Aviso ao leitor: esta entrevista é para ser lida ao som de uma balada de Toy. Porque, tal como Pôr do Sol — a série que virou fenómeno —, esta conversa com Manuel Pureza tem melodrama, humor, reflexões inesperadas e até violinistas notívagos. Entre bonecos de esponja, sátiras políticas e histórias pequeninas que dizem tudo sobre o mundo, o realizador revela como o riso se tornou a sua maior arma e o amor o seu novo punk.
Se esta entrevista fosse um episódio de Pôr do Sol, começaria com a pergunta mais cliché para não fugir ao clima da série. Como surgiu a paixão pela produção cinematográfica?
Se isto fosse um episódio do Pôr do Sol respondia: porque a minha família tem muitos cavalos e preciso de alimentá-los [risos]. Passei a infância entre Lisboa e Coimbra, e foi no Secundário, numa oficina de expressão dramática, que uma professora me abriu a porta à teoria do teatro e ao fascínio de contar histórias. A paixão por contar histórias era muito tentadora e tornou-se fascinante. O cinema sempre fez parte de mim, desde as idas à sala até às conversas depois dos filmes. É a mesma relação que tenho com os livros. A escrita também esteve sempre presente, muito por influência da minha avó, que era poetisa. Nunca fui argumentista, mas sinto que escrevo com imagens. Aquilo que me apaixona é o que faço: esta coisa encantatória de imortalizar uma história.
Em que altura percebeu que o humor não era só uma ferramenta, mas um dos seus superpoderes, daqueles capazes de tornar a passagem do tempo menos penosa?
Fui pequenino e magrinho até aos meus 15/16 anos. O humor serviu-me para desarmar murros. Nunca levei pancada porque tinha mais graça do que os bullies. Lembro-me até de evitar que me roubassem um diábolo com uma piada que deixou os meus colegas a rir do outro rapaz. Os fascistas que hoje ocupam o nosso Parlamento ficam desnorteados sempre que alguém faz uma piada sobre eles. É a forma mais eficaz de combater o fascismo atualmente: desmontá-los com humor, porque são ridículos.
Quando começa um novo projeto, onde vai buscar inspiração? Aos filmes do Fellini, às novelas “cheias de ideias macacas” ou às suas memórias de infância?
Quero ser inspirado e provocado. Não quero perder tempo. Quero criar algo útil e prazeroso, que me realize e transforme… Algo ‘perigoso’. Inspiro-me nos meus filhos e amigos, na política, no país, nos meus valores, história e memória. Interessa-me a vida pequena. Na minha primeira série Até Que a Vida nos Separe, explorei o amor de três gerações: o dos avós, eterno; o do casal principal, que terminava sem grandes justificativas; e o dos filhos, estranho. Inspira-me contar essas histórias pequenas, cheias de graça, sobre a vida que se vai desenrolando.
“Se uma piada for de mau gosto, morrerá sozinha”
Criar humor é um jogo de equipa. Como é que funciona o processo de criação consigo, com os argumentistas, atores… e às vezes com os bonecos de esponja?
No caso específico da equipa do Pôr do Sol, que também foi a mesma equipa que fez o FELP, em termos de humor, eu, o Henrique Dias e o Rui Melo temos a parte mais criativa. Reunimos e mandamos ideias para a fogueira e, aquelas que colarem, ficam reservadas. Depois, o Henrique constrói uma hipótese de enredo. Eu e o Rui vamos sempre opinando sobre aquilo que ele escreve, aprimorando em conjunto, até ficarmos com uma coisa que nos divirta. O que nos define como equipa é que sabemos fazer humor, sem pedantismo nem presunção. É algo que nos deixa à vontade. Se calhar, queremos subir um grau em relação à complexidade das ideias, manter o humor, mas falarmos sobre outras coisas dentro dele. Desafiarmo-nos, isso é importante.
O seu trabalho expõe os “ridículos e contradições do mundo”, como disse no podcast A Beleza das Pequenas Coisas. De onde vem essa vontade, não de meter o dedo na ferida para magoar, mas sim para fazer cócegas?
O olhar dos jovens é fundamental. Expor o ridículo é expor o risível e participar na sociedade. É inconcebível que, com 41 anos, três filhos, alguns filmes e séries feitos e algum reconhecimento, me acomode no conforto de “já fiz a minha cena”. O que importa é que os jovens sejam ouvidos e possam mostrar que Portugal querem. Também procuro contribuir para a fruição. Em Pôr do Sol vimos algo interessante: o discurso político apropriou-se dos Bourbon de Linhaça para falar dos lucros dos grandes grupos. Transformámos isso, com competência e exigência, numa graça que pode servir de exemplo sério. É assim que escolho participar. Em FELP, os bonecos repetem várias vezes o discurso: “se querem ser bonecos, vão lá para a vossa terra”. É o tipo de retórica do Chega dirigido às minorias étnicas que vêm trabalhar cá. Ouvimos este tipo de comentários racistas e xenófobos nas ruas e não promovem nada positivo. Portugal precisa de voltar a confiar nas pessoas.

Uma boa piada exige reflexão
Em Portugal ainda nos rimos pouco de nós próprios. O humor português tem identidade própria? Ou ainda vivemos naquela fase em que se ofende antes de se conseguir rir?
Somos o típico país à portuguesa que diz que somos muito engraçados, recebemos muito bem e temos muito sentido humor, mas odiamos quando fazem uma piada sobre nós. Ficamos na merda. O humor e a inteligência andam de mão dada. Portugal é um país com muito pouca educação. Não se veem filmes, não vão ao teatro, não leem livros. O limite do humor é a lei. Podemos sentir-nos ofendidos mas, se uma piada for de mau gosto, morrerá sozinha.
As suas séries mostram que é possível falar de temas sérios através do absurdo. Como encontra o equilíbrio entre provocar o riso e provocar reflexão?
Para uma graça funcionar, exige reflexão. Não se trata apenas de quedas fáceis e, embora não pense ativamente em “fazer o público refletir”, o humor que faço não é superficial. Quando construo uma cena, como a da Maria da Piedade a dizer “Senhor José, os seus homens estão lá fora a fazer uma grande revolução, parece o 25 de Abril, mas sem patilhas”, estou também a comentar a visão privilegiada dos Bourbon de Linhaça. Mesmo no humor, pensamos sempre no que queremos dizer e, se formos honestos e rigorosos, a reflexão acaba por surgir inevitavelmente.
Há alguma cena ou episódio cuja criação tenha sido particularmente divertida ou imprevisível?
Fiz a série Sempre sobre o 25 de Abril, um tema que me é muito querido e sempre muito celebrado na minha família. Cresci com uma visão da Revolução mais civil do que militar, o que reforçou o meu interesse em contá-la através das pessoas comuns. A preparação da série foi marcante, porque aprendi imenso ao ouvir estudantes, trabalhadores e tantos protagonistas anónimos desse período. É óbvio que há mil cenas de Pôr do Sol que me divertiram imenso. Desde a Sofia Sá da Bandeira a comer melancia e beber vinho a cair para o lado e depois vem a Gabriela e cai por cima dela. Nunca chorei tanto a rir como a fazer essa cena. Com os concertos do Jesus Quisto estava nas nuvens. Mas diria que a preparação toda de Sempre foi das coisas mais importantes. Fazer Pôr do Sol naturalmente foi aquilo que mudou a minha vida para sempre e estou infinitamente grato, mas já chega.
Entre atores, bonecos e ideias disparatadas, o improviso acontece muito? Alguma vez uma cena ficou melhor precisamente porque fugiu do plano?
Acredito muito no poder dos atores para transformar uma cena. Defendo atores que conhecem bem a história, as referências e as intenções do realizador. Quando estão verdadeiramente envolvidos, conseguem aproveitar tudo o que a cena lhes oferece.
Depois de novelas, paródias épicas e esponjas existenciais… o que falta fazer?
Quero fazer muita coisa, desde escrever um livro de ficção científica, até desenvolver novos projetos de ficção para o próximo ano. O essencial é não parar e manter a criação ligada às urgências do nosso tempo, sobretudo nesta onda de ódio que atravessamos. Continuo a acreditar que “o amor é o novo punk” e quero levantar essas bandeiras através das séries, do teatro e dos livros.
No filme 8½, Fellini transforma as mulheres da vida do realizador Guido na bússola do seu caminho criativo. Se a sua vida também tivesse um momento 8½, quais seriam as oito personagens fictícias que definiram o Manuel Pureza criador?
Uma tinha de ser uma criança inquieta, porque seria a convergência dos meus três filhos e de mim próprio. Um cão, não só pelo meu, mas também porque sou bastante fiel aos meus amigos, às minhas ideias e aos meus princípios. Um domador de leões como metáfora do meu papel de gerir os atores criativos: ao mesmo tempo que os ‘amanso’, também cuido deles com carinho e atenção. O Ratatouille, porque adoro cozinhar. É quase tão terapêutico quanto ser realizador, mas, ao contrário de um trabalho de equipa, na cozinha dependo apenas de mim, do meu palato e da minha sensibilidade. Um violinista que toque nos telhados à noite. Construo os meus projetos a partir da música e o violino traz essa melancolia cinematográfica que tanto me inspira. Uma mulher com grandes mamas. Não é só desejo pelo feminino; é sobre mães. Ser pai e ter uma mãe incrível ao meu lado inspira-me. As figuras maternas influenciam muito o meu cinema. A Alice no País das Maravilhas porque lido mal com o tempo e vivo ansioso para não o perder. Sinto-me em queda livre, tentando encontrar a justiça, mas sem medo de cair. Podia haver alguém com uma venda nos olhos, simbolizando a Justiça. As injustiças irritam-me e não consigo assistir a nenhuma sem agir. Os meus traços de personalidade poderiam resumir-se a estas oito figuras.






