Ilustradora e uma das vozes do feminismo nas redes sociais, Clara Silva, de 32 anos, tornou o “Não” na sua identidade artística e política, transformando a arte e as redes sociais numa plataforma para discutir géneros, direitos humanos e identidade queer.
O “Não” que colocou ao lado do seu nome tornou-se quase tão marcante como a própria Clara. Quando é que percebeu que este “Não” podia dizer de forma clara quem é e o que defende?
Quando acabei o curso, comecei a perceber o impacto das redes sociais. Chamo-me Clara Silva e é muito comum. Acabei por escolher o “Não” por uma questão semântica. No princípio diziam, “mas vai ou não?” Quando comecei a fazer ilustrações, eram sobre o humor e questões no amor e fui ganhando confiança para falar do resto. Apercebi-me, depois, que esse “Não” tinha uma questão de reivindicação. Começou como uma forma artística de me expressar. O meu trabalho acompanha o estado em que estou. O que está a preocupar o mundo. Quando estamos alerta, começamos a perceber que é importante usar a nossa plataforma para ampliar causas que precisam de mais palco.
Em que momento percebeu que o que fazia deixava de ser apenas uma partilha criativa e se começava a transformar num espaço partilhado de reflexão pública sobre géneros, identidade e poder?
Quando começaram a dizer que partilharam as minhas ilustrações nos grupos de WhatsApp, na imprensa sobre igualdade de género, em faculdades ou em workshops de saúde. Não estava só no meu núcleo, mas estava a mexer com as pessoas. O que acontece com as redes sociais é o perigo do ativismo. O ativismo não pode começar e acabar num clique, tem de ter impacto na vida real.
A sua arte pode ser considerada política?
A arte pode ser só decorativa. Há pessoas que dizem que a arte continua a ser política. Gosto mais de separar. A arte decorativa, como um papel de parede, pode ser artístico sem ser político, no entanto é necessário que haja arte política porque começa uma conversa.
Descreve o seu feminismo como interseccional. Como escolhe os temas que trata nas crónicas para que se torne visível esta interseccionalidade?
Vou aos jornais e guardo artigos. Estou atenta e tenho a sorte de ter amigos que estão alerta para questões sociais. A comunidade da escolha dos assuntos de que se fala ajuda para perceber e para escolher bem os canais com os quais te ligas. Podemos acabar por apoiar a desigualdade e não a equidade.

“Cada vez mais há o marketing do ódio”
Escreveu sobre o facto de ser uma mulher queer e de não colocar géneros como critérios nas relações. Com o aumento da exposição pública, sente que esta identidade se tornou mais evidente para si ou mais difícil de comunicar num espaço que ainda impõe rótulos?
Agora está a ficar mais difícil. Há uma presença maior da Direita que não permite e quer fechar os olhos à diversidade. Está a haver uma onda de conservadorismo de pessoas jovens. Lembro-me de andar na faculdade e achar que as pessoas conservadoras iam morrer e o mundo ia ser melhor [risos]. Não a desejar a morte de ninguém, mas a pensar na evolução das coisas. Estou com medo de que voltem a crescer pessoas que, como eu, não sabiam o que era ser bissexual. Dizer que é uma fase é invalidar a orientação sexual de alguém. O rótulo que me ponho a mim mesma é o que for mais fácil para as pessoas perceberem. É importante construir um discurso que abrace as pessoas em vez de as afastar.
Em entrevistas anteriores, referiu existir machismo entre mulheres. A que se deve esta reprodução de comportamentos patriarcais entre nós?
Fomos bem ensinadas. A idealização da supremacia masculina é controlar as mulheres umas contra as outras. Como se num jogo de futebol as mulheres marcassem autogolos e os homens não precisariam de fazer nada. Se garantirmos que as mulheres transportam este conhecimento, então garantimos que os rapazes vão ser educados para serem líderes e as mulheres vão ser educadas para serem as mulheres dos líderes.
“As mulheres não são do Estado”
Defende que “o machismo entre mulheres a deixa muito chateada”. Qual é, para si, a raiz deste fenómeno?
A perpetuação dos padrões de género começa mesmo antes das pessoas nascerem. Estamos a ter papéis de género restritos e o machismo vem daí. Este padrão pode ser visto como segurança. Sei que, sendo mulher, se tivesse casado ou à espera de um filho com um homem e um trabalho das 9h00 às 17h00, ninguém ia questionar o facto de ser uma mulher cidadã válida. Seguir este padrão é uma espécie de performatividade.
Depois do 25 de Abril de 1974, muitas pessoas assumiram-se gays depois da vida adulta. Ainda existe um estigma do homem para a mulher?
Há países em que ser um homem gay é crime com pena de morte, mas ser lésbica não. O que rege é a heteronormatividade. Há um fetiche em ver duas mulheres juntas. Dentro da homossexualidade, nos homens há mais preconceito, mas em relação às mulheres lésbicas há a ideia de que “tu só és lésbica porque nunca encontraste o homem certo”.
“Dizer que é uma fase é invalidar a orientação sexual de alguém”
Em declarações à TSF, afirmou que “o feminismo só faz mal aos racistas, xenóbofos e machistas” e que a masculinidade tóxica prejudica tanto homens como mulheres, porque os ensina a reprimir emoções. Em Portugal já se começou a desconstruir esta ideia de que “sentir é fraqueza”?
Descontruiu-se e voltou-se a construir. Estamos numa renovação de património fascista. Dá para viver uma masculinidade que não seja tóxica. A expressão correta seria masculinidade hegemónica. Se há masculinidade tóxica, também há feminilidade tóxica. Estamos a voltar ao homem forte e às tradwives que têm engagement no Instagram. O trabalho delas é as redes sociais, por isso não estão a cumprir com o padrão de género que estão a partilhar. As pessoas fazem isto porque vende. Cada vez mais há o marketing do ódio. Há a ideia de que as feministas estão a impedir que as mulheres queiram ser donas de casa. O que o feminismo está a tentar fazer é permitir que seja uma opção e não uma obrigatoriedade. Dar às mulheres que escolhem este caminho mecanismos de defesa e de ação para que estejam em segurança.
Na sua crónica “O feminismo é só para mulheres?”, a Clara defende que o feminismo é um movimento que liberta toda a gente. Tendo em conta esta visão inclusiva, que transformações gostarias realmente de testemunhar em Portugal nos próximos anos?
Gostava que houvesse igualdade salarial. Isto é o principal. Que houvesse creches gratuitas, vagas em lares gratuitos, porque o cuidado da família acaba por cair mais nas mulheres. Há este fantasma que as pessoas acham que estamos a falar em profissões diferentes e não. Estamos a falar de igualdade salarial no mesmo cargo, na mesma empresa e no mesmo poder de decisão. Temos raparigas a viajar dos Açores para Lisboa para poderem ter o direito à Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG). Por muito que se fale no direito à IVG, em Portugal é um crime sem pena. Era suposto ser mais fácil. A lei diz que fica a cargo das enfermeiras parteiras e o mais recente estudo revelou, no relatório da Entidade Reguladora da Saúde, que alguns médicos que se dizem objetores de consciência no SNS praticam-no por 500 euros no privado. Se pagares, tens sempre direito. Não pode ser um privilégio económico. As mulheres não são do Estado.

“É importante construir um discurso que abrace as pessoas em vez de as afastar”
Ao longo do seu percurso, a Clara tem desconstruído estereótipos e aberto espaço para conversas sobre género, amor próprio e saúde mental. Qual é a ideia essencial que nunca estaria disposta a negociar, mesmo com tanta polémica e resistência social?
As mulheres têm direito à autonomia corporal, também deveriam ter direito ao apoio psicológico. Os Direitos Humanos não deveriam ser um privilégio económico.







