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-Início»Entrevistas»Isabel Jonet: “Gostava muito que o Banco Alimentar pudesse fechar, significava que não era necessário”

Isabel Jonet: “Gostava muito que o Banco Alimentar pudesse fechar, significava que não era necessário”

Mariana Silva 29 Dez 2025 Entrevistas, Entrevistas

Presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome e da ENTRAJUDA, Isabel Jonet é das principais vozes no combate ao desperdício e à pobreza alimentar. Nesta entrevista — realizada a poucos dias da 68.ª campanha de recolha de alimentos — fala sobre voluntariado, participação cívica e o impacto da solidariedade na vida de milhares de famílias em Portugal.

Tem 65 anos e iniciou a atividade como voluntária no Banco Alimentar aos 33, dedicando praticamente metade da sua vida ao combate à fome. O que a levou a envolver-se nesta causa?

Quando a minha família voltou de Bruxelas, vim oferecer-me ao Banco Alimentar para dar algum tempo como voluntária. Apaixonei-me pelo projeto porque ainda era muito pequeno e percebi que, com um modelo de gestão, podíamos replicar noutras regiões o que se fazia em Lisboa. A missão do Banco Alimentar — a luta contra o desperdício — é o que me motiva desde sempre. Não gosto nada de desperdício. Pensei que, se recuperássemos toda a comida desperdiçada, poderíamos ajudar famílias de baixos rendimentos a terem comida à mesa diariamente. Temos demasiado desperdício de bens em boas condições, de tempo e de atenção. Se organizarmos tudo melhor, conseguimos ajudar pessoas mais pobres e, ao mesmo tempo, reduzir os impactos ambientais.

Trabalha a tempo inteiro no Banco Alimentar e já referiu que, desde que se juntou ao projeto, há mais de três décadas, o faz sem qualquer remuneração. Que adaptações teve de fazer na sua vida para poder manter este compromisso?

Quando decidi ser voluntária a tempo inteiro, essa não podia ser uma decisão apenas minha. Tinha de ser de toda a família, até porque isso significava menos um salário todos os meses. Tivemos de ir adaptando a vida, mas tenho a sorte de ter um marido para quem a minha realização pessoal e profissional no Banco Alimentar, como voluntária, sempre foi muito importante. Fui-me deixando levar e tenho sorte de poder continuar com esta decisão.

Como descreveria a situação da fome e da pobreza em Portugal atualmente?

Em Portugal, não se pode falar de fome. Pode-se falar de carências alimentares, que é muito diferente. Há uma grande pobreza estrutural. Temos idosos que vivem com pensões de reforma inferiores a 250 euros por mês e pessoas com trabalho e família cujo rendimento não chega para todas as necessidades. O peso da habitação é, hoje, uma parcela demasiado elevada para o que as famílias podem acomodar. Em alguns casos, chega a ser 60% do rendimento familiar e deixa poucas verbas para o resto. São famílias que tinham uma expectativa de vida e, por vezes, até estudos, mas não conseguem um salário condigno.

“É muito preocupante que haja tantas pessoas a precisar de ajuda para comer”

Cerca de 4% da população portuguesa recebe ajuda do Banco Alimentar, o que corresponde a mais de 400 mil pessoas. Que leitura faz deste número e do que ele revela sobre a realidade do país?

Gostava muito que não fosse assim e que o Banco Alimentar pudesse fechar — significava que não era necessário. No entanto, este dado mostra que a ajuda dos 21 bancos alimentares existentes no país é essencial para que famílias tenham o mínimo à mesa e possam viver dignamente. É muito preocupante que haja tantas pessoas a precisar de ajuda para comer. Há famílias com filhos que têm de recorrer ao saco do Banco Alimentar ou ao apoio prestado nas creches e nos jardins de infância, para que estas crianças tenham, pelo menos, uma refeição completa em casa e possam estudar.

Há quem diga que a existência de bancos alimentares evidencia uma falha do Estado em garantir o básico. Concorda com essa visão?

Não concordo. O Estado não pode faltar naquilo que é essencial, como a Educação, o acesso à Saúde, reformas justas e uma alimentação digna. No entanto, há um papel insubstituível da sociedade civil que promove maior coesão social. Sem o interesse de cada um de nós pela vida dos outros, ficamos isolados como ilhas. O Banco Alimentar também promove o voluntariado desde cedo. Temos campanhas nas escolas para sensibilizar as crianças para a realidade das pessoas que não têm acesso a tudo o que necessitam. Se pudermos dar um pouco do nosso tempo e daquilo que fazemos e sabemos, estas pessoas têm uma vida melhor. Isso contribui para maior coesão social e para menos radicalismos na sociedade.

As campanhas de recolha, que ocorrem duas vezes por ano, continuam a mobilizar milhares de voluntários e a gerar toneladas de alimentos. O que explica que esta iniciativa continue a ter tanto sucesso por parte dos portugueses?

O Banco Alimentar ser uma instituição de confiança. Os portugueses conhecem a organização e os seus voluntários, conhecem as pessoas que estão à porta dos supermercados com a t-shirt branca. Além disso, quando fazemos uma campanha de recolha de alimentos, apelamos à partilha: partilhe o seu tempo, ajude-nos a recolher alimentos e a levá-los à mesa de quem não tem. Há muitas pessoas que estão, ombro a ombro, a trabalhar para que outros tenham comida à mesa.

O UALMedia Rádio tem acompanhado (desde 2006) as campanhas de recolhas de alimentos do Banco Alimentar. Este ano, não foi exceção

“Para nós, os resultados medem-se pela quantidade de comida que conseguimos levar à mesa de quem precisa”

Este mês realiza-se uma nova campanha. Que expectativas tem para esta edição?

Esta será a 68.ª campanha de recolha. Os 21 bancos alimentares estarão em mais de duas mil superfícies comerciais, com mais de 40 mil voluntários. Cada voluntário convida as pessoas a partilhar um pouco do que vão comer em casa. A nossa expectativa é que as campanhas sejam sempre o melhor possível. Todas as pessoas que derem um pouco do seu tempo contribuem para que a campanha volte a ser um sucesso. Para nós, os resultados medem-se pela quantidade de comida que conseguimos levar à mesa de quem precisa.

Fundou a ENTRAJUDA em 2004, uma entidade que apoia outras instituições de solidariedade. Como surgiu esta iniciativa e que papel tem desempenhado no setor social português?

A ENTRAJUDA nasceu da nossa experiência no Banco Alimentar. Percebemos que, além do pão, podíamos levar mais gestão e organização ao setor social. Muitas vezes, as instituições são geridas com o coração, mas, com melhores métodos de trabalho, podiam gastar menos dinheiro, usar melhor os recursos e atrair voluntários mais qualificados.

Como é o seu dia a dia enquanto presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome e da ENTRAJUDA?

Posso dizer que há uma base. Todos os dias saio de casa à mesma hora e faço as mesmas coisas de manhã. Depois há sempre imprevistos. Tenho de ir muitas vezes aos bancos alimentares noutras regiões do país. Cada dia é diferente, mas sempre com o mesmo propósito: ajudar as pessoas a receber melhor a ajuda e apoiar as equipas do setor social com mais competências e ferramentas.

Foi destacada pela Forbes Portugal como a portuguesa mais poderosa do voluntariado. Que significado têm estes reconhecimentos para si?

Ser reconhecida é sempre muito gratificante de um ponto de vista pessoal, mas é uma grande responsabilidade. Sempre que recebo algum prémio ou distinção, nunca entendo que seja para mim, mas para as instituições e para as equipas que tenho podido liderar. Sobretudo, são muito importantes para manter as equipas mobilizadas e orgulhosas de trabalhar em duas instituições de referência.

Depois de mais de 30 anos dedicados ao voluntariado, o que ainda gostava de realizar no futuro, a nível pessoal ou através das instituições que lidera?

O que mais quero é que este trabalho continue a mudar a vida de pessoas. Uma vez, estava a ser júri de um prémio e estava cá a TVI a filmar. A jornalista tocou-me no ombro, deu-me um papel e disse: “Este é o meu telemóvel pessoal. Queria agradecer-lhe porque, se hoje sou jornalista da TVI, é porque a minha mãe, quando se divorciou, recebeu o saco do Banco Alimentar. Senão, não teria tido possibilidade de continuar a estudar.” Há tantos testemunhos de pessoas que ficaram agradecidas porque o Banco Alimentar serviu como um empurrão para poderem ter uma vida mais plena. Isso faz com que seja uma pessoa mais realizada e dá muito sentido àquilo que faço. Tenho muito para fazer. Cada dia neste setor, pequenos gestos mudam vidas.

    
2025-12-29
João Ferreira Oliveira
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