Vera Fernandes descobriu cedo que a rádio podia ser mais do que som: podia ser um espaço onde se criam ligações com quem está do outro lado. Ao longo dos anos, construiu uma identidade própria, feita de empatia e autenticidade, que transforma cada manhã numa conversa de proximidade com quem a ouve. Encontrou o seu lugar na Rádio Comercial, onde concilia a vida pessoal, profissional e o propósito que dá sentido à sua voz.
Desde cedo percebeu que a voz podia ser companhia, mas também caminho e vocação. Antes das Manhãs da Comercial, passou por outras estações e, passo a passo, criou uma identidade muito própria como comunicadora. Houve algum momento em que sentiu claramente: “é aqui que pertenço”?
Desde que entrei para a Cidade FM, o meu objetivo sempre foi chegar à Rádio Comercial. Acho que qualquer pessoa que faça rádio quer pertencer à Comercial, não só por ser a Rádio Número 1 em Portugal, mas pelo que representa. Fui caminhando, sempre certa do meu objetivo. Quando cheguei à Rádio Comercial, não senti logo: é aqui que eu pertenço. Como numa casa nova, não é nossa de imediato, temos de colocar lá a nossa energia. Comecei por pensar, ok, estou onde queria, começou a tornar-se na minha casa. Hoje, é aqui que pertenço e, se tudo correr bem, vou ficando nos próximos anos.
“Esta é a nossa missão: acompanhar e ajudar quem está mal ou mais ou menos, e apoiar quem está bem a continuar”
A rádio continua a ser a sua casa, um espaço onde acorda o país e cria ligações invisíveis com quem a ouve diariamente. Num tempo dominado por aquilo que é imediato e visual, a rádio ainda oferece o que é insubstituível?
Recebemos muitas mensagens diariamente que nos dão a certeza de que estamos no sítio certo e à hora certa. Tenho sempre vontade de mudar de horário, porque é a única coisa que penso poder melhorar, mas se mudasse, estragava tudo. Tenho a certeza de que esta é a nossa missão: acompanhar e ajudar quem está mal ou mais ou menos, e apoiar quem está bem a continuar. A certa altura da vida, percebemos qual é o nosso propósito, e tínhamos de estar juntos a fazer o que fazemos.
Como se constrói essa sensação de proximidade com cada ouvinte, como se chega a cada um deles?
Usando a verdade acima de tudo: temos que ser nós. Não vale a pena fingir que somos outra pessoa; a dada altura, esse boneco cai. Nos primeiros tempos, quando começamos a fazer rádio, isso é o mais difícil, porque parece que nos colocamos muito direitinhos, ficamos nervosos e criamos tantas limitações que não somos bem nós. Mas, à medida que o tempo passa, vamos descontraindo e deixando o que realmente somos passar para os outros. Parece magia, mas não é; é o mais simples: compreender o outro, ser empático e tentar ajudar.
Nas Manhãs da Comercial, humor e improviso cruzam-se num verdadeiro trabalho de equipa. A química entre as vozes do estúdio é uma das marcas do programa. Num horário tão exigente, como se cria e preserva essa dinâmica diária?
A química vai-se construindo. Entrei em 2017 e, nos primeiros anos, não estava tão próxima deles, já tinham criado ligação com colegas anteriores. Devagar, fui dando baby steps, conhecendo melhor o Vasco, o Markl e o Pedro. Acho que já estamos em equilíbrio. Percebi qual era o meu lugar, e isso precisa de tempo. Tudo na vida precisa de tempo. Estes anos deram-me a oportunidade de encontrar o meu lugar e criar um circuito que todos os dias corre bem.
Há espaço para dias menos bons num programa que vive tanto da energia do grupo?
Não só há espaço, como é bastante sincero da nossa parte. Dizemos: hoje, não estou bem. Tive uma manhã complicada, furei um pneu. Quando mostramos o nosso lado mais sensível e as nossas fraquezas, aproximamo-nos das pessoas. É muito bom trazermos coisas do dia a dia para a rádio, porque assim os ouvintes identificam-se e ficam ainda mais próximos de nós.
A sua comunicação é normalmente associada à empatia e à proximidade, uma forma de falar que acolhe. Sente responsabilidade por saber que tantas pessoas começam o dia consigo?
Sou mãe e essa energia é de proteção. Não sou mãe a 100% na rádio, mas tenho ali uma percentagem. Sou mulher, colega, mãe, e tento conciliar tudo. Em relação aos ouvintes e aos colegas, tenho um lado muito maternal, de cuidar e dar atenção a todos. Um ouvinte disse que eu era a cola do programa e eu concordei: dou atenção ao Vasco, depois ao Pedro, depois ao Nuno e ligo-os. Sou um pouco a corrente que liga esta malta.
Que impacto tem quando é reconhecida, muitas vezes, apenas pela voz?
É muito engraçado que, às vezes, as pessoas não me reconheçam, só quando começo a falar. Passo despercebida e, de repente, ouço: “Ah, é a Vera?” Agora já não dá para escapar. É o que o meu marido diz: começamos a falar e somos logo apanhados. Mas as pessoas são normalmente muito queridas. Sou um bocadinho despassarada e nunca reparo que estão a olhar, porque vou com os miúdos e penso em mil coisas ao mesmo tempo. Entro num sítio e só vejo a pessoa com quem falo. O Fernando é que está à minha volta, e diz: “Estão aqui a olhar para ti, já te reconheceram.”

“Adaptei toda a minha vida a este horário”
A rotina fora do microfone é rigorosa. O que lhe ensinou esta vida madrugadora?
Sou muito organizada em termos de horário semanal; se não fosse, não conseguiria aguentar. Tive que aceitar: se foi esta a vida que escolhi e o horário que me deram, só tenho de agradecer, porque é o melhor na rádio número 1 de Portugal. Adaptei toda a minha vida a este horário. A maior parte das pessoas faz desporto ao final do dia; eu concentro-o à hora de almoço. Vou para a cama às nove e meia e sou a amiga que é uma seca e se despede primeiro nos jantares. Se acordamos cedo, temos de nos deitar cedo; se não, a cabeça não funciona e as frases não saem fluidas. Adaptei tudo ao programa: trabalho, gravações, desporto, crianças, jantar, e depois consigo encaixar pequenos momentos.
O desporto é também uma presença constante no seu percurso. Concluiu, até, a Maratona de Nova Iorque. O desporto funciona mais como refúgio ou como forma de manter o equilíbrio para lidar com o ritmo diário?
O desporto foi o complemento que encontrei para não enlouquecer. É muito importante manter-me em forma para me sentir saudável e, à medida que a idade avança, para manter a força e a agilidade. É também um escape: depois de uma corrida ou treino puxado, penso, ok, estou preparada para a vida, venha o que vier, já relativizo, os nervos saem. O mal do corpo sai no desporto. Trabalho e desporto são dois pilares na minha vida e muitas vezes ambos se cruzam, o que é incrível. Já corro, quando me convidam para associar trabalho à corrida, é perfeito.
Num contexto em que tudo pode transformar-se em conteúdo, mantém uma presença pública sem sobre-exposição. A autenticidade também passa por saber o que não mostrar?
Tenho algum cuidado com a exposição dos miúdos: não os escondo, mas também não estou sempre a mostrar. Há momentos em que é giro partilhar, mas outras coisas ficam para mim. Se não tenho a certeza, não partilho. Quando quero mesmo partilhar, penso nos meus amigos, porque sei que também vão ver. Tenho muita gente a seguir-me e abro as portas das redes sociais com todo o gosto, porque isso une as pessoas. Mas não estou sempre a colocar coisas. Partilho quando me apetece, não é obrigatório.
O que gostaria que o público ainda descobrisse sobre a Vera Fernandes?
Estou disponível para o que o futuro me apresentar. Tenho um lado meu muito ligado à moda, roupa, tecidos e costura, que sei que mais cedo ou mais tarde vou explorar. Entre o trabalho e os filhos, não procuro mais formações, mas, quando eles estiverem mais independentes, talvez aposte em moda ou styling. Gosto de tratar da roupa e do cabelo em cada concerto que fazemos na Comercial, e este trabalho também me encanta. É uma vontade e paixão grande que ainda quero desenvolver.





