Nos últimos anos, o mercado de segunda mão tem vindo a ganhar cada vez mais espaço em diferentes áreas de consumo e a literatura não é exceção. Fomos visitar duas destas livrarias em Lisboa para perceber como funcionam e que estratégias promovem.
Está uma tarde de sol daquelas que convida a um passeio por Lisboa. À saída do metropolitano da Avenida de Roma, encontra-se uma livraria que convida a abrandar. A serenidade do interior contrasta com a agitação da cidade, um ambiente banhado por luz natural e preenchido por uma música suave. Cheira a livros.
É neste espaço, repleto de estantes organizadas por géneros literários, que encontramos Inês Toscano, dona da primeira e única Re-Read em Portugal. Com 50 anos, formada em Economia pela Universidade Nova de Lisboa, a proprietária conta que o seu último trabalho foi como diretora financeira, numa multinacional de recuperação de crédito, onde esteve 17 anos
Tudo mudou quando o marido, depois de uma viagem de trabalho à cidade espanhola de Granada, lhe sugeriu que abrisse uma livraria Re-Read. Com vontade de fazer algo diferente, Inês percebeu que o modelo desta cadeia espanhola — dedicada à venda de livros em segunda mão — também podia resultar em Lisboa. “Achei que isto era mesmo um projeto para mim”, acrescenta com um sorriso. Meteu mãos à obra e abriu portas no dia 25 de novembro de 2024.


Este modelo de reutilização de livros é ainda pouco explorado no nosso país. A responsável sublinha que o conceito está alinhado com as preocupações ambientais e económicas atuais, promovendo a economia circular. “Estamos numa época em que é fundamental consumir produtos em segunda mão”, acrescenta
Apesar da novidade da proposta, o público tem aderido e é muito diversificado. Inês conta que alguns dos clientes são moradores do bairro de Alvalade, mas há também quem se desloque de propósito de outras partes da cidade. Uma curiosidade e interesse que tem vindo a crescer, sobretudo “devido aos preços.”
Na Re-Read, os valores são fixos — modelo já definido em Espanha. Um livro custa 4€, dois livros 7€ e cinco livros ficam por 15€. “Os preços que praticamos são, de facto, muito mais baixos e isso torna os livros mais acessíveis.” Livros que são comprados a particulares, por um valor fixo de 25 cêntimos cada. Antes de serem colocados à venda, passam por um processo de seleção, limpeza e organização. Neste momento, há entre 10 a 12 mil livros disponíveis, mas Inês garante que existem “muitos mais” no armazém.
Não se pense, contudo, que o público deixa de ser exigente apenas porque os valores são mais em conta. A responsável explica que muitas pessoas procuram títulos já fora de edição, obras mais antigas ou de áreas específicas. Para responder a esta procura, a livraria disponibiliza no site oficial um sistema de alertas que permite aos clientes preencher um formulário. Caso o livro procurado chegue à loja, o cliente é contactado para o poder levantar.
Manter uma relação próxima com os clientes e a comunidade local é uma das maiores preocupações da livreira, desde logo, através da organização de eventos e da criação de um clube de leitura. Um trabalho exigente, mas no qual Inês acredita e que começa a dar frutos, garantindo que há planos de expansão para outras zonas do país e que já foi assinado o contrato de arrendamento para uma segunda loja na capital.
Livraria StuffOut: “É difícil daqui a uns anos uma livraria ser exclusivamente de primeira mão”
No número 70 da Rua da Quintinha, entre o Príncipe Real e S. Bento, encontramos a StuffOut. Ao abrir a porta, somos imediatamente denunciados pelo som dos sinos, sinal que faz o dono levantar os olhos do computador para espreitar quem chega.
Rui Castro, de 28 anos, é o proprietário desta livraria, a continuação de um projeto ligado à venda de livros usados que já desenvolvia online. O responsável conta que a ideia nasceu do seu gosto pela leitura e do desejo de ter um negócio próprio focado na segunda mão e na economia circular. A oportunidade de abrir um espaço físico surgiu e a livraria abriu portas no início de junho de 2021.
O público que visita a StuffOut é, também ele, muito diversificado, com leitores de várias idades, portugueses e estrangeiros. E os gostos são igualmente abrangentes. Rui não só acredita que existe um maior interesse pela compra de livros em segunda mão, como uma mudança de paradigma. “Os produtos usados eram vistos apenas como uma alternativa. Nos dias de hoje, especialmente entre os mais jovens, há uma preferência clara por adquirir artigos usados, valorizando um consumo consciente e sustentável.” Garante mesmo que existe “um gosto e um fazer questão de comprar em segunda mão”.
Convém, ainda assim, não confundir estes espaços com alfarrabistas. Ao contrário destes, a StuffOut não faz uma procura exaustiva e personalizada sempre que algum leitor procura um livro específico, mas garante que a equipa fica atenta às aquisições futuras e contacta o cliente caso o exemplar apareça. E como é que os exemplares aparecem? Através de doações, “desde que os exemplares estejam em condições mínimas para serem relidos”, mas também da compra e venda. A livraria compra mediante avaliação prévia, que pode ser feita na própria loja através de uma marcação ou, em alguns casos, com deslocação ao local onde as obras se encontram.

Quanto ao preço dos exemplares, é muito variado. Há exemplares a partir de 1,20€. Quando os títulos ainda estão disponíveis em livrarias novas, costumam ser vendidos por cerca de metade do preço original. Já os livros mais raros e antigos podem ter preços mais elevados. Na livraria física, há cerca de 4 mil livros disponíveis. No total, entre a loja e o armazém, contam-se aproximadamente 12 mil exemplares. Destes, cerca de dez mil são vendidos e repostos todos os meses.
O proprietário aponta que o maior desafio do negócio é económico, por ser uma circulação lenta, pois ao contrário de outros consumos, a compra em livrarias ocorre com pouca frequência. Acrescenta ainda que, em Lisboa, a pressão das rendas e o aumento do custo de vida complicam ainda mais a sustentabilidade do negócio. Sobre o futuro, acredita que este mercado vai crescer e acabar por se fundir com o da primeira mão. “É difícil, daqui a uns anos, uma livraria ser exclusivamente de primeira mão. As empresas e grandes marcas que vendem apenas em primeira mão não vão conseguir ignorar muito mais tempo a vontade dos consumidores de terem acesso a produtos usados”, conclui.






