Licenciado em Ciências da Comunicação, iniciou a sua carreira no Blitz, passou pelo Diário de Notícias até chegar ao PÚBLICO, em 2005, para escrever sobre música. É apaixonado por música desde a adolescência, quando os discos do pai lhe ensinaram a ouvir, a sentir e a explorar o mundo. Nesta entrevista, falamos sobre o seu percurso e a importância do jornalismo cultural.
Para começarmos no tom e ritmo certos, consegue indicar um disco que representa/traduz o seu olhar e ouvido de jornalista?
Posso pensar num disco dos The Kinks, de 1968, que se chama The Kinks Are the Village Green Preservation Society, em que o vocalista e compositor Ray Davies lança um olhar sobre aquilo que é a cultura inglesa. Esse olhar retrospetivo e o olhar atento daquilo que é a realidade do dia a dia é uma coisa que interessa ao jornalismo e a mim também. De uma forma mais direta, há um disco de um cantor folk americano chamado Phil Ochs, All the news that’s fit to sing, que fala sobre temas do dia a dia e políticos e basicamente faz das notícias canções.
No seu perfil no site do PÚBLICO descreve que “foi pela música que chegou ao jornalismo”. O jornalismo nem sempre foi uma opção? De que forma é que a música acabou por o conduzir a essa escolha profissional?
Antes de ir para a faculdade, não sabia bem o que quereria fazer. Gostava muito de música, isso era definidor. Passava muito tempo a ouvir música, a comprar discos ou a ler sobre as bandas. Mesmo na escola secundária, na disciplina de Português, um dos trabalhos que tinha feito era precisamente um perfil de uma banda. Já estava ali um interesse. Acabei por entrar em Ciências da Comunicação e escolhi a variante do Jornalismo. Aquilo que me interessava escrever e investigar era a minha paixão: a música. Pedi para fazer o estágio de final de curso no jornal Blitz e, quando acabou esse período, fui convidado a ficar lá. A partir daí, o percurso profissional foi seguindo essa linha.
Depois do estágio no Blitz passou pelo Diário de Notícias, até chegar ao PÚBLICO. Que aprendizagens foram decisivas para construir a forma como escreve e pensa sobre a música?
A aprendizagem é aquilo que vamos recolhendo, não só com os jornalistas mais experientes, mas também com os nossos colegas. No Blitz, aprendi muito sobre aquilo que é escrever sobre a música, pensar na música, estar atento àquilo que está a despoletar e a fervilhar musicalmente. Fui acolhido, na altura, pelo chefe de redação — o António Pires —, que foi uma espécie de pai no jornalismo pela forma como me acolheu e guiou. No Diário de Notícias, onde comecei a escrever para a secção de Cultura, abriu-se o meu universo ao escrever sobre outras artes, e um jornal nacional implicava uma abordagem diferente. No PÚBLICO, onde já estou há 20 anos, é sempre nessa lógica de contacto com os colegas, em escrever sempre e não perder uma curiosidade e o interesse pela cultura e pela música.
“Há sempre uma sensação de perda, de não conseguirmos ir a todo o lado e perceber tudo o que se passa”
Chegou ao PÚBLICO em 2005 para escrever maioritariamente sobre música. Ao longo destas quase duas décadas, como vê a evolução da cobertura de música em Portugal? Sente que algo se perdeu ou se ganhou nesse processo?
As coisas mudaram muito. Quando entrei, os jornais em papel ainda tinham grande peso e a internet não tinha o peso que tem agora. Uma mudança grande é que as secções de Cultura têm hoje menos peso e menos jornalistas, e a ideia do crítico musical como alguém que ajudava a definir aquilo que ia ser ouvido diluiu-se, porque as pessoas têm hoje um acesso muito mais facilitado à música por outros canais. Há muito mais música a ser feita, e nunca se ouviu tanta música como agora. Isso torna o trabalho mais exigente, porque convivem muitos géneros ao mesmo tempo e é mais difícil perceber um sinal dos tempos. Há sempre uma sensação de perda, de não conseguirmos ir a todo o lado e perceber tudo o que se passa.
Como é que decide os temas ou obras que vai analisar? Que critérios utiliza para escolher sobre o que vai escrever?
Normalmente parte do interesse que me desperta num determinado disco, algo que ouço e é relevante falar. No Ípsilon [suplemento de cultura do PÚBLICO] temos uma reunião semanal onde todos levam as suas propostas e a decisão nasce desse diálogo entre jornalistas e editores, entre aquilo que temos para propor e aquilo que os editores têm em agenda. Pode também nascer da perceção de que há algo a acontecer e que tem um ângulo noticioso. Por exemplo, no ano passado ou há dois anos, comecei a reparar na profusão de pequenos festivais espalhados de Norte a Sul do país, mais próximos da comunidade e que acabavam por criar uma rede que permitia às bandas independentes portuguesas circularem pelo país.

“O jornalismo cultural tem o mesmo papel e a mesma relevância que outras áreas do jornalismo”
Fez parte de programas de rádio dedicados a discos. O que é que este formato permite explorar sobre a música que a escrita nem sempre consegue?
A vantagem era ter duas pessoas a falar seriamente, mas descontraidamente, sobre um disco. Há aquilo que se chama a magia da rádio, essa espécie de conversa íntima que se faz com quem está do outro lado. Dava-me muito prazer estar sentado com o Joaquim Albergaria a deixar que a conversa fluísse. Não havia guião, era ouvir um par de canções e falar sobre elas, e isso leva-nos a caminhos inesperados e a descobrimos coisas novas que não tínhamos à partida.
O jornalismo cultural deve traduzir, de forma simples, realidades complexas. Quando escreve sobre música, como decide o que é essencial para que o leitor compreenda verdadeiramente uma obra?
Depende de cada obra. Há obras às quais temos de dedicar algum tempo a descrever musicalmente aquilo que está a acontecer. Noutras é importante perceber o contexto e porque é que aquela obra nasceu assim, neste ou naquele tempo. Qualquer que seja o olhar mais necessário, é essencial fazer o equilíbrio entre não sermos demasiado críticos e parecer que estamos a falar só para os geeks da música, o que pode parecer arrogante e, por outro lado, não cair no lado da condescendência e achar que o leitor não está à altura. As coisas têm de ser o mais claras possíveis, sem eliminar a riqueza e a bagagem teórica e analítica que tem de estar presente.
Em Portugal, fala-se muitas vezes de uma menor procura pelo jornalismo cultural em comparação com outras áreas. Sente que é mais uma questão de desinteresse do público ou uma falta de investimento na cobertura jornalística das artes e da cultura?
Ler sobre cultura, escrever sobre cultura é essencial enquanto serviço público, porque a cultura é determinante para o funcionamento de uma sociedade e para compreendermos o que ela é. Não sei se alguma vez foi a preferência, ou se alguma vez foi mais do que minoritária entre os leitores do jornalismo. Toda a gente ouve música, mas nem toda a gente tem interesse em ler sobre ela. Ao mesmo tempo, se o espaço foi mais reduzido e estiver circunscrito a simplesmente dar conta de eventos de entretenimento ou de notícias, isso também não há de despertar grande interesse no leitor. Para a compreensão do mundo, o jornalismo cultural tem o mesmo papel e a mesma relevância que outras áreas do jornalismo.

“É preciso espaço para as pessoas escreverem”
Quando pensa no futuro do jornalismo cultural em Portugal, sente mais otimismo ou preocupação? Que mudanças, se alguma, considera necessárias para fortalecer esta área?
É preciso espaço para as pessoas escreverem. É preciso assegurar a renovação geracional de quem escreve, aproveitar as pessoas que vão surgindo e que sabem o que está a acontecer. Pelo lado do talento, por aquilo que vou vendo e lendo, estou otimista, porque há muita gente a escrever muito bem. Por outro lado, não posso ser otimista quando vejo o cenário atual de precarização e de redução do espaço para a cultura. Este correr constante atrás de simples notas de agenda torna a coisa mais complicada, mas isso é uma ditadura do clique contra a qual temos de que ir lutando.
O seu trabalho destaca muitas vezes projetos que passam ao lado dos leitores. Num contexto em que a atenção mediática tende a concentrar-se em artistas mainstream, qual pensa ser o papel do jornalismo cultural na descoberta e valorização de outras propostas musicais?
É fulcral. Permite dar a conhecer esse trabalho e dar validade a nomes que escapam hoje ao radar do grande público. Se não houver esse papel do jornalismo cultural, muitas dessas bandas desapareceriam porque ninguém as tinha ouvido. Por isso, o jornalismo cultural tem esse papel decisivo de mostrar aquilo que está escondido. Não só ao público, mas também aos agentes do meio, que podem ler e descobrir uma banda que lhes desperta o interesse e acabam a contratá-la. É todo um ecossistema necessário para o saudável funcionamento de uma área cultural musical.
Depois de tantos anos a escrever sobre música, o que é que ainda o surpreende ou entusiasma neste trabalho?
O mesmo que antes: a descoberta de novas linguagens, novas pessoas, novos artistas que nos iluminam. O simples gosto em partilhar, em noticiar algo que parece essencial as pessoas conhecerem. Essa descoberta constante pode ser uma coisa que está a acontecer neste momento, como poder ser um disco de 1954 que só agora descobrimos, mas que musicalmente nos diz qualquer coisa sobre aquele período histórico que faz sentido agora.







