Um dos principais rostos da televisão e vozes da rádio portuguesa, Vasco Palmeirim assume-se feliz com o seu percurso e garante não ter arrependimentos sobre o que poderia ter feito e ainda não fez. Confessa que o segredo é ser genuíno, seja em que meio for.
Está na equipa do programa de rádio mais ouvido em Portugal, apresenta programas de televisão de grande audiência, faz várias campanhas publicitárias e até já ganhou um Globo de Ouro. O que ainda lhe falta fazer?
Quando começas a trabalhar neste meio, és influenciado por aquilo que vias na televisão. Há muitos anos, entrevistei o Nicolau Breyner e perguntei-lhe: “o que faz quando está a fazer zapping e pára numa das suas cenas?” Disse-me que não via televisão. Agora entendo-o. Raramente vejo televisão. Quando via, havia muitas coisas que gostaria de fazer como um talk show estilo Jimmy Fallon. Já não penso dessa maneira. Mas talvez gostasse de voltar a fazer um programa de música como o que fiz há uns anos, o Alta-Fidelidade. Foi um projeto muito engraçado onde homenageámos vários artistas de diversas maneiras e gostava muito de fazer uma segunda temporada.
Formou-se em Comunicação na Universidade Católica. Em que momento percebeu que ser comunicador era aquilo que queria para a sua vida?
Entrei na Universidade Católica por exclusão de partes e percebi que queria alguma coisa relacionada com comunicação, televisão, rádio, imprensa escrita. Não entrei na Nova por uma décima. Mas acabei por ter sorte porque a Católica deu-me a parte teórica e foi lá que me apresentaram a rádio. Tive uma cadeira de rádio e percebi que era uma porta aberta onde podia pôr em prática muita coisa: a parte escrita, a criativa, a de fazer rir. Foi a primeira vez que soube o que queria. Também tive a sorte de ter um professor que era diretor de uma rádio e, no final do ano, apresentou-me a proposta de um estágio na MegaHits.
A sua entrada na Rádio Comercial foi um salto enorme. Lembra-se do primeiro dia e do que lhe passou pela cabeça?
Senti muita responsabilidade. Na altura, o Pedro Ribeiro — que continua a ser o diretor da Rádio Comercial —, apresentou-me um plano a longo prazo onde queria passar da terceira para a rádio mais ouvida em Portugal e esse plano passava por mim. Na altura, estávamos longe da mais ouvida. Ele esteve muito tempo de olho em mim porque já fazia as manhãs na MegaHits e disse-me que na Comercial ia ser mais feliz. Então comecei a trabalhar com o Pedro Ribeiro e com a Vanda Miranda. Começámos a dar-nos muito bem, chegava ao domingo à noite a querer muito que fosse segunda-feira para vir trabalhar, coisa que nunca me tinha acontecido. Foi das alturas mais felizes. Também foi quando apareceram ferramentas como o YouTube e o Facebook em que as coisas que fazíamos ficavam virais e o programa cresceu bastante. Naquela altura senti nervos, mas, acima de tudo, felicidade. Desde o início que me sinto bastante feliz aqui.

O trabalho nas manhãs obriga a acordar cedo e ter energia logo às 7:00h. É sempre um desafio ou já está habituado?
Apesar de fazer tudo com muito gosto, cansa. Há dias em que estou muito cansado. Uma das coisas que sempre disse é que não quero que o trabalho fora da rádio influencie a minha prestação pela negativa. Por exemplo, fiz o The Voice durante muitos anos ao domingo à noite, em direto, e chegava muitas vezes às 2:00h a casa e nunca disse ao Pedro que não conseguia ir. É muito difícil estar fisicamente bem disposto e motivado. Mas a rádio tem uma coisa incrível: esta componente de conversa, de nos esquecermos que estamos no ar, a forma genuína com que o fazemos. Acorda-nos e, passados 10 ou 15 minutos, já não pensamos no cansaço.
“Comigo tem de ser bem feito, sou um perfecionista”
É um dos rostos mais conhecidos da televisão portuguesa. Sente diferenças grandes entre o Vasco da rádio e o Vasco da TV? Qual dos Vascos gosta mais?
Tento que haja um equilíbrio. Que a pessoa da rádio seja a pessoa da televisão. Seria estranho uma pessoa ouvir o Vasco na rádio, depois ver o Vasco na televisão e ser diferente. Tento que seja genuíno. Há programas em que tenho de adotar uma personagem. No Taskmaster adoto uma postura mais dura e também adoro isso. No original, o Task trata o braço direito ‘abaixo de cão’. Não faria sentido tratar assim o [Nuno] Markl, especialmente porque na rádio somos muito amigos. Não seria natural. Não posso dizer que há um Vasco televisivo e um radiofónico, essa é a parte boa, não ter de carregar num ‘botão’. Tenho sido sempre eu e, felizmente, tem corrido bem.
Apresentou e ainda apresenta programas com grandes audiências. Se tivesse de escolher um, qual seria?
Apesar de ter dito que sou sempre o mesmo, cada programa tem a sua dinâmica diferente. O Joker chega a um tipo de público, o Taskmaster chega a todos. É importante saberes quando parar. Aconteceu isso em relação ao The Voice em que foram muitos domingos a chegar tarde a casa. Apesar de serem 10 anos de amor, tive que dizer já chega, porque senti que não havia mais nada que poderia dar ao programa e também porque senti que a Catarina Furtado tratava do assunto e foi na mesma altura que comecei o Taskmaster. Tive de fazer uma gestão de imagem: estou na rádio todos os dias, de segunda a sexta apareço no Joker, no Taskmaster sábado à noite, e The Voice no domingo. As pessoas vão ver e ouvir-me todos os dias. Não quero chegar ao ponto de as pessoas se fartarem de mim. Tentei gerir. Em relação aos programas que ainda faço, não consigo dizer já chega, sinto que há mais para dar. Não me canso do Joker, faz parte da rotina e faz muita companhia aos mais velhos. Não sei dizer qual gosto mais, mas sei dizer que uma grande surpresa é o Taskmaster porque só queria fazer uma temporada. Agora se tivesse de escolher só um, gravava mais temporadas de Taskmaster porque adoramos fazer [o programa] e as pessoas iam gostar. E porque ainda há muitos possíveis concorrentes que gostava de ver lá. Em relação ao Joker estou a caminho dos 2.000 programas, ainda há mais para dar, mas se acabasse agora ficava muito contente. Se fosse o Taskmaster, sentia que ainda faltava alguma coisa.

O sucesso na televisão traz sempre pressão. Como gere a expectativa constante de ser o apresentador divertido? Há pressão também para que tenha audiências?
A parte boa de trabalhar na RTP é que a missão é fazer serviço público, não é ter audiências. No entanto, é sempre bom veres que muitas pessoas veem o teu programa. Os números são importantes, mas não faço disso a coisa mais essencial do meu trabalho. Volto ao Alta Fidelidade, que não é o programa com mais audiências, mas é muito importante, porque foi feito com muita classe e amor. Tem de ser bem feito, porque sou perfecionista. Às vezes no Joker, se vir que há uma pergunta mal formulada, paro a gravação. Quero que o programa que apresento seja um programa com estrutura e bem pensando. Isso leva-me para o lado de não querer ser apenas o tipo que chega lá e apresenta, mas ser a pessoa que cuida do programa. No Taskmaster escrevo o guião todo com o Markl, no Joker sei quase tudo sobre os concorrentes. Não é só fazer perguntas e tentar dar dinheiro. Sou muito exigente comigo e que as pessoas vejam que é um bom programa, se tiver audiências, ainda melhor.
“Quero muito ver uma final de Wimbledon ao vivo”
Muita gente não sabe, mas tem uma verdadeira paixão pelo ténis. Quando começou esse bichinho?
Na família, o gene do ténis vem daí. A minha avó e o meu tio jogavam ténis e comecei desde muito miúdo. Quando cheguei à faculdade parei. Optei pelo estudo, porque percebi que, apesar de dar muita felicidade, não ia dar estabilidade financeira. Não se perdeu um número 1 do mundo, pelo contrário. O ténis é uma boa memória.
Se pudesse viver um ‘dia de sonho’ no ténis, jogar com alguém, narrar um jogo, participar num torneio, o que escolhia?
Quero muito ver uma final de Wimbledon ao vivo. Gostava de voltar a jogar torneios de maiores de 40 anos para sentir o bichinho da competição. Agora um dia de sonho era em Wimbledon, tinha dúvida entre os quatro slams, mas não há nada como Wimbledon. Gostava de confirmar a teoria e presenciar essa magia.

“Faço o cubo de rubik em 1 minuto e 10”
Quando está fora das câmaras e dos microfones, quem é o Vasco que poucas pessoas conhecem? O que surpreenderia um telespectador habitual?
As pessoas já conhecem tanto de mim que acho que não há nada que surpreenderia as pessoas. Mas posso dizer que consigo fazer o cubo de rubik em 1 minuto e 10 segundos. Ainda não consegui fazer em menos de 1 minuto.
Imagine que daqui a 20 anos olha para esta fase da sua vida. O que acha que o vai orgulhar mais e o que o vai fazer pensar “devia ter arriscado mais”?
Não vou pensar nisso. Quando começo a olhar para trás a pensar no que fiz e no que não fiz, não há nada que tenha dito a mim próprio que devia ter feito ou não. O meu trajeto tem sido bem pensado e com escolhas bem estruturadas. Falando de televisão, a TVI tem bastantes audiências, mas não quero ir para um canal com audiências fazer algo com o qual não me identifico. A audiência não é tudo, o dinheiro não é tudo. Estou bem resolvido em relação às opções que tomei. Portanto, não vai haver nada que olhe para trás e pense: “devia ter saltado para aquela carruagem” ou “não devia ter feito esta escolha”. Estou muito feliz com o meu trajeto. Se a minha carreira acabasse agora não havia nada que olhasse para trás e ficasse com pena. Até agora não estou arrependido de nada.





