Com uma carreira marcada pela direção editorial, investigação e transição digital, Catarina Carvalho construiu um percurso singular no jornalismo português. A fundadora e diretora da Mensagem de Lisboa fala sobre os desafios do setor, a necessidade de modelos sustentáveis e a missão cívica de aproximar os lisboetas da sua própria cidade.
É jornalista, fundadora e diretora do projeto Mensagem de Lisboa. Tem cerca de 30 anos de carreira e muita história nesta área. De onde veio o desejo de se tornar jornalista?
Tudo isto faz parte de uma tradição familiar. O meu avô era jornalista, embora fosse de um órgão de comunicação social local pequeno. Comecei a minha vida de escrever e ler com o meu avô, a escrever à máquina todos os dias. Começou com essa vontade de gostar de escrever e de ler as coisas que ele escrevia para o jornal. Não me lembro de haver outras opções. Era aquela: eu queria ser jornalista.
Ao longo deste período, passou por momentos decisivos — desde a direção executiva do Diário de Notícias, onde liderou a transição digital, até ao trabalho em revistas como a Notícias Magazine, Evasões e Volta ao Mundo. Como descreve esse percurso, entre os momentos mais marcantes e os mais desafiantes?
Todos os momentos do jornalismo são super desafiantes. A coisa mais desafiante que fiz até hoje é a Mensagem de Lisboa. É um projeto começado do zero, cuja sustentabilidade está toda nas minhas mãos. Há um grau de responsabilidade que não tinha nos outros sítios onde trabalhei. No entanto, ser diretora do Diário de Notícias numa altura complicada, quando começou a pandemia, também foi um grande desafio. Fazer as revistas do DN crescer foi estimulante; tal como ser jornalista do Expresso e procurar notícias, manchetes e informação nova em áreas que o jornal não trabalhava muito, como a imigração e a segurança. Transformar isso em algo que não fosse sensacionalista era, também, um desafio.
“Somos muito injustos com o jornalismo e com os jornalistas”
A experiência de dirigir o Diário de Notícias deve ter deixado aprendizagens profundas. Que ensinamentos leva dessa fase para aplicar agora na Mensagem de Lisboa?
Não sei dizer se o Diário de Notícias foi melhor ou pior. Foi mais complicado porque era um jornal em que, a partir do momento em que se é diretor, se tem uma série de responsabilidades — nomeadamente financeiras — que são muito diferentes das meramente jornalísticas. A partir desse momento as coisas mudam e, quer as revistas, quer o DN, são um bocado a consequência um do outro.
Além do Diário de Notícias, trabalhou em meios de comunicação tão diferentes como o Expresso, Sábado ou Diário Económico. Quais foram as diferenças que sentiu na forma de atuação e no estilo editorial?
Sempre trabalhei em jornais que, apesar de serem diferentes, tinham todos em comum o facto de praticarem um jornalismo sério, rigoroso e não sensacionalista. Isso é um privilégio. Sempre estive em sítios que implicavam buscar a investigação em vez do clique. No que toca ao ritmo, o jornalismo diário e o semanal são muito diferentes: o diário procura responder à atualidade, fazendo o melhor possível com o pouco tempo que tem; o semanal procura investigar melhor, saber e aprofundar mais os temas.
Viveu de perto uma das fases mais decisivas da imprensa portuguesa — a transição digital. Como olha hoje para essa mudança? Diria que o jornalismo português conseguiu adaptar-se ou ainda está preso a modelos que já não funcionam?
Nós somos muito injustos com o jornalismo e com os jornalistas. É uma atividade super escrutinada e que está sempre a mudar. Deve ser das profissões que mais alterou as formas de trabalhar por causa da tecnologia e do modelo de negócio, que se modificou completamente. Não posso dizer que o jornalismo não se adaptou; hoje em dia toda a gente o fez. O que acontece é que há meios mais pequenos e locais que ainda estão nesse processo. Os próprios jornalistas também já se adaptaram. Fizemos aquilo que podíamos e o que toda a gente fez no mundo. Lembro-me de um momento em que fazíamos o que tínhamos a fazer e havia tempo. Depois, passámos a andar sempre a correr contra o relógio. Também me recordo de quando não oferecíamos as notícias e de quando passámos a disponibilizar gratuitamente informações que nos custava muito dinheiro obter. Esses dois momentos são muito diferentes para a saúde mental dos profissionais. Quando tens um jornalista que pode trabalhar até às cinco da tarde e ir para casa estar com os filhos, ele é certamente mais feliz do que um que sabe que o seu trabalho nunca está acabado. Tudo isso muda a vida dos jornalistas.

“A Mensagem surgiu para contar as histórias da cidade”
O seu mais novo projeto foi lançado em fevereiro de 2021. Como nasceu a ideia para a Mensagem de Lisboa e o que a motivou a criar um jornal dedicado a contar a cidade a partir das pessoas e dos bairros?
A Mensagema apareceu numa altura em que sabíamos que havia pandemia. Eu e o Ferreira Fernandes, que é o cofundador, tínhamos saído do Diário de Notícias porque não havia maneira de fazer o projeto que tínhamos idealizado; os constrangimentos financeiros eram muito fortes. Criámos o jornal com o apoio do Grupo Valor do Tempo, com base em várias ideias que tínhamos pensado até para o DN, por ser um título onde Lisboa era muito importante na sua história.
A Mensagem surgiu para contar as histórias da cidade que não estavam a ser contadas e que achávamos que interessavam às pessoas. O movimento em prol do jornalismo de proximidade estava a acontecer no mundo inteiro. Enquanto os “desertos noticiosos” apanhavam muitos jornais pequenos, surgia também um novo jornalismo de proximidade, de trabalho com as pessoas, quase cívico — uma espécie de laboratório de civilidade e de urbanismo.
A Mensagem construiu-se com uma abordagem de proximidade e com tempo — quase o oposto da lógica das redações tradicionais. Num ecossistema marcado por algoritmos, como se mantém um projeto que aposta no contrário?
Por um lado, é mais fácil porque tem menos custos, não precisa de tanta gente. Por outro, tem o problema do reach (alcance). A maior parte das notícias que os jornais publicam servem para chegar a mais pessoas. Como fazemos? Criamos projetos com a cidade, com a Gulbenkian, com o Porto de Lisboa, com a Sagres. Não fazemos propriamente publicidade; encaramos os nossos parceiros como tal. Somos um parceiro que produz jornalismo, conteúdos de qualidade e verificados.
Produzimos também peças culturais, pensamento sobre a cidade e espetáculos de teatro com histórias verdadeiras. Financiamo-nos ainda com bolsas e com os leitores que pagam para serem membros. Nunca fizemos nenhum apelo lancinante. É assim que conseguimos fazer jornalismo sem ser baseado em cliques: com projetos e eventos.

“[Lisboa] está cada vez menos com vontade de gostar de si própria”
O formato procura refletir a diversidade de Lisboa. Que desafios encontram ao tentar retratar essas múltiplas “Lisboas” de forma fiel?
Não há muitos desafios. O segredo é olhar para as coisas com curiosidade e tentar encontrar as histórias que ninguém vê. Quem são as nossas fontes? Toda a gente. Qual é a nossa principal forma de atuar? A curiosidade. Vamos avançando, andando na rua, vendo os grupos de vizinhos, falando nos cafés. O desafio é a procura: como encontrar estas histórias onde não se vê um “fio de meada” óbvio. É olhar para as comunidades não como algo esquisito, mas como partes iguais às outras que acompanham Lisboa. Somos todos iguais perante a cidade.
Olhando para o futuro, qual é a visão da Mensagem de Lisboa para os próximos anos?
A ideia fundamental é não nos deslocarmos daquilo que fazemos com as pessoas, sendo que é sempre difícil em Portugal trabalhar com o público. As pessoas não são muito ativas civicamente; não temos aquela cultura dos nórdicos de querer participar em reuniões de bairro. Vamos às reuniões da Câmara ou da Junta e não está lá ninguém. Lisboa não tem esse espírito cívico e está cada vez menos localista, menos com vontade de gostar de si própria.
Este desafio de pôr Lisboa a gostar de si própria também é nosso; é o desafio de fazer as pessoas sentirem-se enraizadas na cidade onde vivem. O futuro da Mensagem é esse: trabalhar cada vez mais para mostrar a cidade como ela é. Mostrar as várias comunidades e as pessoas que não fazem parte de comunidade nenhuma. Mostrar o trabalho das “formiguinhas” que levam a cidade às costas e contar essa história que muito pouca gente conta.





