O ex-jogador internacional Nuno Gomes teve uma vasta carreira futebolística, ao passar pela Seleção Nacional, Boavista, Benfica, Fiorentina, SC Braga e Blackburn Rovers. Licenciado em Gestão do Desporto pela Autónoma, foi comentador no programa O Futebol é o Momento da Sport TV, vice-presidente da Fundação do Futebol e colaborador da FIFA.
O seu passatempo preferido era jogar à bola. Como é que define a sua infância?
Daquilo que me lembro da minha infância, a bola esteve sempre presente. Sou de Amarante, vivi lá até aos meus 14 anos e todo o tempo livre, inclusive os intervalos das aulas no colégio onde andava, era para jogar futebol. Seja durante o dia na escola ou depois quando saía, ao pé de casa, jogava sempre futebol na rua, à porta da igreja e, portanto, era o meu melhor e maior passatempo. A bola foi sempre a minha melhor amiga.
Com 14/15 anos mudou-se para a cidade do Porto, para jogar no Boavista. Como surgiu esse convite?
O convite surgiu um pouco depois de um torneio de sub-13, o chamado torneio Inter-Associações. Fizemos esse torneio, a Associação Futebol do Porto ganhou, fiz parte dessa equipa. Recebi convite do Porto, do Boavista e, nesse primeiro ano, os meus pais não me deixaram ir. Na altura, a distância entre Amarante e o Porto era muito maior do que é hoje, tinha de ir viver sozinho e o meu pai achou que eu era muito novo para dar esse passo e decidimos esperar. Foi passado um ano que o Boavista voltou à carga e aí consegui convencer o meu pai. Estava sempre muito preocupado com a escola mas, ao fim de algum tempo, também através da cumplicidade com a minha mãe, consegui convencê-lo a deixar-me ir. E lá fui para o Boavista.
Utilizou quase sempre o número 21 por algum motivo em especial?
Não houve um motivo em especial, foi simplesmente o chegar à equipa sénior do Boavista, ser jovem, provavelmente o mais novo da equipa. Era muito difícil fazer a transição dos juniores para os seniores num clube como o Boavista, porque já era um patamar profissional. No final do treino, quando o roupeiro andava a apontar o número das camisolas, chegou ao pé de mim com duas ou três, provavelmente as que sobravam, e disse: ‘miúdo, tens de escolher um destes números’. O mais pequeno era o 21. Achei graça e acabei por escolher. Fui ganhando uma afinidade com o número sem especial razão.

“O Benfica não ser campeão é sempre um desaire, um fracasso como época desportiva”
Com o bom desempenho que teve nas épocas do Boavista, é contratado pelo Benfica antes do final da época. Como é que foi conquistar a Taça de Portugal, em 1997, contra o seu futuro clube?
Foi o primeiro troféu a nível sénior, a nível profissional. Foi bom, porque ia para o Benfica na época seguinte, já tinha assinado um pré-contrato. Houve muito falatório nesses dias, porque não era só eu. Houve outro colega que também acabou por ir para o Benfica, que também jogava no Boavista, o Erwin Sánchez, e houve ali muita discussão porque íamos ser jogadores do Benfica e íamos jogar contra, podíamos não ser profissionais e não jogar no nosso melhor. Acabei por marcar um golo e o Erwin Sánchez fez dois, ganhámos 3-2, e fomos nós que marcámos os golos! Por um lado, foi muito bom porque acabei por sair do Boavista com um troféu a nível sénior. Já tinha ganhado um campeonato nacional de juniores pelo Boavista, mas um troféu a nível sénior tem outro significado. Foi uma maneira também de me despedir em beleza de um clube que me deu oportunidade de me tornar jogador de futebol e que fez de mim homem, que me deu todas as condições para desenvolver o meu futebol. Teve muito significado.
Teve oportunidade de se estrear na Liga dos Campeões pelo Benfica, na época de 1998/1999. Como é que recorda a sua primeira participação?
Correu muito bem em termos pessoais, porque fiz alguns golos. Quando crescemos e queremos ser jogadores de futebol, sonhamos jogar nesse palco que é a Champions League, como também sonhamos a nível de seleções participar num Europeu ou numa fase final de um Mundial. Jogar pelo Benfica na Champions League foi dos momentos altos da minha carreira no clube. A minha ida para o Benfica coincide com um momento mais conturbado do clube e se, por um lado, em campo as coisas corriam mais ou menos, não conseguíamos também ser campeões, o que para um clube como o Benfica é sempre um desaire, um fracasso como época desportiva. Por outro, a nível pessoal as coisas estavam-me a correr bem, porque ia fazendo golos e ao avançado, normalmente, pede-se golos. Estava a corresponder às expectativas.
Em 2000, transferiu-se para a Fiorentina, onde esteve duas épocas. Em Itália, encontrou Rui Costa na sua nova equipa. Foi uma ajuda neste novo desafio?
Foi uma das razões para ter decidido aceitar o convite da Fiorentina, porque nesse ano tivemos o Europeu de 2000 em que faço quatro golos e sou uma das revelações. Jogava no Benfica, e alguns clubes queriam contratar-me. Acabo por decidir pela Fiorentina. Foram dos primeiros a conseguir chegar a acordo com o presidente do Benfica, mas também porque estava lá o Rui Costa e conhecia-o de jogarmos juntos na Seleção. Gostava de ter a oportunidade de jogar no estrangeiro e aceitei a proposta, porque financeiramente ia ser melhor, mas também porque o Rui Costa estava lá. Sabia que ia ser uma integração mais fácil, havendo um português na equipa. Ajudou-me imenso com todas as questões dentro e fora do campo.

“Faço a minha estreia no Europeu de 2000 e o primeiro golo é contra Inglaterra, num jogo histórico”
O que o levou a regressar ao Benfica em 2002? Tinha o objetivo de ser campeão nacional em Portugal?
Essa foi uma das razões. Nas primeiras três épocas antes de ir para a Fiorentina não conseguimos ganhar. Sentia-me bem no Benfica, acabei por aceitar ir, fui feliz e gostei dessa experiência. Podia até ter continuado em Itália, mas a vontade de voltar ao Benfica falou mais alto e decidi regressar.
Depois de uma temporada no Braga, vai para o Blackburn Rovers, em 2012. Achou que era um clube interessante para acabar a carreira?
Já tinha 34/35 anos e foi aquela oportunidade. Apesar do Blackburn não estar na Premier League, o futebol inglês já estava a crescer e a desenvolver-se em termos de competição. Foi a vontade de experimentar e de perceber as diferenças do futebol inglês, não só dentro de campo, mas também como os adeptos ingleses vivem os clubes e a própria liga.
Chegou à seleção principal em 1996. Como recorda a sua estreia? E o seu primeiro golo?
Cheguei à Seleção em 1996, mas depois o primeiro golo é só em 2000. Sou transferido para o Benfica e começo a ir com mais assiduidade à Seleção, até que faço a minha estreia no Europeu de 2000 e o primeiro golo é contra Inglaterra, num jogo histórico — ganhámos 3-2 —, e esse golo dá a vitória, após estarmos a perder 2-0, logo aos 20 minutos. Conseguimos uma reviravolta histórica e muito emocionante poder marcar esse golo que deu a vitória contra Inglaterra num grupo que era difícil, com Inglaterra, Alemanha e Roménia.

“O futebol mexe com as emoções das pessoas e consegue unir, muitas vezes, várias áreas da sociedade”
Das várias competições que realizou por Portugal, qual a que foi a mais especial e em qual é que sentiu que podiam ter chegado mais longe?
O Euro 2004, aqui em Portugal. Foi onde chegámos mais longe, ou pelo menos eu, enquanto jogador na Seleção. Depois desse Euro 2000, em que chegámos às meias finais, chegar à final no Euro 2004 foi um upgrade. Devíamos ter ganhado essa final. Essa geração de 2000 e de 2004 merecia ter ganhado um título importante, porque foi o culminar de uma geração de jogadores muito importantes para o futebol português. Em 2006, muitos desses jogadores já não faziam parte. Acabou por ganhar a Grécia que, antes de começar o Europeu, ninguém diria ser a Grécia a ganhar, mas o futebol também é bonito por isso: dentro de campo são 11 contra 11 e, muitas vezes, os melhores não ganham.
Foi vice-presidente do Conselho de Administração da Fundação do Futebol. O que o levou a aceitar esse cargo?
Ajudar pessoas através do futebol. O futebol é uma ferramenta que pode abrir muitas portas, porque praticamente toda a gente gosta. O futebol mexe com as emoções das pessoas e consegue unir várias áreas da sociedade. O propósito da fundação é fazer um trabalho com os clubes e praticamente todos os clubes da primeira e segunda ligas criaram as suas fundações, no sentido de os clubes também não descurarem a responsabilidade social que devem ter perante a comunidade. Decidi aceitar o convite para poder estar mais por perto de todos estes projetos e conseguir alcançar esses objetivos que a fundação se propôs.Foi uma experiência fantástica. Cada vez existe mais essa responsabilidade social dos clubes e isso é um trabalho que tem sido feito pela Fundação do Futebol, ao incentivar os clubes a realizar ações perante a comunidade.
Foi comentador de futebol na Sport TV. Quais são as maiores dificuldades da função?
A minha maneira de ser. Preocupo-me demais com aquilo que as pessoas possam pensar. Estou muito conotado ao Benfica e, muitas vezes, faz alguma confusão às pessoas. Digo o que penso sobre determinadas situações, mas no nosso programa não queriamos dar ênfase a outras situações. Queriamos falar sobre o jogo, o futebol, o dia a dia do campeonato, da Liga, e falámos de forma muito aberta e natural sem conotações a clubes. Não entrámos em polémicas e sei que, muitas vezes, esses programas polémicos têm maior audiência. Mas tínhamos o nosso público-alvo bem definido.
Quais são os seus objetivos para o futuro?
Já não posso dizer ‘quando crescer quero ser isto’, porque já não vou crescer muito mais, mas estou feliz com aquilo que a vida me proporciona e não faço esses objetivos a longo prazo. Vou vivendo o dia a dia, até porque me ocupam bastante e não tenho sequer grande tempo para parar e pensar naquilo que quereria. •






