A Quinta Pedagógica de Lisboa, nos Olivais, comemorou no passado mês de abril 30 anos de existência. Nesta reportagem, exploramos a sua missão educativa, as atividades que desenvolve e a importância que assume na sensibilização ambiental dos visitantes.
O ritmo e os sons característicos da capital ficam do lado de fora dos portões assim que se entra na Quinta Pedagógica de Lisboa, inaugurada a 16 de abril de 1996, nos Olivais. Há pavões e gansos a andar livremente, galinhas a cacarejar, o cheiro característico dos currais, onde a palha se mistura com os odores deixados pelos animais, reforça a sensação de ambiente rural. “O nosso objetivo é promover as raças autóctones e o património genético nacional”, relata Anabela Silva, funcionária da Câmara Municipal de Lisboa, que aqui trabalha há 14 anos.
Um espaço com uma forte componente educativa que se tornou uma referência para escolas e famílias na região da Grande Lisboa, aproximando-as de uma realidade cada vez menos presente no quotidiano urbano. “Estamos com uma média de 1000 a 1500 visitantes por dia, durante o fim de semana, o que é bastante”, avança Anabela. Números que trazem consigo vários desafios, desde logo, a interação entre os visitantes e os animais, sobretudo no que diz respeito à alimentação. Apesar dos avisos e das ações de sensibilização, muitos visitantes continuam a oferecer comida aos animais, colocando a sua saúde em risco.
“O que mais me agrada é ver adultos que cá vieram em crianças trazerem os filhos”
Sandra Moutinho, de 59 anos, é a coordenadora da Quinta Pedagógica há duas décadas e conhece os desafios melhor do que ninguém. Quando o projeto nasceu, o objetivo era muito prático. “Surgiu com o propósito de as crianças não saberem coisas básicas, como que as cenouras vêm da terra ou de onde é que vêm os ovos”, recorda. Hoje, embora o cenário tenha melhorado, este choque de realidade continua a ser necessário. No entanto, o espaço evoluiu também para projetos de voluntariado e de reinserção social.
Sem donativos ou mecenas (a entrada é gratuita), o funcionamento depende exclusivamente da Câmara Municipal de Lisboa, exigindo, assim, restrições orçamentais e muito rigor. É devido a este rigor que não funciona como santuário para animais errantes ou resgatados por associações. Apesar dos pedidos constantes, a resposta é sempre negativa. “Os nossos porcos fazem análises regularmente para a prevenção de doenças. A entrada de qualquer animal sem historial médico põe em risco a saúde de todos os outros”.
O balanço de Sandra Moutinho é, ainda assim, extremamente positivo, numa quinta que está já a cruzar três gerações. “O que mais me agrada é ver adultos que cá vieram em crianças trazerem os filhos. Demonstra como este espaço está consolidado e a importância que tem na educação”, conclui.
“Em apenas dois hectares, os visitantes encontram uma realidade diferente daquela a que estão habituados”
Se Sandra Moutinho acompanha o funcionamento global, Augusto Batista observa o espaço com outra perspetiva. Médico veterinário, há 15 anos nos Olivais, divide o seu tempo entre os cuidados clínicos e as atividades pedagógicas que a quinta proporciona. Aos 60 anos, descreve-se como um privilegiado. “Tenho a oportunidade de trabalhar com animais e crianças. É muito agradável”, comenta com um sorriso.
Uma das suas responsabilidades é garantir que o contacto entre os visitantes e os animais decorra de forma segura para ambos. Embora haja um elevado número de pessoas, Augusto garante que os animais estão habituados à presença humana. “Como podem ver, estão calmíssimos.” Garante que os animais já estão acostumados e que lhes é indiferente que os mais pequenos gritem ou não. Contudo, o bem-estar é essencial. Entre as 19h e as 9h da manhã, o descanso é total e, às segundas-feiras, os portões fecham-se ao público para que se façam as tarefas de manutenção mais pesadas e se garanta o descanso dos animais.
As atividades que orienta variam entre sessões práticas e experiências ligadas à vida quotidiana de uma exploração agrícola. Entre elas, encontram-se ações dedicadas aos cuidados veterinários, ao ciclo de vida das ovelhas ou ao reconhecimento de pegadas. “No início há muita excitação. Temos que acalmar um bocado os ânimos. Com o evoluir das atividades, vão acalmando.” Para o trabalhador, este é um dos aspetos mais gratificantes, pois “os miúdos saem mais tranquilos e mais conhecedores do dia a dia dos animais e do seu comportamento”.
Augusto Batista conclui dizendo que “em apenas dois hectares, os visitantes encontram uma realidade diferente daquela a que estão habituados”.
“É crucial perceberem que a comida não vem da prateleira do supermercado”
É entre o som dos animais e o entusiasmo infantil que encontramos Filipa Arruda, de 33 anos. A visita de hoje não foi um passeio isolado. “Estamos aqui no âmbito de uma atividade da creche do nosso filho”. Vieram todos os pais com os respetivos filhos”, explica Filipa, revelando que a visita já estava nos planos da família há algum tempo.
Numa cidade onde o contacto com a natureza é frequentemente substituído pelo betão, espaços como este assumem uma missão educativa fundamental. Para Filipa, o contraste é evidente e necessário. “Ainda há pouco comentámos a importância de as crianças que vivem num meio urbano terem consciência de como são os animais.” Na Quinta Pedagógica, a lição é direta e visual, desmistificando o que chega à mesa das famílias. “É crucial perceberem que a comida não vem da prateleira do supermercado. Que os coelhos são, de facto, animais, assim como as vacas e os porcos”, sublinha.
Se para as crianças a manhã é de pura descoberta, para os adultos é, muitas vezes, uma viagem nostálgica. Questionada sobre se o espaço lhe traz recordações, Filipa confirma sem hesitar. “Eu própria cresci no campo. Do outro lado da minha escola primária tinha um prado cheio de ovelhas”, recorda. “Isto lembra-me claramente essa época”.
A poucos metros de Filipa, integrados no mesmo grupo da creche, Sara, de 31 anos, e José, de 30, aproveitavam a manhã para assinalar o Dia da Família. Naturais de Grândola, no Alentejo, confessam que não conheciam a existência deste espaço no meio de Lisboa. “Lá [no Alentejo] há muito este tipo de espaço, mas aqui não é comum. Portanto, termos as crianças na cidade expostas a isto é incrível”, aponta José, surpreendido com o conceito.
Para Sara, a visita serviu também para recuar no tempo e matar saudades. “Os meus avós vivem numa aldeia e tinham um monte com muitos animais. Passei lá a minha infância e foi muito bom recordar isso aqui hoje”, conta.
É precisamente essa vivência rural que o casal valoriza e quer agora transmitir à filha. José defende que o contacto com os animais e com a terra deixa marcas positivas para o resto da vida, usando a própria companheira como exemplo: “A Sara teve essa exposição quando era miúda. É uma coisa que a marca até hoje, aos 30 anos. É fantástico que a nossa filha e estes miúdos também o possam ter”.
No fim da visita, o balanço do casal alentejano não deixa margem para dúvidas e deixa um conselho simples a quem ainda não conhece. “Venham, que é fenomenal. É ótimo podermos estar em contacto com várias espécies num espaço que está tão bem cuidado. É muito agradável estar aqui”.









