Dos corredores da Autónoma para a CMTV, Tânia Laranjo é um dos nomes mais conhecidos (e polémicos) do jornalismo televisivo em Portugal.
“Não tenho muito tempo”, diz com o seu tom de voz característico quando nos recebe nas instalações da Medialivre, em São Domingos de Benfica, Lisboa. Dentro de instantes, a jornalista da CMTV tem de comentar um caso em direto. Nos estúdios do canal, ouvem-se as vozes e caras da estação a entrar e a sair. Apesar do pouco tempo, Tânia mostra-se sempre disponível, respondendo de forma direta e assertiva a todas as questões. Mesmo as mais difíceis.
Com 30 anos de carreira, a Tânia é uma das jornalistas mais conhecidas da atualidade. Como é que o jornalismo entrou na sua vida e em que momento percebeu que esta seria a sua profissão?
Entrei acidentalmente para o jornalismo, não era o que queria. Queria Economia, que não tem nada a ver. Acabei na UAL em Ciências da Comunicação, porque era onde havia vaga.
Iniciou o seu percurso profissional em 1993, no Jornal de Notícias. Entrevistada pela sua filha para a revista Máxima, referiu que trabalhou numa redação diferente daquela em que trabalha hoje: “uma redação de homens”. Qual foi a maior dificuldade em trabalhar numa redação maioritariamente masculina?
Não era propriamente dificuldade, era diferente. Havia muito poucas mulheres. Ainda não havia uma aceitação muito grande relativamente às mulheres no jornalismo. Havia assédio. Era uma redação mais dura. O jornalismo está melhor hoje do que estava há 30 anos. As redações tinham muito mais vícios com o poder político, não era só o Jornal de Notícias, eram todas. E eram maioritariamente masculinas, eram mais tensas. Tinham algumas vantagens. Os jornais fechavam mais tarde, as pessoas conviviam mais durante a noite. Portanto, também isso tornava a redação diferente daquilo que é hoje.
Era uma “redação mais dura” também por ser mulher?
Era todo o ambiente. Nunca tive esse complexo de ser mulher. Foi naturalmente difícil chegar a cargos mais altos, mas não significa que fosse mais difícil. Sempre mantive o meu feitio. Mesmo naquela altura, quando achava que tinham passado a linha, ia protestar.
“É um jornalismo mais popular, mais direcionado para as pessoas, mais próximo das pessoas. Não é sensacionalista”
O Correio da Manhã e a CMTV são conhecidos pelo seu estilo de jornalismo mais popular. Há também quem o classifique de sensacionalista. Enquanto profissional, revê-se neste tipo de abordagem?
Não acho que seja classificado como sensacionalista na rua e são esses que interessam. Revejo-me, senão não estava aqui. É um jornalismo mais popular, mais direcionado para as pessoas, mais próximo das pessoas. Não é sensacionalista. Não acho que seja sensacionalista, nem acho que as pessoas achem que seja sensacionalista, senão não era líder. A sensação é completamente diferente. Se acontece alguma coisa, vou ver na CMTV. É por ser uma televisão mais próxima, mais imediata, mais popular. Não tem nada a ver com o sensacionalismo.
Em setembro de 2025, houve uma polémica com a TVI por causa da entrevista com Luís Miguel Militão. A Tânia acusou a TVI de mentir e iniciou uma troca de provocações com a jornalista Sandra Felgueiras. A luta pelas audiências aumenta a competição entre os meios de comunicação social?
Fiz uma entrevista ao Militão, uma entrevista por escrito. O jornalismo não nasceu com a televisão. O jornalismo existe antes. O que disse foi que a TVI mentiu ao dizer que tinha uma entrevista exclusiva. A entrevista do Correio da Manhã saiu antes. A TVI terá pago pela entrevista e não me revejo nisso. Não podemos pagar a um homicida mais do que o que ele ganhou por matar pessoas, senão aí o crime compensa. E a Sandra Felgueiras não tinha nada a ver com aquilo, veio meter o bedelho. Espero que ela não soubesse como é que foi feito o trabalho da TVI, porque assim acho que deve ser questionado.
Sente que este conflito podia ter sido evitado?
Não houve nenhum conflito. Dei a minha opinião. A TVI, quando é confrontada com uma entrevista no Correio da Manhã, veio dizer: “Nós temos o exclusivo, porque temos o exclusivo da imagem”. Não acho que seja muito relevante. O que disse foi: é uma mentira. Depois percebi o porquê de a TVI estar com tanta vontade de dizer que era um exclusivo. Foi uma chatice. Custou tanto dinheiro e um dia antes saiu no Correio da Manhã.
“O que me incomoda mais é a justiça não perceber o interesse público”
Tornou-se um dos nomes incontornáveis no jornalismo de investigação ligado à área da justiça e criminalidade. Acompanhou alguns dos casos mais mediáticos em Portugal, como a Operação Marquês. Há algum caso que a tenha marcado particularmente?
Todos eles. A Operação Marquês marcou pela importância que teve no Correio da Manhã e no Sol. Também os casos naturalmente humanos, o caso da Madeleine, por ser uma criança. O caso do Pretoriano, recentemente, porque era uma claque. Há variadíssimos casos que me marcaram em momentos diferentes.
No dia 13 de março de 2026 foi absolvida do processo Vistos Gold pela divulgação do interrogatório do antigo ministro do Governo de Passos Coelho. Miguel Macedo tinha exigido em tribunal ser indemnizado pelos prejuízos causados. Sobre este caso, a Tânia afirma: “Ganhou, acima de tudo, a liberdade de informação”. Há, por parte dos políticos, uma tentativa de impedir que os jornalistas cumpram a sua função de informar os cidadãos?
O que me incomoda é que os tribunais vão fazendo tábua rasa do Tribunal Europeu. O que aconteceu aqui foi a divulgação do interrogatório e a defesa do interesse público. Fi-lo conscientemente, assumi o que fiz. Éramos três jornalistas a ser julgados. Aqui há a questão da desobediência, mas deixa de ser punido se o interesse for superior, o interesse público. Os tribunais portugueses entenderam que não. Nós defendemos que sim. Assumi, fui condenada e agora fui absolvida e vai ser importante para os próximos processos. Estamos a falar da coisa pública, o espectador tem o direito de conhecer o interrogatório de Miguel Macedo. Não prejudicou a investigação, não afetou o bom nome, porque a investigação já existia, já era conhecida. Miguel Macedo, a ter sido afetado, foi pela investigação, não foi pela divulgação do interrogatório. Com os políticos posso eu bem, o que me incomoda mais é a justiça não perceber o interesse público. E agora foi obrigada a perceber, por um acórdão do Tribunal Europeu. Nós pedimos a reabertura do inquérito e ganhámos. Foi feita justiça.
É reconhecida pelo trabalho que faz no terreno. Como é que se prepara?
Não tem nenhuma preparação específica. É o dia-a-dia. Estou aqui, se houver uma coisa qualquer muito grave noutro sítio qualquer, estarei noutro sítio qualquer.
As reportagens que fez durante o temporal que afetou o país no início do ano foram especialmente exigentes. “Não foi a primeira vez que trabalhei 18 dias consecutivos, sem uma única folga (…) Mas esta foi diferente…”. Como foi viver esse momento enquanto jornalista?
Foi diferente, foi mais intenso do ponto de vista físico. Estava sempre a chover, estava sempre molhada, cansada. Depois, a dificuldade de comer, porque não há coisas abertas. Portanto, do ponto de vista físico, é muito cansativo. Foi, de facto, um desafio.




Recebeu uma “onda de carinho” por causa do seu desempenho durante este período de mau tempo. Também em entrevista para a Máxima disse que é um reconhecimento de algum público “que demorou e chegou”. Como gere a exposição mediática que tem e as críticas que recebe?
Quando falo de algum público, é de algum público ligado ao meio jornalístico. O reconhecimento do espectador já o tinha. O que sinto de diferente é do meio jornalístico e do meio da televisão que faz agora esse reconhecimento. Já giro isto há alguns anos, obviamente que vai crescendo. Também não tenho muita vida própria, tento preservar a minha vida privada.
Considera que foi com “o comboio de tempestades” que o meio jornalístico começou a valorizar mais o seu trabalho?
Sim, foram obrigados a valorizar, as audiências assim o ditam. Quem manda na televisão é o espectador, é ele quem decide. Portanto, isso obrigou a terem de reconhecer que há um estilo de trabalho diferente, mas que é o que o público quer.

“Gosto de trabalhar com os mais novos”
Tal como a Tânia, a sua filha Francisca seguiu o caminho do jornalismo. É um orgulho ou uma preocupação?
É um orgulho. Será sempre uma preocupação, mas também seria se fosse outra coisa qualquer. É uma preocupação, porque o que ela gosta de fazer também são cenários de risco. É uma preocupação a esse nível, mas é mais do que uma preocupação, é um orgulho.
O jornalismo precisa dos mais jovens, de novas formas de contar histórias?
O jornalismo precisa de tudo, dos mais novos e dos mais velhos. Os mais novos trazem outra forma de contar histórias, outra leveza. Os mais velhos trazem experiência, mais mundo, enquadramento. Gosto de trabalhar com os mais novos. Os repórteres de imagem com quem trabalho, um deles até é mais novo que a minha filha e o outro tem 30 anos, mas são dois jovens. Eles têm outras características que não tenho, mas não podemos fazer redações nem só com jovens, nem só os mais velhos.





