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-Início»Entrevistas»Nuno Dias: “A pressão é um privilégio”
O treinador português ganhou por duas vezes a Liga dos Campeões de futsal, em 2018/2019 e 2020/2021

Nuno Dias: “A pressão é um privilégio”

Bruna Coelho 24 Fev 2026 Entrevistas, Entrevistas

De raízes humildes e personalidade reservada, Nuno Dias é muito mais do que o treinador que se vê na linha lateral. Nascido na Beira Litoral, cresceu ligado ao futsal e cedo percebeu a vocação para liderar. Desde 2012 no comando do Sporting CP, transformou os “leões” numa potência nacional e internacional. Nesta entrevista, abordam-se temas ligados ao percurso do treinador, às exigências da modalidade e aos desafios de liderar o emblema verde e branco.

Enquanto jogador passou pela Académica e pelo Instituto D. João V. Mais tarde, assumiu o comando do Instituto D. João V, levando-o à primeira divisão, e destacou-se no Louriçal, onde alcançou duas presenças nas meias-finais do campeonato e uma na Taça de Portugal. Teve ainda uma experiência no CSKA de Moscovo, como adjunto, antes de chegar ao Sporting. Foi o culminar do sonho?

Naquela altura sim, era chegar ao patamar mais alto do futsal português. Achava que era chegar ao final daquilo que seria o sonho, mas rapidamente percebi que era só o início. Era apenas o chegar a um sítio especial com outro tipo de objetivos, condições, dificuldades e desafios. Facilmente percebi que, a seguir a esse, viria outro e mais outro, sucessivamente. Estou aqui há 12 anos e espero continuar a alcançar aquilo que temos alcançado.

Desde que assumiu o comando do Sporting tem vindo a dominar o futsal nacional e internacional, somando nove títulos de campeão nacional, sete Taças de Portugal, oito Supertaças, seis Taças da Liga e duas Ligas dos Campeões. O que distingue esta equipa das restantes?

Acho que o projeto de continuidade das pessoas que lá estão desde o início, e das que foram acrescentando ao longo dos anos, tem sido o suporte do sucesso deste departamento. Não só a nível sénior, mas em tudo o que temos conseguido na nossa formação. O grande troféu da formação tem sido colocar constantemente atletas na equipa principal e fazer deles referências, não só do clube, mas também a nível nacional.

Ao longo destes anos muita gente mudou, a estrutura vai-se renovando — é a lei da vida e do desporto. Acho que a boa escolha que fazemos, além dos aspetos técnicos ou táticos, reside nas pessoas, na educação que têm e na forma como são ambiciosas. Temos introduzido pessoas com um perfil que se enquadra nas nossas ideias, saem uns e entram outros, mas a ambição de vitória mantém-se porque é passada de geração em geração. Quem entra percebe claramente onde chegou, percebe que está numa equipa de campeões e rapidamente se encaixa. O aspeto competitivo e a ambição de querer ganhar mais são cultivados neste grupo. Quem vem, ou se encaixa, ou não se aguenta muito tempo.

Nuno Dias orienta o Sporting há mais de uma década

“O jogo tornou-se cada vez mais dinâmico, mais intenso, agressivo e com um ritmo muito mais alto”

Como gere a pressão de representar um clube que é feito para vencer em todas as competições?

Já ouvi isto em algum lado, mas continuo a achar o mesmo: a pressão é um privilégio. A pressão de ganhar é uma coisa boa porque é sinal de que reconhecem em nós capacidade para o fazer. As equipas que não têm qualidade não têm pressão nenhuma de ganhar; normalmente perdem e não há problema. Para nós, que estamos constantemente na luta pelos troféus, essa pressão agrada-me. As pessoas reconhecem que temos capacidade para lá chegar e nós faremos com que essa pressão seja positiva e não algo que nos atrapalhe ou gere comportamentos negativos.

Com a evolução constante do futsal, que mudanças destaca e como adapta os seus treinos?

O jogo está diferente, sim. Tornou-se cada vez mais dinâmico, mais intenso, agressivo e com um ritmo muito mais alto. Só para teres uma ideia, se calhar há dez anos havia jogadores capazes de jogar 40 minutos; neste momento, jogar mais de cinco minutos seguidos ao ritmo atual é impossível. Isto obriga-nos, na metodologia de treino, a ajustar as tarefas em função dessas alterações. O estímulo tem de ser diferente para que os jogadores estejam adaptados ao que vão encontrar em campo.

Disse em declarações aos meios do clube, antes da partida para a Croácia para a ronda principal da UEFA Futsal Champions League 2025/2026, que “o esforço é grande e temos de fazer alguma gestão, porque são muitos jogos em poucos dias”. Como se faz essa gestão entre o desgaste físico e o foco competitivo?

Além do esforço físico despendido no jogo — em quatro dias fizemos três jogos —, há outro tipo de dificuldades, como as viagens. Quando fomos para a Croácia, o voo era às cinco da manhã; tivemos de estar no aeroporto às três. É uma noite perdida a três dias de competir. Depois houve uma escala de algumas horas em Frankfurt.

Não é só o jogo, é toda a logística inerente. Quando voltámos, passados três dias estávamos a competir para a Liga e, três dias depois, voltámos a jogar no Caxinas, viajando no dia anterior. Neste mês de novembro, somando as seleções nacionais, há jogadores a fazer 12 jogos. É uma média de um jogo de três em três dias. Este ano, houve uma preocupação grande na construção do plantel em número para poder gerir o esforço e não utilizar sistematicamente os mesmos jogadores. Toda a equipa técnica tem um cuidado muito grande com a recuperação e com o número de minutos de cada um. Temos conseguido fazê-lo de forma inteligente para que não haja lesões nem sobrecargas.

Em 2021/2022, foi eleito o melhor treinador de futsal do mundo

“Não faz sentido mudar para ganhar mais alguns euros”

Passados tantos anos como treinador do Sporting, provavelmente recebeu propostas para treinar outros clubes. Porque é que continua a orientar os “leões”?

Sabes que quando estamos num sítio onde nos tratam bem, nos respeitam e onde gostamos de estar, não há grandes motivos para mudanças. Se eu estivesse num clube que não fosse ambicioso ou que não atingisse determinado patamar, se calhar pensava: ‘vou ter de mudar porque quero conquistar mais troféus’. Mas eu estou no sítio onde mais ganho. Não faz sentido mudar para ganhar mais alguns euros, apesar de sabermos que esse é um aspeto importante nas modalidades amadoras. Sinto-me bem onde estou. Por mais convites que tenham surgido, ainda não apareceu nenhum que me fizesse pensar que valia a pena abandonar um local de que gosto e onde as pessoas gostam de mim.

 

    
2026-02-24
João Ferreira Oliveira
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