Depois de surpreender o país com a participação na flotilha humanitária que levava ajuda para Gaza, a antiga modelo e atriz conta ao UALMedia como foi a sua experiência durante esta missão.
A sua participação na flotilha humanitária causou uma certa surpresa e até alguma estranheza. Como surgiu o convite e a decisão de participar nesta missão?
Colaboro com várias organizações humanitárias há muitos anos, acho que fui contactada por causa disso. Silêncio é cumplicidade e não quero ser cúmplice de um genocídio. Como os nossos governantes não cumprem com a sua obrigação, que à luz do Direito Internacional seria fazer tudo o que está ao seu alcance para acabar com o genocídio, este ou outro qualquer, temos de ser nós, cidadãos comuns, a agir.
A Sofia foi a modelo portuguesa mais icónica dos anos 90 do século passado e é também uma das atrizes mais conhecidas no país. Sentiu que tinha uma responsabilidade acrescida por ser uma figura pública?
Se não fosse figura pública, faria o mesmo tipo de trabalho humanitário que já faço. Sinto que tenho uma responsabilidade social acrescida, porque se tenho um público posso, de alguma forma, sensibilizar as pessoas e humanizar certas causas. Não devia ser preciso humanizar ninguém, mas o facto de ter a tal audiência diversificada ajuda.
A operação da Flotilha Global Sumud começou no dia 31 de agosto de 2025, composta por 50 embarcações e ativistas de mais de 40 países. A missão passava por levar ajuda para a Palestina, como alimentos, medicamentos e acabar com o cerco de Israel a Gaza. Era este o vosso objetivo?
Era. As flotilhas humanitárias estão inseridas num movimento internacional de solidariedade para com o povo palestiniano. O cerco que Israel impõe a Gaza é ilegal à luz do Direito Internacional. Estávamos conscientes da dificuldade da missão. Até ao dia anterior a sermos intercetados, tive esperança que conseguíssemos, porque estamos a fazer diariamente tudo para cumprir com o nosso objetivo. Cria-se uma atmosfera de esperança dentro dos barcos. Não conseguimos o nosso objetivo, mas não vejo isto como uma derrota total. No dia em que fomos intercetados, os palestinianos conseguiram pescar, tiveram um alimento que já não tinham há muito tempo e esta missão conseguiu fazer mobilizações massivas pelo mundo.

“Não se abandonam pessoas, não podemos abandonar o povo palestiniano”
Referiu que sentiam esperança. É desta forma que descreve o ambiente a bordo?
Um ambiente de esperança, dedicação, humanismo, vontade. O trabalho que fazíamos em prol da causa palestiniana era diário, tínhamos de mobilizar as pessoas. A nossa missão estava protegida pela lei internacional, mas os estados não fizeram nada, nem para nos proteger nem para garantir o sucesso da missão. Não se abandonam pessoas, não podemos abandonar o povo palestiniano.
Dias antes de serem intercetados pelas forças israelitas, a 1 de outubro, foram alvo de vários ataques. Isso levou a uma alteração no vosso estado de espírito?
Só posso responder por mim. Todos, enquanto indivíduos, reagimos de maneira diferente a esses ataques. Quando estou em situações de muito stress, fico extraordinariamente calma. Quando havia ataques, os dias seguintes eram muito mais stressantes. Tínhamos protocolos de segurança muito específicos e o facto de teres de pôr em ação protocolos que já experimentaste, a mim faz-me focar naquilo e não me deixa levar pelas emoções. Se isso de alguma forma nos demoveu do nosso objetivo? Não. Muda o nosso estado de espírito, mas para mais determinação. A nossa missão sofreu ataques desde o princípio, numa tentativa de nos aterrorizar, porque é isso que eles fazem: aterrorizam pessoas.
O que sentiu no momento em que foram abordados pelas forças israelitas?
É difícil responder. É muito assustador ver homens armados da cabeça aos pés, com armas apontadas a nós, a sequestrarem-nos. As emoções eram tantas, entre a perplexidade por aquilo estar a acontecer e pelo resto do mundo deixar que aquilo aconteça. Sequestraram ajuda humanitária. Isto é crime à luz do Direito Internacional. Ser vítima de um crime não te deixa humilhada, porque tenho muito orgulho no que fiz, mas deixa uma tristeza profunda pelo estado do mundo. Eles [os israelitas] realmente acham que estão a fazer certo. Não consideram os palestinianos pessoas e isso é muito assustador.

“A luta do povo palestiniano é uma luta pela humanidade e dignidade”
Esteve detida durante três dias. Em entrevista ao programa Dois às 10, da TVI, contou que temeu pela sua vida. O que a impressionou mais durante esse período?
A frieza, maldade e crueldade dos guardas da prisão. Fiquei com a sensação de que eles não sentem como nós. Impressionou-me uma ativista velhinha que tinha a perna partida e uma guarda mandou-lhe a porta da cela contra a perna. As portas da nossa cela eram de ferro, muito largas e pesadas. Dei um grito, nem me lembro se a senhora gritou ou não, mas isto é de uma violência e desumanidade. Tudo o que passámos não é nada comparado com o que os palestinianos passam nas prisões israelitas. Aquilo que está a acontecer na Palestina transmite-nos a mensagem de que há pessoas e estados que estão acima da lei. É muito perigoso se Israel sair impune, porque abre um precedente global que corrói a arquitetura dos direitos humanos. A luta do povo palestiniano é uma luta pela humanidade e dignidade. A impunidade é uma coisa que me revolta muitíssimo.
Durante a sua detenção, pensou, em algum momento, que não deveria ter embarcado nesta missão?
Não. Prejudicou-me bastante a vida, perdi trabalho, mas nunca me arrependi. Nunca achei que não devia ter ido, mesmo quando estava presa.
Que impacto é que esta detenção teve na sua vida? Teve dificuldade em voltar à vida normal depois do ocorrido?
Nunca tinha tido uma noção tão grande do privilégio que tenho, de ter uma casa para onde voltar. Os palestinianos não têm. Venho uma mulher diferente, os pesadelos já passaram, mas a minha maneira de olhar para as coisas está diferente. Já relativizava antes, agora relativizo mesmo muitas coisas. Não temos noção do nosso privilégio. À maior parte das pessoas nem lhes passa pela cabeça que podem perder esses privilégios de um dia para o outro.
A participação na flotilha humanitária gerou muitas críticas, tal como os objetivos e a necessidade da própria missão. Como lida com todos esses comentários negativos?
As críticas baseadas em mentiras são-me um bocado indiferentes. Tenho pena que as pessoas tenham medo de saber a verdade e que não tenham uma abertura suficientemente alargada de pensamento. Se as críticas fossem baseadas em verdades, se calhar era mais difícil lidar com elas. O barco não tinha álcool nem drogas, não parámos em Ibiza para festas, não estávamos em festas todos os dias. Estávamos a trabalhar diariamente. As críticas dos nossos governantes foram mais graves porque, de alguma forma, puseram em risco a nossa integridade física.
“A parte da flotilha fez-me recuperar alguma esperança na humanidade”
Disse em entrevista à CNN Portugal que esperava que o acordo de cessar-fogo fosse o início de paz duradoura. Este acordo já foi violado várias vezes. Ainda acredita que possa ser o começo de uma paz duradoura?
Não. Disse isso porque temos sempre de ter esperança. Aquilo não é um acordo de paz. Foi redigido entre o Estado agressor e os seus amiguinhos. Aquilo é um acordo de ocupação. Só vai haver paz duradoura quando o povo palestiniano tiver direito à sua autodeterminação, a viver num território soberano, livres de colonização, opressão e limpeza étnica. A paz constrói-se com base na justiça e liberdade, e não na base da opressão. Israel nunca cumpriu nenhum cessar-fogo, portanto era previsível que não cumprisse este. O povo palestiniano é uma lição e inspiração para todos nós pela sua resiliência, resistência e força. Eles têm mais esperança do que eu. A esperança tem de ser uma força ativadora para fazermos alguma coisa. Tento não perder a esperança, mas às vezes é difícil.
Participar nesta missão alterou a forma como vê o mundo?
De alguma forma, sim, para melhor. Conheci pessoas incríveis que estavam ali para o bem comum, pela defesa dos direitos humanos e tinham uma força incrível, cada uma à sua maneira. Isso restaurou-me um pouco a esperança na humanidade. Depois, na prisão, perdi-a um bocadinho. A parte da flotilha fez-me recuperar alguma esperança na humanidade.
Após refletir sobre tudo o que aconteceu, tomava a mesma decisão?
Se voltasse atrás, tomava a mesma decisão. Participar numa flotilha no futuro depende do contexto em que estiver na minha vida pessoal e do contexto geopolítico. Se fizer sentido e for positivo para a causa, claro que sim.







