Quatro anos depois de Portugal e o mundo terem recebido milhares de ucranianos de braços abertos, na sequência da invasão russa, a guerra parece estar normalizada e longe do fim. Com o custo de vida a disparar, a urgência da fuga deu lugar à dura realidade da integração. Entre dificuldades em encontrar emprego, problemas burocráticos e duplas jornadas de ensino, estas famílias agarram-se a uma palavra de ordem: união.
Na pacata Assenta, aldeia ribeirinha localizada no concelho de Torres Vedras, é possível sentir uma lufada de ar quente mal a porta se abre. Lá fora é janeiro e chove. Dentro de portas, o ambiente é de conforto. Nesta pequena e apertada casa, onde existem apenas três quartos para onze pessoas, o sentimento é de união.
Orysia Skotnyana, viúva de 40 anos, vive com a sua mãe, a irmã e sobrinhos. É mãe de seis das oito crianças que aqui habitam. Natural de Lviv, em 2022 tomou a decisão de mudar de país devido à guerra. A oportunidade de vir para Portugal surgiu através da mãe, residente no país há 20 anos. Orysia não esconde as dificuldades iniciais e a necessidade de ajuda para sobreviver. “Quando chegámos não tínhamos nada”, relembra. “Toda a ajuda foi-nos dada pelos nossos conterrâneos da paróquia de Mafra da Igreja Ortodoxa Ucraniana. Deram-nos desde comida até camas para dormir”.
A viagem para Portugal ainda está bem presente na sua memória. “Foi a semana mais difícil da minha vida”, admite, de forma melancólica. O elevado número de membros da família dificultou todo o processo, desde logo nos meios de transporte. Em cada país em que paravam tinham que esperar durante horas e alimentar-se em tendas. “Graças aos voluntários, que nos enviavam de um país para o outro, chegámos a Portugal”.
Quatro anos depois, as questões económicas são a maior dificuldade, uma vez que continua sem trabalho e sem título de residência válido, devido aos muitos dependentes que tem a seu cargo. A língua portuguesa também foi uma barreira inicial, “o mais complicado foi para as crianças, pois não percebiam nada”, dificuldades que se foram dissipando com o tempo. “Passado um ano já entendiam português”.
A escola ajudou. A filha mais velha, Victorya Skotnyana, de 13 anos, teve uma adaptação relativamente orgânica. Na escola que frequenta, em Mafra, teve “muito apoio dos professores” e também dos vários colegas ucranianos. “O início foi horrível, não percebia nada”, confessa. “Agora é normal”. A adolescente confidencia que em Portugal a escola “é mais relaxada do que na Ucrânia”, com professores “mais ‘amigos’ e menos exigentes”. Ela que, ainda assim, gostaria de continuar a aprender em ucraniano — são muitos os jovens que continuam a ter aulas de ucraniano, ao fim-de-semana — mas devido ao dinheiro e aos transportes “torna-se quase impossível”.
Com mais ou menos dificuldades, o futuro desta família parece passar por Portugal. Victorya, à semelhança dos seus irmãos, confessa que não tenciona voltar ao país natal e é aqui que pretende acabar os seus estudos. Apesar da sua tenra idade, tem grandes ambições: “Quero ir para a universidade, ser veterinária, ajudar os animais. Custa admitir isso, mas já começo a pensar em ficar por aqui”.

“Os limites somos nós que os colocamos na nossa cabeça”
Para centenas de jovens ucranianos, o fim de semana não é sinónimo de descanso, mas sim de uma “segunda escola”. É na Escola Básica Pedro de Santarém, em Benfica, que a comunidade se reorganiza para garantir que a língua de Camões não apague a sua língua-mãe. Aquilo que os alunos aprendem durante uma semana na Ucrânia, aqui aprendem ao sábado. É como se fosse um segundo sistema de ensino, com disciplinas como matemática, física ou inglês, mas lecionadas em ucraniano e por professores ucranianos.
Ninguém conhece melhor esse desafio do que Iryna Shnaider, professora e diretora do serviço educativo “Dyvosvit”. “Antigamente, era muito difícil convencer as pessoas de que é necessário preservar a língua”, afirma. “Agora as pessoas compreendem essa importância e já não precisam de ser convencidas”. O aumento súbito de matrículas, devido à guerra, é apenas a face visível da mudança. Segundo a diretora, as inscrições aumentaram “três vezes mais”. O desafio não é apenas logístico, mas também de integração. Se antigamente a escola recebia, sobretudo, luso-descendentes já enraizados, hoje recebe crianças que fugiram ao som das sirenes.
Para aqueles que ainda têm dúvidas acerca da validade desta opção, a resposta de Iryna é pragmática: “Hoje, as salas de aula são ocupadas apenas por aqueles que estão realmente interessados. Percebem que este esforço não é um castigo, mas um investimento”. A diretora vê nisto “conhecimento multiplicado por dois” e cita um estudo canadiano comparativo para justificar o esforço extra. “Está provado cientificamente que as crianças que estudam em duas escolas têm um QI 30 por cento superior”.
Apesar de reconhecer as dificuldades por que passam os seus compatriotas, a pedagoga recusa vitimizações no que toca à adaptação e afirma que as possibilidades do povo ucraniano são ilimitadas. “Os limites somos nós que os colocamos na nossa cabeça. Se não podemos mudar esta realidade agora, não temos outra saída senão aceitá-la”, conclui.


“Esta guerra pode terminar simplesmente por vontade de Putin e aqueles que estão a governar a Rússia. Mas eles mostraram que não querem terminá-la”
A história da família Skotnyana repete-se, com variações, em milhares de lares por todo o país. Cerca de 60 mil refugiados ucranianos escolheram Portugal como lugar de abrigo — mais do dobro dos que aqui residiam. Imigrantes com medos, dúvidas e problemas burocráticos que, muitas vezes, desaguam num único sítio: a Associação dos Ucranianos em Portugal.
Na sede, localizada em Lisboa, Pavlo Sadokha gere a exaustão de uma comunidade que percebeu que o regresso ao país de origem está longe de ser para breve. É entre dossiês e pedidos de ajuda que o presidente da associação e economista empresarial tenta, há 16 anos, manter o barco à tona. “Todos os membros são voluntários”, avança, ele que também faz uso dos tempos livres para gerir a associação.
Segundo Pavlo, a adaptação dos refugiados tem acontecido com a maior das normalidades. Contudo, a procura de habitação tornou-se o “maior problema” para quem tenta ficar. A crise imobiliária é tal que já existem famílias a fazer o caminho inverso. Não porque a guerra tenha acabado, mas porque as rendas em Portugal se tornaram “insuportáveis”, empurrando-as de volta para a Ucrânia ou para outros países europeus.
A par da habitação, a burocracia continua a ser um pesadelo de papel. A prometida transição para cartões de residência definitivos tarda em chegar e milhares de ucranianos continuam dependentes de “um simples papel em formato A4”. Esta precariedade administrativa cria situações limite a quem tenta visitar a família. O documento português não parece válido aos olhos das autoridades estrangeiras. “Já pedimos várias vezes, nós e a embaixada, aos vários governos, para emitir cartões de plástico como se faz noutros países, mas esta solução não é ouvida”, afirma o presidente.
Em plena campanha para as eleições presidenciais, Pavlo diz-se tranquilo quanto ao futuro do apoio diplomático e militar português, até porque o consenso é claro. Desde 2014, a quase totalidade do espectro partidário mantém um compromisso inabalável com a defesa da Ucrânia. A única nota “dissonante” vem, segundo o presidente da associação, do Partido Comunista Português. “É estranho, porque são comunistas e apoiam um Estado imperialista”.
Quando questionado se 2026 trará finalmente a paz, descarta ilusões: “duvido”. Para o dirigente, o fim do conflito depende exclusivamente dos sinais que chegam de Moscovo, afirmando que a forma como estes estão a planear a sua economia indica o contrário. A única saída, aponta, seria “uma catástrofe na Rússia”. Descartado esse cenário, a conclusão é dura: “Esta guerra pode terminar simplesmente por vontade de Putin e daqueles que estão a governar a Rússia. Mas eles mostraram que não querem terminar-la”, conclui.
Até lá, Portugal continua a ser um porto seguro.






