Presidente da Câmara Municipal de Alcoutim, Paulo Paulino, 54 anos, foi recentemente reeleito. Em entrevista, o autarca reflete sobre a sua juventude, os desafios e oportunidades que o concelho do nordeste algarvio oferece e a recente campanha autárquica que culminou na maioria absoluta.
É presidente de uma autarquia, mas durante a juventude passou pelo seminário de Beja. Foi no seminário onde ganhou o gosto pela Política?
Penso que não. Estou na política por gostar de ajudar, de estar com as pessoas e pelo facto de perceber muito bem o concelho. Nasci no Monte do Vascão, uma pequena povoação que hoje fica a oito quilómetros de Alcoutim, mas que à data ficava a 30 quilómetros. Para chegarmos à vila, tínhamos de entrar num autocarro às seis da manhã para conseguirmos chegar à escola às oito e meia. Por uma questão de conforto por parte dos meus pais, colocaram-me num seminário. Não foi por uma questão de vocação religiosa. Este gosto [pela política] fui adquirindo por viver num concelho envelhecido, em que percebi a necessidade que as pessoas tinham de ser ajudadas nas pequenas coisas. A questão da desertificação, que é uma realidade, e todos os pormenores, foram adoçando em mim este desejo e vontade de poder participar positivamente para o bem-estar da população.
Referiu no discurso do jantar da campanha autárquica, realizado em Martin Longo, que um dos motivos pelo qual está nesta função foi muito por influência do irmão. Quão importante foi o contributo da família, de modo a conseguir chegar a autarca?
A família, em tudo na vida, tem uma influência enorme. O meu irmão, que teve sempre um gosto muito grande pela política, sempre achou que eu tinha jeito. Durante muitos anos, dizia-me “Paulo, tens de te dedicar à política, tens capacidade e conseguirias ser uma mais-valia para Alcoutim”. Se ele cá estivesse, estaria muito feliz. Tínhamos uma enorme proximidade, porque no Monte do Vascão, da minha geração só existiam quatro pessoas. Ouvia-o da mesma forma que ele também me ouvia. Isso ficou-me na memória e é também por ele que cá estou.
“As campanhas eleitorais são completamente distintas de outros territórios”
Apesar de governar a autarquia desde 2024, a campanha autárquica de 2025 “Sempre com as Pessoas” foi a primeira em que participou como candidato. Quais foram os principais desafios que enfrentou para chegar às faixas etárias do concelho no decorrer da campanha?
As campanhas eleitorais num território como o nosso são completamente distintas de outros territórios. As pessoas privilegiam muito o contato pessoal, passarmos casa a casa, falar de pessoa para pessoa. Durante as nossas campanhas, fazemos isto duas vezes. Uma em pré-campanha e outra em campanha. Percorremos todas as casas do concelho, batemos a todas as portas e tentámos falar com todos, de modo a procurar soluções para os desafios da nossa população. Esta proximidade é obrigatória para que as pessoas sintam realmente a nossa confiança e a nossa preocupação.
Venceu as eleições autárquicas com 56,5% dos votos, conseguindo uma maioria absoluta. Que disparidades considera terem sido fundamentais, para o sucesso da campanha “Sempre com as Pessoas”, relativamente às campanhas adversárias?
As pessoas votaram na confiança, na garantia, o não trocar o certo pelo incerto. O facto de me conhecerem, bem como o restante executivo e todos os candidatos que compõem as nossas listas contribuiu para que o resultado fosse este.
Tendo em conta a experiência, tanto como vice-presidente, cargo que desempenhou entre 2013 e maio de 2024, bem como autarca, quais considera terem sido os maiores feitos do Partido Socialista desde que governa o concelho?
O Partido Socialista tem tido uma enorme preocupação com as pessoas e em sabermos que existem muitos habitantes com idade avançada, cujas famílias estão por outras partes do país ou do mundo. A nossa preocupação é fazer com que estas pessoas nunca se sintam sós. Aconteça o que acontecer, que a Câmara Municipal esteja sempre a tentar ajudar no que for possível. É o que quero continuar a fazer.
Uma das medidas que pretende aplicar para colmatar a desertificação do concelho é trazer emigrantes provenientes dos PALOP, para Alcoutim, através do ensino profissional. Tendo em conta, que cada vez mais o tema sobre o país fechar as portas a imigrantes está presente no Parlamento, terá dificuldades para aplicar esta medida?
Por essa via, julgo que não irá acontecer. Estamos a falar de países de Língua Oficial Portuguesa, com os quais Portugal sempre teve relações bastante estreitas. Para além da questão de tentar utilizar o ensino para conseguir cativar população, não se trata apenas de população estrangeira. Queremos também atrair a população nacional, porque em termos de oferta formativa, alguém que conclua o secundário, num curso profissional na área da proteção civil e tenha acesso direto ao cargo de bombeiro, poderia ser realmente uma oportunidade. A nível de energias renováveis, aí acredito que seríamos inovadores, porque teríamos a primeira escola onde isto iria acontecer e iríamos cativar pessoas de concelhos mais afastados da região.

“São cada vez mais os que privilegiam o sossego”
Hoje o interior já é apelativo para algumas famílias se fixarem. Podemos vir a observar um maior interesse pelo interior do Algarve?
Diria que sim. Mais de 60% da nossa população consegue ter acesso a fibra ótica. Estar em Alcoutim ou no centro de qualquer capital europeia, em termos de possibilidade de comunicação, é exatamente igual. São cada vez mais os que privilegiam o sossego, o silêncio e as relações de maior proximidade. Daí a nossa grande aposta e preocupação, na melhoria de distribuição de sinal de fibra. Estamos a desenvolver um projeto chamado “fibra rural”, que irá abranger cerca de duas mil casas no Concelho de Alcoutim. Acredito que conseguiremos garantir que 90% das casas do Concelho terão possibilidade de estarem conectadas à fibra. Outro aspeto é que, quando se pensa que o concelho de Alcoutim fica completamente no interior, engana-se. Estamos a 80 quilómetros do aeroporto de Faro, um trajeto que se faz em menos de uma hora, bem como a 1h30 do aeroporto de Sevilha e a 2h40 do aeroporto de Lisboa. Desde que exista conforto e que existam as armas que as pessoas necessitam para poder viver, embora afastadas dos centros urbanos, tudo isso conseguimos garantir.
Quais são as principais vantagens que o concelho de Alcoutim oferece, comparativamente a uma cidade capital de distrito?
Tentamos oferecer tudo aquilo que existe numa capital de distrito. A nível cultural, está a ser inaugurada uma exposição na biblioteca Carlos Brito de obras de arte feitas em pedra. A venda de Alcoutim, no primeiro andar, também tem exposições relacionadas com a nossa região. Todos os meses, temos atividades culturais no espaço Guadiana, como teatro, música e cinema. Durante o verão, proporcionamos uma série de eventos por todas as aldeias e montes do concelho de Alcoutim. Em termos de programa cultural, temos uma oferta vasta e em número suficiente para a procura. Temos uma praia fluvial, que substitui muito a agitação, que se verifica no litoral algarvio. Temos as paisagens do Rio Guadiana e de toda a serra interior, que percorre todos os 576 quilómetros de área do concelho de Alcoutim. Posso referir também, a qualidade das nossas estradas. Existem algumas curvas, já que não conseguimos vencer a orografia, mas fazemos tudo para que o piso seja ótimo e que seja fácil de circular. Às vezes, a dificuldade é passar pelos outros concelhos [risos].
O Algarve é amplamente conhecido pelo turismo. Receia que o turismo desenfreado que vemos no litoral descaracterize Alcoutim?
Acredito que não corremos esse risco, até por uma questão de oferta. Temos alguns espaços hoteleiros, mas dificilmente conseguiremos chegar ao turismo de massas. Quem procura Alcoutim, procura para descansar, estar tranquilo, desfrutar da paisagem, dos cheiros e da gastronomia. Quem vai à procura da confusão, procura-a quando vai para Albufeira.
Daqui a 10 anos, que marca espera que o seu mandato tenha deixado na vila de Alcoutim?
O que mais quero é não desiludir os alcoutenejos, as pessoas que votaram em mim e que têm estado comigo neste desafio. Farei o trabalho da melhor forma possível, com sinceridade, dentro das minhas capacidades e medidas que estão ao meu dispor, de modo a ajudar sempre as pessoas. Fazer com que se viva cada vez mais e melhor em Alcoutim e, sobretudo, que daqui a dez anos, se possa dizer “estamos realmente melhor do que estávamos anteriormente.”









