Segundo o INE, cerca de 74% das famílias residentes em Portugal habitam em áreas predominantemente urbanas. Longe dos grandes centros, porém, há quem continue a escolher o campo como lugar para viver. Em São José da Lamarosa, no concelho de Coruche, fomos ouvir quem fica, quem parte e quem optou por regressar à terra.
Portugal é um país pequeno. Bastam alguns quilómetros para que o barulho dos carros e o típico stress diário das grandes cidades fiquem para trás, substituídos pelos sons e paisagens associados ao campo. São José da Lamarosa, freguesia ribatejana localizada nas imediações de Coruche, é exemplo disso mesmo.
Por aqui, o despertador dos seus cerca de 1500 habitantes é o canto do galo. O sino toca de 15 em 15 minutos. O ar que se respira é puro. A comida conserva o gosto da infância. É uma terra de “tranquilidade” — a palavra mais utilizada pelos habitantes —, onde há liberdade para andar de bicicleta na rua, ir de cesta na mão buscar os ovos às galinhas e onde todos se conhecem.
Mas será que este cenário (romantizado) agrada a todos? Portugal é também um dos países mais envelhecidos da Europa e é nas aldeias que mais se sente o peso da desertificação e das assimetrias existentes no país. As gerações mais novas continuam, em muitos casos, a deixar as suas famílias para estudar ou trabalhar nas cidades.
Foi este contexto que nos levou ao encontro dos habitantes locais. Cruzámos o quotidiano de duas famílias vizinhas e unidas pelo sangue — os Fôto e os Bacalhau —, cujos percursos retratam três gerações divididas entre o apego às raízes e a atração pela vida urbana.
“Gosto de sentir a terra nos pés”
É de forma calorosa que Raquel e Vítor Bacalhau abrem o álbum de uma vida passada entre o campo e a cidade. Filha da aldeia, Raquel trabalhou de dia e estudou de noite na cidade vizinha de Almeirim. Mais tarde, formou-se em Gestão de Empresas. “Podia ter ido trabalhar para fora, mas depois nasceram os meus filhos e ponderei muito estar ao pé deles, vê-los crescer. A minha mãe ficava com eles enquanto ia trabalhar… e isso é uma qualidade de vida que, por exemplo, não teria na cidade”.
Hoje, trabalha no Lar de São José da Lamarosa e diz, de forma apaixonada, que a preenche ter contacto com os idosos e ouvir os seus ensinamentos. Garante que se contenta com as pequenas coisas e que é isso que a move diariamente. “Gosto de sentir a terra nos pés”. Os seus pais trabalharam toda a vida na horta e ainda hoje, aos 53 anos, Raquel ajuda-os sempre que pode.
Casados há 28 anos, Vítor e Raquel conhecem-se há uma vida inteira. Foi o ritmo do baile da aldeia que os juntou. Raquel adorava dançar, Vítor adorava tocar — tinha uma banda com o irmão — e a música uniu-os. “Na cidade isso não existe, os bailaricos”, conta Raquel, com um sorriso.
Homem de poucas palavras, mas assertivo, Vítor mantém um semblante calmo e, de vez em quando, esboça um sorriso envergonhado. Trocou a sua aldeia natal, Azervadinha, para estudar Música e Informática de Gestão. “Um jovem com 18 ou 19 anos sair do campo e ir para a cidade é um mundo completamente diferente”, confessa. Durante muitos anos, fez o trajeto Lisboa-Lamarosa todos os dias. Ponderaram mudar-se para a capital, mas “a qualidade de vida que podíamos ter aqui fez-nos repensar e acabámos por ficar”.
Esta dança entre o campo e a cidade passou para a geração seguinte. O casal tem dois filhos que são opostos: João, o mais velho, “gosta muito da vida da cidade”; já Mariana será sempre uma a menina do campo.
“Sou menina do campo”
Mariana Bacalhau, de 23 anos, a mais nova da família Bacalhau, formou-se em Medicina Veterinária na Universidade Lusófona. De sorriso tímido, conta que decidiu estudar em Lisboa “porque estava mais perto de casa”. A verdade é que, concluído o curso, decidiu voltar à Lamarosa por se considerar uma “menina do campo”, gostar do ambiente e de estar perto dos pais e dos avós.
A recém-licenciada ambiciona o começo e a estabilidade de uma carreira no local que a viu crescer e onde sente “paz”. Garante que a capital não a assustou, pois visitava com regularidade o irmão, que já estudara em Lisboa. Confessa, ainda assim, que teve receio de “estar sozinha”, pois as amizades estariam à distância e a rotina seria diferente. Sempre com um ar sereno e com um sotaque ribatejano de que se orgulha,
Gosta de ficar em casa e diz que é no ambiente rural que se sente conectada, embora idealize trabalhar no estrangeiro. Desde que esse sítio para onde vá (temporária ou permanentemente) seja… tranquilo.
“Sempre senti que não tinha uma morada fixa”
João, o filho mais velho da família Bacalhau, trocou as voltas às origens. Aos 18 anos, foi estudar para Lisboa porque a oportunidade de emprego na sua área “não existe” na aldeia. “Gestão de Marketing não existe na aldeia, nem mesmo a terminologia é conhecida por alguns. São realidades e costumes diferentes”.
Ao contrário da irmã, diz que é “uma pessoa mais distante nessa questão do campo”. Adaptou-se bem a Lisboa, onde sente que encontrou a sua identidade e independência. “Acho que há coisas em que nós, crianças do campo, em comparação com as crianças da cidade, partimos em desvantagem. Somos um bocadinho mais agarrados, se calhar até mais infantis, porque há certas coisas que não vivemos ou só vivemos numa idade mais adulta — nomeadamente, transportes públicos e esta questão de muitas pessoas num espaço só”. Conta que foi importante aprender a viver sem o amparo dos pais. “É importante para qualquer jovem ter essa experiência de que há um mundo lá fora e tens de ser tu a descobri-lo e a vivê-lo”.
Apesar de tudo, não renega as origens nem o tempo em que jogava à bola a representar a aldeia. A distância e as saudades são suavizadas com chamadas para casa e, sempre que pode, volta ao campo para recarregar baterias e sentar-se à mesa em família.
“Nunca conhecemos outra vida, por isso gostamos”
A poucos metros da casa da família Bacalhau, batemos à porta dos pais de Raquel: a família Fôto. Residentes na aldeia desde sempre, nunca quiseram conhecer outra realidade, conta Fátima Fôto, de 71 anos, com um sorriso tímido e o linguajar típico da terra. Estudou até à quarta classe, algo normal para a época, e, terminada a escola, ajudou os pais na horta e na comercialização de cortiça.
É casada há mais de cinco décadas com Henrique, de 75 anos. O marido ordenhava gado e, mais tarde, trabalhou numa oficina. Hoje em dia, faz tudo na sua horta. “Que remédio”, diz a rir. Conheceram-se quando Fátima trabalhava numa pequena taberna e o então jovem Henrique lá ia de propósito para a ver. “Foi amor à primeira vista”, garantem.
Desta união nasceu Raquel Bacalhau. Os pais sentem-se orgulhosos por a filha ter “voado mais alto”, mantendo contudo as raízes no sítio onde cresceu. Ambos transpiram a calma aprendida com a terra, que os obriga a esperar e a gerir o tempo das colheitas. São felizes num sítio onde tudo se move devagar e onde, para o bem e para o mal, “pouco mudou”. Apenas a idade”, conclui Henrique com um sorriso.





