Num domingo abrasador no Estádio José Martins Vieira, o apito final significou mais do que uma goleada por 4-0 frente ao Zambujalense. A vitória libertou um grito contido durante meses e assinalou a celebração de um emblema que caiu, reergueu-se e voltou a subir. O Clube Desportivo Cova da Piedade está de regresso à 1.ª Divisão Distrital e, mais do que os golos ou a classificação, o que se festeja é a afirmação de um projeto feito de alma, sacrifício e comunidade. Um clube que sobrevive não por luxo, mas por amor.
Depois de anos a competir nas ligas profissionais, o Cova da Piedade enfrentou a queda abrupta provocada pela dissolução da sua SAD, em julho de 2021. Com isso, caiu diretamente para os distritais, enfrentando uma realidade sem os recursos, a visibilidade ou o apoio que em tempos tivera. O presidente, Paulo Veiga, recorda o momento como “um divórcio doloroso”, mas assegura que nunca deixou de acreditar. “Aprendi a amar este clube”, diz. “Hoje, faz parte de mim como um órgão vital. Não posso deixá-lo morrer.”
Nos primeiros tempos na 2.ª Distrital de Setúbal, a desilusão pairava no ar. As bancadas esvaziaram-se, o entusiasmo desapareceu, mas ficaram a estrutura, a alma e a vontade de reerguer. O presidente e a sua equipa diretiva arregaçaram as mangas e decidiram construir um ‘novo’ Cova da Piedade, um clube sustentado na formação, nos valores e na comunidade. “Este ano, sentimos de novo os adeptos connosco. As pessoas voltaram a acreditar.”
“Temos um grupo que joga por paixão”
A tarefa não foi simples. Durante muitos meses, as condições não eram as melhores, os recursos escassos e os treinos exigiam uma dose de sacrifício adicional. Mas o grupo nunca vacilou. Henrique Silva, treinador da equipa sénior, chegou com ideias claras: construir um grupo competitivo, com identidade e espírito de pertença. “Aqui, ninguém recebe para jogar. Temos um grupo que joga por paixão. E, por isso, merecem ainda mais reconhecimento.”
O modelo não se baseia em remunerações, mas numa cultura de compromisso, onde a exigência técnica se alia a um ideal coletivo. “Quisemos praticar um futebol que justificasse a ida ao estádio, em que os adeptos dissessem que vale a pena sair de casa para ver o Cova da Piedade jogar.”
A filosofia do treinador encontrou eco num balneário jovem, mas cheio de histórias marcantes. Tiago Machado, avançado de 27 anos, é o espelho desse ideal. Começou no clube aos seis anos, esteve fora durante algum tempo, mas voltou para cumprir um sonho de infância: jogar pelos seniores. “Subimos com a casa cheia, contra tudo e contra todos. Foi o momento mais marcante da minha vida.”
O balneário tornou-se um espaço de união e entreajuda, onde a experiência de uns ajudava a elevar os mais jovens. Durante os treinos, era comum ver jogadores a chegarem cedo para treinar, mesmo sem obrigação, ou a ficarem no final a trabalhar aspetos específicos com o treinador. O compromisso não se vê só nos jogos; vê-se no quotidiano, no silêncio do esforço, na vontade de evoluir.
Na baliza, o exemplo repete-se. André Nabais, com mais de uma década no clube, diz sentir o Desportivo como casa. “Desde as camadas jovens até hoje, sempre senti orgulho em vestir esta camisola. Isto é uma família.” Diogo Silva, colega de posição, acrescenta. “Temos menos condições do que outros clubes, mas temos um espírito que poucos têm. Isso é que vale.”
Ambos partilham a ideia de que o clube está acima de tudo, inclusive da titularidade. “Apoiamos sempre quem joga. Aqui, todos lutamos pelo mesmo”, diz Nabais. As suas vozes refletem não só maturidade desportiva, mas também a noção de que, no Cova da Piedade, o mérito ultrapassa o individualismo.
O sucesso dentro de campo não se explica apenas com alma. Há trabalho de bastidores, existe uma estrutura. Pedro Silva, diretor desportivo, orgulha-se do que foi montado. “Mais de 95% do plantel sénior passou pela nossa formação. O nosso projeto é formar para jogar.” Ao invés de procurar reforços fora, o clube aposta nos seus.

“Aqui, todos têm lugar”
Esse esforço formativo começa muito cedo. O Cova da Piedade não vive apenas do futebol sénior. As “escolinhas do Desportivo”, fundadas em 1963, são hoje um projeto educativo e social que vai muito além do desporto. “Publicámos livros, damos bolsas, colaboramos com escolas. Aqui, todos têm lugar. Se um miúdo não pode pagar, não fica de fora”, garante Paulo Veiga. Profundamente enraizado na comunidade, o presidente assume o papel de agente de inclusão. “Queremos ser úteis à cidade. Queremos que o Cova da Piedade ajude a formar boas pessoas”, conclui.
O envolvimento do clube na vida local tem crescido, com visitas a escolas, atividades extracurriculares e iniciativas com jovens em situação de risco. O futebol torna-se, assim, uma ferramenta de integração, disciplina e ambição. Há crianças que descobriram um novo rumo de vida graças ao clube, e há famílias inteiras que voltaram a sorrir porque alguém acreditou nelas quando mais precisavam.

“Mesmo na 2.ª Distrital, nunca deixei de apoiar”
Nas bancadas, essa missão é reconhecida e vivida com intensidade. José Teixeira, adepto de 55 anos, acompanha o emblema desde 1994. “O Cova da Piedade é parte da nossa família. Pode-se mudar de mulher, mas não se muda de clube”, brinca. O filho jogou nos escalões de formação e agora voltou aos seniores. “Mesmo na 2.ª Distrital, nunca deixei de apoiar.” José viu o clube crescer, cair e reerguer-se. E nunca deixou de acreditar. Hoje, vibra com cada golo como se fosse o primeiro, sempre com um olhar atento e um orgulho sereno.
Não sendo natural de Almada, Diogo Gomes, 45 anos, aproximou-se do Cova da Piedade através do filho. Apaixonou-se pela cidade e pelo emblema. “É o símbolo da cidade e merece ser mais apoiado”, defende. Para este adepto, há um trabalho importante a fazer na mobilização da população. “Existe muita gente que vive cá e não conhece bem o clube. É preciso trazê-los para dentro.” Diogo defende, ainda, haver muito potencial por explorar, que o clube pode e deve assumir uma postura mais ativa na captação de novos públicos, nas escolas, nas empresas e nos bairros.
Patrícia Teixeira, 27 anos, representa a nova geração de adeptos. Irmã de um dos jogadores, esteve presente em todos os jogos da época. “Acho que os clubes da zona têm essa coisa bonita: quem apoia, apoia sempre, independentemente da divisão. Este ano, senti que as pessoas voltaram a apoiar o Cova da Piedade.” Para ela, a presença dos adeptos é fundamental. “Um jogo sem público não tem alma. E os nossos jogadores sentem isso.” Também acredita que o clube está a recuperar o seu espaço e a sua ligação à cidade. “Mas ainda há muito por fazer. Falta mais divulgação, mais envolvimento com as escolas e os jovens.” Para Patrícia, o regresso à 1.ª Distrital deve ser também o início de uma estratégia mais próxima da comunidade.
Depois da subida, segue-se um desafio ainda maior: enfrentar um campeonato exigente, com históricos como o Vitória de Setúbal, Fabril, Barreirense, Pescadores e Almada. Mas há confiança no grupo. “Não somos os que têm mais meios, mas somos os que têm mais alma”, afirma Henrique Silva. Paulo Veiga partilha da mesma visão. “Vamos continuar a crescer, passo a passo. Preferimos dar um passo atrás para dar dois à frente.”
O clube caiu, sim. Mas reergue-se com dignidade. E agora segue o seu caminho, passo a passo, com a convicção de que muito ainda está por construir. O regresso à 1.ª Divisão Distrital é apenas mais uma etapa e ninguém sabe ao certo onde poderá levar esta caminhada. Cada época é uma história por escrever. E esta, talvez, esteja apenas a começar.





