Conhecido como Cifrão, Vítor Fonseca é uma das figuras mais influentes da dança urbana em Portugal. Bailarino, coreógrafo, ator e mentor, construiu um percurso que atravessa gerações — dos Morangos com Açúcar aos D’ZRT, da direção artística em televisão à formação de novos talentos. Nesta entrevista, conduzida no acolhedor estúdio do Arcade Dance Center, fala sobre o início inesperado na dança, o impacto dos “Morangos” na cultura urbana e o regresso emocional dos D’ZRT. Um já longo percurso criativo que não abranda.
A sua primeira paixão foi logo o hip-hop ou chegou a explorar outros estilos antes de perceber qual era o seu?
Sim, a minha primeira paixão foi logo o hip-hop. Lembro-me de ver um grupo a dançar e sentir imediatamente que aquilo era eu. Antes de começar a dançar, era guarda-redes, mundos completamente afastados. Pensava muito nisso: que queria fazer aquilo. Saía muito com os meus amigos, todos mais velhos. Íamos para discotecas e eu tinha vergonha de ir para a pista porque não sabia dançar. Isso levou-me a querer desenvolver as minhas capacidades para me divertir. A partir do hip-hop comecei a desenvolver o meu gosto por outras artes e áreas da dança, mas o início foi mesmo nas danças de rua.
Como surgiu a representação e a oportunidade de entrar nos Morangos com Açúcar? Foi algo que procurou conscientemente ou aconteceu de forma inesperada?
Foi consciente. Dois ou três anos depois de começar a dançar, integrei um grupo chamado Hexa e fazíamos muitos espetáculos de uma hora. Sempre adorei estudar e ao introduzir partes de acting nas performances senti que precisava de aprender mais. Comecei formação em teatro e aproximei-me da representação. Ao mesmo tempo, inscrevi-me no Conservatório de Música D. Dinis para estudar música. Depois fui para Londres fazer formação intensiva em todas as escolas de danças de rua, enquanto trabalhava. Quando voltei, trabalhei com um grande grupo de dança comercial e surgiu o casting dos Morangos. Inicialmente era só para representação, mas a Celine, que estava a recrutar, viu no meu currículo que tinha canto e dança. Fiz uma coreografia minha e depois cantei “Amazing Grace” e uma parte de “Os Loucos de Lisboa”. Fui escolhido não só como ator, mas também para integrar a banda D’ZRT. A partir daí, a minha vida mudou.

“Vivíamos [D’ZRT] numa bolha”
Os Morangos com Açúcar e os D’ZRT marcaram uma geração. Quando olha para trás, que memórias o marcam mais desse tempo?
O que me marca mais são as amizades que criámos. Passávamos 12 horas em estúdio e depois saía com o grupo dos D’ZRT para concertos. Tivemos um ano com 130 concertos — de três em três dias havia espetáculo. Eram muitas horas de gravações, viagem, concerto de hora e meia ou duas, e viagem de volta. Vivíamos numa bolha. Muitas vezes dormíamos na carrinha e chegávamos ao estúdio às seis da manhã para começar a gravar às oito. Os hotéis eram só para tomar banho e sair. Gravávamos em Tróia, íamos ao Porto, voltávamos, depois Algarve, Braga, Alentejo… Mas foram tempos muito porreiros, criámos uma ligação enorme. Essa é a melhor recordação que tenho dos Morangos.
Em 2010, atuou no Rock in Rio com os D’ZRT, num palco que simboliza a união entre arte e energia. Acredita que esse momento ajudou a mudar a forma como Portugal olha para a dança?
Mais do que o Rock in Rio, foram os Morangos que ajudaram a evolução das danças de rua em Portugal, porque lhes deram um palco diário. Os miúdos apaixonavam-se pela dança ao ver a série. Muita gente diz que começou a dançar por causa disso. Sempre tentei respeitar o que fazíamos nas danças de rua — locking, popping, breaking — e apresentar esses estilos na série de forma estruturada. Isso envolveu o público e motivou muita gente a querer aprender. O Rock in Rio também foi importante, porque foi a primeira vez que aparecemos na SIC. Estávamos muito ligados à TVI, e apresentar os D’ZRT a um público diferente foi um momento de viragem.
Os D’ZRT afastaram-se durante mais de 10 anos e viveram a perda trágica de Angélico Vieira. Em 2023, regressaram com concertos esgotados. Esse reencontro foi um tributo, um fecho de ciclo ou um novo começo?
Começou por ser um tributo e uma recordação. Tínhamos muita vontade de voltar a palco juntos. Eu continuei sempre em palco, mas não com aquele projeto. Já tínhamos saudades dessa união. Transformou-se numa coisa megalómana que não esperávamos. Na primeira vez em que subimos ao palco, fizemos três músicas seguidas e recebemos uma ovação de cinco minutos. Deixámos tudo ali. Sentimos que as pessoas também tinham saudades nossas. O caminho é esse: regressar de forma sustentada e bonita, fazendo aquilo que gostamos.

@dzrtoficial D’zrt em Coimbra #dzrt2024
“Quero que a dança evolua. Sinto essa responsabilidade”
Criou a Online Dance Company (2016) e a Arcade Dance Center (2020). O que o motivou a tornar-se também mentor e empreendedor?
Quero que a dança evolua. Sinto essa responsabilidade. A dança deu-me tudo o que tenho: representação, os “Morangos”, os D’ZRT. Devo muito à dança em Portugal. Quero fazer tudo o que puder para evoluir a dança e torná-la um emprego estável para bailarinos, com formação de qualidade, algo que eu não tive enquanto miúdo. E quando digo “eu”, digo também o Vasco e a Noua, que são os meus sócios na Arcade. A Online Dance Company foi uma apresentação dos melhores bailarinos do país no mesmo palco. Temos alguns dos melhores do mundo e muitas vezes o público não tem noção disso. Foi a minha tentativa de mostrar o talento que temos. Com o tempo, quero continuar a deixar a dança cada vez melhor.
Participou em programas como Dança com as Estrelas e A Tua Cara Não Me É Estranha. O que o desafia mais: surpreender o público ou inspirar os artistas que coreografa?
O mais difícil é surpreender o público. Já estou muito por trás das câmaras a coreografar programas e galas, e também a fazer direção artística. O importante é evoluir sempre, mostrar coisas diferentes. Motivar coreógrafos é difícil porque esta profissão é muito exigente. O pagamento e a quantidade de trabalho às vezes não são incríveis. Trabalhar com o corpo é cansativo. Não nasces a saber dançar. É preciso trabalhar muito e passar horas no estúdio. Tens de ser muito automotivado para aguentar. Mas viver das artes é incrível: acordas todos os dias para fazer aquilo que gostas, mesmo quando dói!

“O segredo é perceber que tudo tem solução”
Vive e cria ao lado de Noua Wong, também artista e coreógrafa. Como é partilhar o trabalho e a vida com alguém que compreende o mesmo universo?
Ter a mesma profissão e os mesmos amigos da área ajuda-nos a compreender o que estamos a fazer. Respeitamos muito o trabalho um do outro. Definimos regras: há projetos que ela lidera e eu ajudo; noutros lidero eu. A palavra final é sempre de quem está a liderar o projeto. Respeitamos isto religiosamente. É fácil trabalhar com a Noua. Ela é muito melhor do que eu em muitas coisas, e isso ajuda muito. Compensamos os pontos fracos um do outro. Ainda bem que ela partilha a minha área, torna tudo muito mais simples.
A arte exige entrega constante. Como cuida da sua saúde emocional para continuar a dar tanto aos outros? Nasci a resolver problemas. Sou uma pessoa calma e consigo reagir bem em situações de stress. O segredo é perceber que tudo tem solução. Posso não encontrá-la no momento, mas encontro mais tarde. Se desvalorizarmos os problemas e pensarmos nas soluções com calma, conseguimos resolver tudo. Em televisão ou em palco é assim: tens de manter a calma e procurar a melhor solução. E, se errares, tens de saber lidar com isso. Respirar fundo e perceber que tudo tem solução. É assim que mantenho a cabeça no lugar.
Depois de tantos palcos, projetos e sucessos, o que é que ainda o move? O que me move é exatamente o mesmo que me movia quando comecei: a vontade de aprender e de evoluir. Quero continuar a crescer e a perceber até onde posso levar a dança e todas as outras áreas que fazem parte da minha vida. Enquanto sentir que posso contribuir para deixar a dança e a arte num lugar melhor, vou continuar a fazê-lo.





