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Ciência contra a química letal: Investigadores da FCUL recriam drogas ilícitas para antecipar riscos

Marta Colaço 22 Out 2026 Reportagens, Reportagens

Num laboratório da Faculdade de Ciências de Lisboa, uma equipa de investigadores recria compostos ilícitos para travar o seu impacto na saúde pública. Longe das sirenes e do aparato policial, a ciência corre contra o tempo para identificar novas substâncias antes que elas façam vítimas.

O movimento tão característico do Campo Grande e da cidade de Lisboa fica à entrada do Edifício C8. No quinto andar, um corredor estreito e escuro conduz à última porta: o laboratório B 5.6.1. O silêncio é apenas interrompido pelo zumbido das máquinas e pelo brilho das bancadas. Entre batas brancas, luvas azuis, frascos e folhas cheias de números, a equipa tenta desmascarar a química de psicoativos que, em 2014, circulavam livremente nas smartshops.

Nas montras dessas lojas, pacotes coloridos (que pareciam produtos banais) eram, à data, vendidos à luz do dia e sem qualquer aviso sobre o impacto no corpo. Foi esse contraste entre aparência normal e risco desconhecido que levou Helena Gaspar, de 56 anos, professora e investigadora no Departamento de Química e Bioquímica da FCUL, a entrar nesses espaços e a perceber o que havia por detrás das prateleiras. Ao balcão, os funcionários aconselhavam com uma naturalidade inabalável, embora a cientista admita que, na altura, não fazia “a mínima ideia” do que aqueles produtos continham.

A resposta a esse desconhecimento exigia ciência. A docente comprou os produtos e levou-os para a sua bancada. Começou pelas matrizes vegetais, mas os pós sintéticos depressa exigiram a sua atenção. A experiência de mais de duas décadas a identificar moléculas complexas sem qualquer padrão de referência foi decisiva. “Comecei a analisar os pós com as minhas técnicas, a identificar os produtos e a ficar muito preocupada”, recorda. O pior cenário confirmou-se: circulavam fórmulas sem controlo, desconhecidas e “altamente perigosas”.

A gravidade dos resultados saiu depressa do plano académico quando Helena pensou nos filhos adolescentes. Aquelas misturas podiam circular em festas, passar de mão em mão e chegar a jovens incapazes de avaliar a toxicidade do que tinham diante de si. A especialista levou o alerta para casa, explicou o risco e pediu-lhes que a informação chegasse aos amigos. “Foi assim que comecei isto tudo: para tentar proteger os meus filhos. Foi a mãe cientista a agir, com a capacidade protetora que as mães têm”, confidencia, com um sorriso.

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“As pessoas têm uma ideia muito exagerada da Química. Acham que é só misturar compostos malucos, criar várias cores e pôr chamas nas coisas”

Esse gesto de proteção ultrapassou a família e tornou-se uma colaboração dupla. A Polícia Judiciária envia apreensões para o laboratório quando não tem padrões de referência para as identificar. Já a Kosmicare, associação de drug checking, pede ajuda quando testes rápidos em festivais deixam dúvidas sobre a composição de uma droga. As origens mudam, mas a exigência mantém-se: transformar a incerteza numa identificação exata.

Atribuir um nome é apenas o ponto de partida. Perante uma estrutura inédita, a equipa recria a molécula em pequenas quantidades e em segurança. O objetivo não é vender, mas criar uma referência que permita reconhecê-la se voltar a circular.

Não são, contudo, apenas especialistas veteranos a executar esta tarefa. Sofia Camões, de 20 anos, e Tomás Roque, de 24, frequentam o terceiro ano de Química e assumem uma responsabilidade rara nesta fase. Longe de aceitar um papel de observadora, a estudante prepara a base química que permitirá descodificar novos estupefacientes. “O nosso trabalho é tão importante como o dos restantes membros da equipa”, sublinha.

Para o colega, a exigência ganha forma atrás do vidro de uma hotte de ventilação. Prepara-se para manipular bromo, reagente tóxico usado na construção de catinonas, próximas das anfetaminas. A máscara respiratória e os óculos denunciam o perigo, mas a cena afasta-se da imagem criada pelos filmes: “As pessoas têm uma ideia muito exagerada da química. Acham que é só misturar compostos malucos, criar várias cores e pôr chamas nas coisas”, descreve o licenciando. Não há explosões espetaculares, apenas “uma paciência cega perante a monotonia” de lidar com incontáveis “pós brancos e aborrecidos”.

Helena reforça essa distância entre ficção e ciência quando fala da identificação. “Não pomos um produto numa máquina e sai a resposta do outro lado. Não é assim”, alerta a docente. Da entrada da amostra ao veredicto, escolhem-se técnicas, cruzam-se espectros e eliminam-se falsas pistas. O resultado nunca surge por magia — constrói-se pela confirmação exaustiva.

Laboratório B.5.6.1, no quinto piso da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). É nestas bancadas que a equipa identifica as novas drogas sintéticas
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“Não queremos que as únicas pessoas a fazê-las sejam as que as estão a vender para lucrarem num mercado negro”

A corrida contra o tempo nasce da velocidade das ruas. Enquanto a ciência tenta fixar padrões, os circuitos clandestinos alteram receitas para contornar a lei. Basta uma mudança molecular mínima para tornar a droga mais destrutiva. Ao sintetizá-la primeiro, a equipa antecipa-se. “Não queremos que as únicas pessoas a fazê-las sejam as que as estão a vender para lucrarem num mercado negro”, remata Tomás.

No caso dos nitazenos, a tensão passa para Sofia. Estes opioides fortíssimos, comparáveis ao fentanilo, exigem reações longas e margem de erro quase nula. “Basta um pequeno descuido e o meu trabalho de dias ou semanas fica todo arruinado”, confessa. “Ganhamos uma sensibilidade pelas pessoas que são prejudicadas”, explica, consciente do risco. “As overdoses podem ser muito mais drásticas e rápidas”. Quando a estrutura química está definida, a investigação avança para as incubadoras. Saber o que é o composto já não basta: é preciso perceber o que faz quando entra em contacto com células humanas.

Miriam Veloso, mestranda de 26 anos, assegura esta passagem para a biologia. Ao passar dosagens dos frascos para culturas biológicas, encontrou a rebeldia da vida microscópica: “As células quase têm vontade própria. É imprevisível perceber como vão reagir”, constata. O processo obriga a recuar, refazer planos e acumular horas invisíveis, sustentadas por uma “repetição exaustiva”.

A imprevisibilidade da matéria viva não desaparece com os anos. A ciência aprende a antecipá-la. Rita Pacheco, de 52 anos, professora adjunta no ISEL e investigadora no Centro de Química Estrutural da FCUL, sente o desgaste desta dedicação diária. Ao contrário das substâncias, as células exigem alimento, vigilância e estabilidade, ignorando o calendário. “Não há fins de semana, não há feriados e não há férias. Não podemos deixar as células sozinhas”, adverte.

O rotavapor separa o líquido da substância, isolando o composto final
Amostras prontas para análise por Ressonância Magnética Nuclear (RMN), o sistema automático que garante a análise sequencial dos compostos

“A ciência tem este grande problema: só se publicam os sucessos e não os insucessos”

Mesmo com todos os cuidados, muitos exercícios obrigam a recomeçar. Para a orientadora, o obstáculo não está no erro da pesquisa, mas na forma como a comunidade académica lida com a falha. “A ciência tem este grande problema: só se publicam os sucessos e não os insucessos”, aponta. “Os insucessos é que nos ensinam que existem mais caminhos possíveis”.

A convivência com resultados incertos afasta a equipa da ideia de uma ciência feita só de moléculas puras. As drogas chegam cortadas, adulteradas e envoltas numa composição caótica. “O que anda por aí não são moléculas puras — é a mistura de tudo e mais alguma coisa”, avisa Rita, justificando a dificuldade dos testes.

Responder a esta roleta russa química exige tempo, rigor e fundos que escasseiam. Apesar de o laboratório ajudar apreensões policiais, orientar intervenções de drug checking e converter dúvidas em informação útil, o esforço continua sem financiamento externo garantido. Helena assume a fragilidade do sistema: “No fundo, estou a fazer um trabalho voluntário. Ninguém paga estas análises, nem o drug checking nem a polícia”-

Novas substâncias continuarão a aparecer nas ruas. Algumas obrigarão a repetir ensaios longos. Outras deixarão à espera de respostas que podem chegar tarde. Em cada estrutura decifrada, mantém-se a missão: perceber a ameaça antes que alguém a descubra no próprio corpo. Para a docente, esse esforço já não se mede em reconhecimento. “Se com o meu trabalho puder evitar que uma pessoa morra, já me dou por feliz”, conclui.

https://ualmedia.pt/wp-content/uploads//2026/10/HELENA-reportagem.mp4

 

    
2026-10-22
João Ferreira Oliveira
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