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-Início»Reportagens»Reportagens»Zungueiras: “O dinheiro não chega”

Zungueiras: “O dinheiro não chega”

Daniela Mateus 15 Mai 2026 Reportagens, Reportagens

O aumento contínuo do custo de vida em Angola piorou significativamente as condições de vida de grande parte da população, especialmente nas zonas urbanas. Em Luanda, capital do país, esta realidade reflete-se no crescimento do comércio informal, onde as zungueiras surgem como uma resposta direta à falta de emprego formal e a dificuldade de garantir o sustento diário.  

As zungueiras, como são conhecidas as vendedoras ambulantes em Angola, tornaram-se uma presença constante no quotidiano da cidade. Em mercados populares, paragens de autocarro e ao longo das principais vias de circulação, estas mulheres carregam à cabeça produtos alimentares, água, frutas e outros bens essenciais, oferecendo-los a quem passa. Esta prática, profundamente enraizada na economia informal angolana, não resulta de uma escolha voluntária, mas de uma resposta direta à escassez de emprego formal, à informalidade estrutural da economia e à dificuldade de acesso a meios de subsistência estáveis. 

“Quando as aulas começam, a cabeça já começa a ficar no ar” 

No Mercado dos Escongoleses, um dos maiores e mais movimentados de Luanda, a rotina começa cedo. Ainda antes do aumento do fluxo de clientes, as vendedoras organizam os produtos, ajustam os espaços improvisados e se preparam para enfrentar longas horas de trabalho sob o sol intenso. É neste ambiente que Susana Domingos, de 55 anos, exerce a atividade de zungueira há cerca de 36 anos. Chega ao mercado por volta das 8h30 e permanece até o final da tarde, enfrentando dias marcados pela incerteza das vendas e pela irregularidade dos rendimentos. 

Segundo Susana, o valor arrecadado diariamente depende do dia da semana e do movimento no mercado. Há períodos em que as vendas diminuíram consideravelmente, principalmente às quartas-feiras e quintas-feiras, o que dificulta qualquer previsão financeira. Apesar dessa instabilidade, a vendedora mantém-se firme. Em casa, oito filhos dependem diretamente do dinheiro que ela consegue ganhar no mercado. A sua principal preocupação surge no início do ano letivo, quando as despesas com material escolar, propinas e outras obrigações aumentam. “Quando as aulas começam, a cabeça já começa a ficar no ar, porque é preciso pagar o colégio e muitas outras despesas”, explica.

Uma realidade que se repete em inúmeros angolanos. Para Landinha, com 28 anos e residente no bairro Calawenda, o maior desafio diário é lidar com o aumento constante do custo de vida. Produtos essenciais como o arroz, o fubá de milho e os produtos do campo tornaram-se progressivamente mais caros, enquanto o poder de compra da população diminui. A redução do rendimento diário reflete-se diretamente na alimentação da família e no acesso a serviços básicos. 

Vendedora de água, Landinha explica que o lucro obtido depende da quantidade vendida e da resistência física ao longo do dia. Em dias considerados bons, consegue reunir algum valor para cobrir despesas essenciais; em dias maus, o dinheiro não chega sequer para garantir a alimentação. O transporte representa um custo adicional significativo, uma vez que ela gasta diariamente cerca de 600 kwanzas para se deslocar até o mercado e voltar para casa. Ainda assim, continua a trabalhar, pois do seu rendimento depende do sustento dos quatro filhos. 

Apesar das dificuldades, Landinha deposita na educação a esperança de um futuro diferente para os filhos. “Quando eu tiver dois mil kwanzas, vou pagar a escola. Mesmo que seja pouco, vou juntando para que amanhã sejam alguém”, relata. O esforço diário revela a tentativa de quebrar o ciclo de pobreza que marca a vida de muitas famílias dependentes da economia informal. 

“Se a polícia chegar e a banheira estiver no chão, eles levam tudo” 

A situação fica ainda mais exigente para quem depende exclusivamente da venda ambulante nas ruas. Dailita Junqueira, aparenta estar na casa dos 50 anos de idade. Residente em Cazenga, percorre diariamente longas distâncias a pé para vender mangas no Mercado dos Escongoleses. Sem recursos suficientes para pagar transporte de forma regular, ela sai de casa a pé e retorna da mesma forma, carregando a mercadoria e o cansaço acumulado ao longo do dia. 

Para além do esforço físico, Dailita enfrenta o medo constante da apreensão da mercadoria. A falta de espaço nos mercados formais e o alto custo das taxas obriga muitas zungueiras a vender na rua, onde a fiscalização é frequente. “Se a polícia chegar e a banheira estiver no chão, eles levam tudo” afirma a senhora Dailita. Relata também que os lugares disponíveis dentro dos mercados são insuficientes para todas as vendedoras, empurrando muitas mulheres para a informalidade nas vias públicas. 

A insegurança faz parte da rotina dessas trabalhadoras. Dailita afirma sentir medo diariamente, especialmente durante a semana, quando as ações de fiscalização são mais intensas. Ainda assim, persiste na atividade, depende da zunga para a sobrevivência dos seus oito filhos. “Não nos sentimos bem quando isso acontece, porque é dali que sai o sustento das crianças”, explica. 

As histórias de Susana, Landinha e Dailita revelam uma realidade comum a milhares de mulheres angolanas. A zunga não surge como escolha, mas como uma estratégia de sobrevivência face à ausência de emprego formal, à instabilidade económica e ao aumento do custo de vida. Entre mercados superlotados, ruas hostis e rendimentos incertos, estas mulheres continuam a garantir o sustento diário das suas famílias, desempenhando um papel essencial no funcionamento da economia urbana. 

Para além do impacto económico, esta atividade tem implicações sociais profundas. A maioria das zungueiras são mulheres que conciliam o trabalho informal com a maternidade, os cuidados domésticos e a gestão do agregado familiar. A ausência de proteção social, de acesso a cuidados de saúde adequados e de condições de trabalho dignas agrava a vulnerabilidade dessas trabalhadoras, tornando-as particularmente expostas a situações de risco. 

Num contexto em que o trabalho informal assume um peso significativo em Angola, as zungueiras permanecem frequentemente invisíveis nas estatísticas oficiais e nas políticas públicas. No entanto, são elas que asseguram a circulação de bens essenciais e contribuem para a subsistência de milhares de famílias. Ao final do dia, quando regressam a casa com o que conseguiram vender, não levam apenas mercadorias vazias, mas também o peso de uma luta diária pela sobrevivência. 

Enquanto não implementamos políticas públicas eficazes que promovam o acesso ao emprego formal, ampliamos a capacidade dos mercados e garantam proteção social às trabalhadoras informais, a zunga, continuará a ser, para muitas mulheres, a única alternativa possível. Em Luanda, sobreviver permanece, para estas vendedoras, um trabalho de todos os dias. 

A realidade observada no Mercado dos Escongoleses evidencia que, apesar das dificuldades, as zungueiras desenvolvem estratégias próprias de adaptação e resistência. 

 A solidariedade entre vendedoras, a partilha de informações e a ocupação coletiva dos espaços funcionam como mecanismos de informação de proteção. Ainda que essas práticas não substituam políticas públicas estruturadas revelam a capacidade de organização e resiliência dessas mulheres face a um contexto econômico adverso. 

 

    
2026-05-15
João Ferreira Oliveira
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