Co-fundadora da Iniciativa Liberal e atual deputada na Assembleia da República, Angélique da Teresa tem acompanhado de perto o crescimento do partido no panorama político nacional.
Chegamos ao Palácio de São Bento ao início da tarde, depois de um plenário na Assembleia da República. À porta, Angélique da Teresa recebe-nos com um sorriso no rosto e acompanha-nos até ao gabinete da Iniciativa Liberal. Ao longo da conversa, a deputada fala sobre o seu percurso, o papel das mulheres na política, a agressividade nas redes sociais e os desafios que os jovens enfrentam atualmente, sobretudo na habitação e na falta de oportunidades.
Ajudou a fundar a Iniciativa Liberal. O que sentia que faltava na política portuguesa para querer envolver-se nesse projeto?
Ajudei a fundar a Iniciativa Liberal porque faltava um partido liberal em Portugal. Hoje em dia, já todos falam de democracia liberal e a palavra liberal já não é um problema. Mas quando pensámos em fundar um partido liberal, a palavra liberal era quase uma ofensa. Era um bicho-papão. Há quem continue a associar ao liberalismo o fim do Estado e a destruição do Estado Social e da proteção dos mais frágeis, o que não é verdade. Mas, na altura, ainda era muito pior. Sou a favor das liberdades individuais e, portanto, as pessoas muito associadas às liberdades individuais eram coladas à esquerda. Na economia, também sou a favor da liberdade económica, da concorrência e do livre mercado, e isso já era encostado à direita. No fundo, em algumas coisas parecia que era de esquerda e noutras parecia que era de direita. E daí esta dicotomia, porque eu não me sentia tão encostada de um lado nem do outro. Assim, um grupo de pessoas decidiu fundar um partido liberal em Portugal, nomeadamente a Iniciativa Liberal.
Antes de ser deputada, trabalhou muitos anos na área da comunicação e do marketing. Hoje, um político pode ter boas ideias, mas se não comunicar bem nas redes sociais quase parece que não existe. A política tornou-se demasiado dependente da imagem?
Tornou-se muito dependente da imagem e da comunicação. Hoje em dia, é quase 70% comunicação e o resto propostas. E isso é o que torna as coisas muitas vezes difíceis. Temos muito esse debate no dia a dia: há partidos políticos que põem um tema num título altamente fraturante, um título que faz as pessoas dizerem ‘isto tem que ser aprovado’, mas depois aquilo que está dentro da proposta tem muito pouco a ver com o título. Portanto, a comunicação tem um peso cada vez maior na política. E daí a importância de comunicar bem, porque senão o que estamos a fazer é promover a desinformação, que infelizmente existe cada vez mais. Ainda para mais quando o jornalismo passa por inúmeros desafios. Temos redações cada vez mais reduzidas, em que um jornalista escreve sobre várias matérias, há cada vez menos jornalistas especializados numa área e, portanto, é muito difícil hoje em dia fazer verdadeiro jornalismo de investigação. Isso torna o papel da comunicação política muito mais crítico. Acho que muito mais do que alguma vez foi.

Tem acompanhado temas ligados à habitação e à realidade urbana em Lisboa, numa altura em que muitos jovens sentem que ter casa própria se tornou quase impossível. Acha que a política demorou demasiado tempo a perceber a dimensão deste problema?
A habitação é um excelente exemplo de como o assunto foi partidarizado e se tornou quase uma bandeira de ativistas. E os problemas não se resolvem com ativismos. É preciso olhar para eles e ver como é que vamos resolver. O que aconteceu foi que tivemos uma crise muito grande na altura da Troika, em que várias empresas do setor da construção faliram e desapareceram do mercado. Tivemos menos empresas a construir. Para além disso, o mercado de arrendamento continua a ser fortemente legislado e fraturado, onde, apesar de termos muitas casas vazias em Portugal, os proprietários não põem as casas no mercado porque não confiam. Nessa matéria, sempre fomos muito claros: situações de fragilidade económica não devem ser os proprietários privados a financiar. Quem deve garantir o apoio social de pessoas com fragilidade económica tem que ser o Estado. É preciso pôr os devolutos do Estado a funcionar no mercado para as pessoas. É preciso dar garantia tanto para arrendatários como proprietários de que a justiça é célere a resolver problemas entre as duas partes, para que as pessoas não tenham medo de pôr as suas casas no mercado de arrendamento e, com isso, aumentar a oferta. É preciso construir mais. Com mais oferta vamos pressionar o mercado a baixar os preços. Porque agora não é só para jovens que está difícil, é para qualquer pessoa. Um casal de classe média não consegue comprar uma casa neste momento.
“Quanto mais há ataques e descrença, mais me dá força para continuar”
Apesar de haver mais mulheres na vida política do que há alguns anos, muitas continuam a falar de maior pressão e escrutínio público. Na sua experiência, sente que uma mulher na política ainda é avaliada de forma diferente?
Eu sinto um bocadinho isso, começando por nós próprias. Nós somos muito exigentes connosco. Não acho que os meus colegas do sexo masculino sejam tão exigentes quanto nós somos. Estamos sempre preocupadas com o que temos vestido, com o cabelo, se estamos arranjadas ou não. Com eles parece ser tudo muito mais fácil. Mas acho que esse problema também parte de nós. Temos que começar a aligeirar e não ser tão exigentes. Portanto, eu diria que sim, mas cabe-nos a nós destruir esses muros e vincar o nosso papel pelo valor que temos. É muito importante que as mulheres venham para a política, até pelo sentimento de empatia e de ver as coisas de forma diferente. Todos nós temos as nossas vivências e os percursos de vida são muito importantes estarem representados no Parlamento. O papel das mulheres é incontornável. Agora também parte de nós fazer este caminho sem medo e dizer: “Estou aqui e também quero ter essa oportunidade”.
Quem está na esfera pública vive permanentemente exposto a críticas, muitas vezes pessoais. Houve algum momento em que sentiu que o custo pessoal da política estava a pesar mais do que a motivação para continuar?
Nunca. Estou completamente focada e talvez por causa da minha costela de filha de imigrante. Estou focada em tornar Portugal um país ao nível dos melhores europeus. Nada me vai retirar deste caminho. Aliás, às vezes, quanto mais há ataques e descrença, mais me dá força para continuar. Para mim serve como combustível, não como retração. Muito pelo contrário: continuem à vontade que eu sigo em frente.
Quando olha para as jovens mulheres que hoje pensam entrar na política, sente esperança em relação ao futuro ou acha que ainda existem demasiadas barreiras?
Sinto imensa esperança. Como dizia no início da conversa, acho que as barreiras só dependem de nós. A existir, temos que ajudar a derrubá-las. Porque, se estivermos sentados no sofá a queixarmo-nos daquilo que também não fazemos nada para mudar, adianta pouco. Gosto muito de ver a juventude a participar na vida política. Sempre que há iniciativas, no Parlamento dos Jovens, em escolas ou convites que me fazem, eu aceito sempre, só se não puder mesmo. É muito importante transmitir esta mensagem aos jovens: a política, apesar de parecer uma coisa cinzenta e distante, afeta-nos em tudo. Desde a forma como estamos sentados numa universidade, à matéria que é lecionada, aos anos de percurso académico. Tudo é legislado, tudo é feito pela política. É muito importante que os jovens não se demitam. Venham para a política se acharem que as coisas não estão bem e que querem mudar, porque senão adianta pouco estarmos juntos a queixar-nos quando não contribuímos para mudar. Sempre que ouço um jovem mais interventivo e a tentar mudar, penso: é mesmo para isto. É mesmo para aquele jovem que neste momento estou aqui sentada.






