque do Moreirense e a cordialidade com o Estrela da Amadora. “O futebol não é uma guerra. Somos adversários no campo, embora fora sejamos amigos”, sublinha, deixando um desejo para o futuro. “Gostava que o Alverca e o Guimarães também viessem, porque gostamos todos dos nossos clubes”.
Esta cultura de fair play é transmitida aos mais novos, como Martim Queiroz. Aos 19 anos, o estudante vê na FanZone e na postura do grupo uma escola de valores. “O futebol deve ser um desporto de fair play, respeito e, acima de tudo, desportivismo”, afirma Martim, reforçando que a relação com o Moreirense é um exemplo a seguir.
Para o jovem adepto, o GRUPPO é o “12.º jogador”, mas com uma nuance importante: “São as pessoas que mais vivem o estádio”. Martim utiliza as redes sociais para interagir e unir os adeptos, mas é na presença física, no convívio pré-jogo, que sente a verdadeira força do clube “A FanZone é um bom espaço para nós convivermos enquanto adeptos. Acho que o futuro do clube é muito risonho.”


“Virar as costas ou deixar de acreditar não pode fazer parte das nossas escolhas”
No coração da FanZone, entre conversas animadas e o cheiro a comida de estádio, percebe-se que aquele espaço é muito mais do que um ponto de encontro. João Sousa, de 28 anos e membro ativo do GRUPPO, explica a essência deste local que eles próprios gerem.
“A FanZone é a prova viva que o futebol popular está vivo e bem vivo. A nossa maneira de ver o futebol é esta: convívio, amigos e futebol”, explica João. A rotina é sagrada. “Ir à FanZone três ou quatro horas antes de um jogo é chegar, ver pessoas com as quais partilhamos a bancada, debater opiniões sobre a atualidade do Estoril, beber uns copos e aproveitar para comer umas bifanas ou uns couratos.”
É neste ambiente descontraído que se quebram estereótipos. João defende que o espaço ajuda a combater a imagem negativa muitas vezes associada às claques: “Se vierem por bem, todos são bem recebidos.”
Mas ser do Estoril, numa liga dominada pela atenção mediática aos “três grandes”, exige uma resiliência especial. João, que frequenta o estádio há mais de 22 anos, sabe que a vida do adepto estorilista é feita de altos e baixos. “Ser do Estoril é perceber que não vamos andar sempre com os melhores resultados, mas no fundo saber que virar as costas ou deixar de acreditar não pode fazer parte das nossas escolhas”, declara com convicção. As redes sociais servem para manter a chama acesa diariamente, permitindo “debater” e manter as pessoas ligadas à vida do clube.
Quem segura o leme desta nau é Pedro Calhau, 53 anos, taxista e o líder do GRUPPO. Recorda a fundação combativa entre 1996 e 1997, quando o GRUPPO detinha ideologia política. Contudo, sublinha a maturação. “Apercebemo-nos que o futebol não deve estar ligado à política, o nosso partido é o Estoril Praia.”
Hoje, a política do grupo é o humanismo e o apoio incondicional. Pedro dá o exemplo da viagem a Tondela nesta época, onde o autocarro avariou e os adeptos ficaram 24 horas retidos: “Ficámos sempre calmos, e ninguém ficou para trás.” Esta solidariedade é chave, seja a ajudar sócios da terceira idade, seja a reunir “20 ou 30 cabeças” para debater o clube antes de uma Assembleia Geral. Numa terra com mais de 230 mil pessoas, o objetivo de Pedro Calhau é claro: “O Estoril Praia tem que ter sempre mais de 10 mil sócios.” E enquanto houver esta união de gerações, o “partido” do Estoril continuará a ter a sua bancada cheia.





