A emoção do futebol também se vive pela voz de quem o narra. Nuno Matos é uma das vozes mais reconhecidas da rádio em Portugal. Natural de Santarém, o jornalista da Antena 1 conta com cerca de trinta e cinco anos de carreira como locutor. Nesta entrevista, fala do seu percurso, das dificuldades enfrentadas e dos objetivos para o futuro.
Iniciou a carreira nas rádios locais… começou na Rádio Piranha de Santarém, passou pela RDP Santarém, RDP Centro e esteve seis meses na Rádio Comercial até chegar à Antena 1, onde trabalha há mais de duas décadas. O que o motivou a seguir jornalismo desportivo e como foi o começo do seu percurso na rádio?
Costumo dizer que jovem sem sonho é jovem sem futuro e eu era um jovem com muitos sonhos. Recordo-me que, por influência do meu pai, ia desde muito novo aos jogos de futebol da União Desportiva de Santarém e gostava muito de ouvir aquelas noites desportivas na rádio e, portanto, eu tinha a ambição de um dia poder ser também um jornalista e narrador desportivo, esse era o meu sonho.
Gostava de futebol, mas gostava imenso da rádio, porque a rádio desde miúdo entrou no meu imaginário e fez parte da minha infância. Até por influência de um tio, que quando eu fiz sete anos me ofereceu um gravador com um microfone e eu fazia as minhas entrevistas em frente ao espelho. Entrevistava os meus pais, fazia os meus relatos desportivos com os cromos da bola. Desarrumava a casa toda, era um problema com a minha mãe, mas era aquilo que queria ser e eu tinha o sonho de poder atingir esse objetivo e muitos anos mais tarde o sonho tornou-se realidade. Demorou muito tempo a conseguir chegar onde eu queria, mas hoje sou um profissional totalmente realizado.
Comecei numa rádio local na altura das famosas rádios piratas, porque não havia ainda legislação para que essas rádios pudessem funcionar com os regulamentos necessários. Comecei por ser um ajudante, tinha de começar por algum lado. Já fazia os meus testes, punha os meus discos lá porque eu queria evoluir e um dia um pivô do programa Discos Pedidos faltou e não tinham ninguém, deram-me a oportunidade e eu agarrei-a. Fiz aquele programa durante cerca de um ano, fui convidado a ir para a RDP Santarém, fiz um programa que se chamava A magia do som, também ligado à música, mas o meu sonho era o desporto.
Um colega que ia fazer um relato da União Desportiva de Santarém teve um problema de saúde e eu fui convidado: “Vais fazer o relato da União Desportiva de Santarém com o Caldas”. Era um sonho para mim. Nunca tinha feito um relato na rádio até porque o meu passado vinha da música, mas lá fui. Eu já tinha boa dicção, falo rápido, consigo passar bem a mensagem, portanto já tinha lá os condimentos para aquilo poder correr bem. O diretor gostou e comecei a fazer cada vez mais jogos, fui evoluindo e aperfeiçoando. Hoje posso dizer: sou um profissional completamente realizado porque aquilo que eu sonhava fazer já fiz e muito. Tenho sete fases finais de Campeonatos do Mundo, agora com este Mundial que está aí à porta, e tenho sete fases finais de Campeonatos da Europa, várias finais europeias e uns Jogos Olímpicos. É um currículo (para mim) absolutamente fantástico.
Recorda-se bem desse primeiro jogo que relatou? Como foi a experiência?
Foi um jogo do campeonato da segunda divisão, União Desportiva de Santarém/Caldas. Deram-me essa oportunidade, eu queria muito agarrá-la, tinha o sonho de um dia poder ser narrador e aquela era a minha chance: agarrava ou deixava fugir. Apesar de estar muito nervoso — o facto de estarmos nervosos é sinal de que estamos preocupados e que queremos dar o nosso melhor —, correu bem. Estava longe de ser perfeito, mas para um primeiro teste acho que foi muito importante.
Quando tens paixão por aquilo que estás a fazer isso é muito importante, eu acho que isso talvez seja o mais importante de tudo. Eu vou muito às universidades e, quando falo com alguém que me diz que não tem bem a certeza, isso é mau. Tu tens de ter exatamente a certeza de qual é o caminho que queres seguir, acho que só assim se consegue ser um bom profissional.

“Tenho muitos anos de experiência, mas não é por causa disso que não vou preparar o jogo”
Como é o processo de preparação para o relato?
Um bom profissional tem de preparar o seu trabalho. Fiz a final do Campeonato da Europa de 2016 em que Portugal foi campeão (o momento mais alto da história do futebol português), mas se for fazer um jogo da Liga 3, 2 ou da distrital, preparo exatamente da mesma forma. Uma final do Campeonato da Europa tem muito mais impacto do que fazer um jogo da Liga 2, é normal, mas a preparação tem de existir sempre.
Tenho muitos anos de experiência, mas não é por causa disso que não vou preparar o jogo. É necessário olhar para as duas equipas, fazer o acompanhamento das equipas ao longo da semana, o que os treinadores disseram na conferência de imprensa, o sistema de jogo que uma e outra utilizam, tirar dados individuais dos jogadores, olhar para o histórico de confrontos entre as duas equipas. Tudo isso temos de preparar, porque temos obrigação para com os nossos ouvintes. Posso dizer que tenho ouvintes no mundo inteiro e o bem mais precioso que eu tenho são as pessoas que gostam do meu trabalho. As pessoas merecem o meu respeito. É chegar lá, fazer um bom relato, gritar um bom golo e agarrar as pessoas com o meu vocabulário e as dinâmicas do meu trabalho.
Sou um relator extraordinariamente emotivo, mas o meu ADN é que eu cruzo a componente informativa com a componente emotiva, e isso é que me dá ali uma mistura explosiva e as pessoas adoram. É habitual dizer-se que o melhor improviso é o que está escrito e eu tenho o cuidado de ter as coisas escritas, mas o meu ADN também é muito improviso, especialmente a nível das emoções, porque as emoções não se fabricam, sentem-se.
Há espaço para encenação ou tudo acontece de forma espontânea?
Depende. Sou um narrador que gosta de procurar boas dinâmicas. O futebol é um espetáculo, emoção e paixão, portanto, nas minhas narrações tenho de ser rigoroso, informativo e imparcial. Depois cada narrador tem o seu estilo. Eu não quero ser um narrador sensacionalista, sou um narrador extraordinariamente emotivo, gosto de colocar uma marca no meu trabalho. A marca do meu trabalho é informação, muita paixão e muito improviso. Mas, de uma forma geral, eu não gosto da encenação, e por isso é que as pessoas dizem que gostam da forma genuína como eu faço o meu trabalho. Se tu estás a fabricar emoções, se estás a encenar, as pessoas não gostam disso. Procuro não deixar morrer a transmissão com outras dinâmicas e com outro olhar não só para o jogo — não me vou afastar do foco —, mas procuro criar outras dinâmicas para a emissão não morrer. Na rádio dá para fazer isso, na televisão é mais difícil porque as pessoas estão a ver.
“Quem nos oferece esses momentos são os jogadores, porque eles é que são as estrelas. Nós agarramos ou não”
Foi distinguido com quatro Troféus Gandula, dois prémios atribuídos pelo Clube Nacional da Imprensa Desportiva, um prémio da Câmara Municipal de Paris e tem narrações integradas no Museu do Desporto no Brasil. Há algum relato que o tenha marcado de forma especial a nível pessoal?
10 de julho de 2016, Stade de France, Portugal a jogar com a seleção da casa, uma potência mundial. Eu, que tinha feito outros Mundiais e Europeus, e Portugal já tinha ficado com a espinha atravessada na garganta… Estar na final do Campeonato da Europa, um campeonato com sofrimento, uma primeira fase terrível com vários empates, Portugal esteve praticamente para ser eliminado e depois começámos a seguir passo a passo, e fomos sempre crescendo. Poder assistir a um jogo que foi um verdadeiro tsunami de emoções, e depois poder relatar o golo da vitória portuguesa, o momento mais importante, é épico e memorável. Tenho outros grandes momentos.
Antes do Mundial do Brasil, a TV Globo no Brasil atribuiu-me o prémio da narração do ano; foi um relato que eu fiz do jogo Portugal-Suécia, em que Portugal foi ao play-off para se poder apurar para o Mundial do Brasil em 2014. Modéstia à parte, agarrei muito bem os três golos de Cristiano Ronaldo e aí foi um jogo também memorável e que me levou a ganhar esse prémio. Quem nos oferece esses momentos são os jogadores, porque eles é que são as estrelas. Nós agarramos ou não.
O que sentiu naquele momento em que Portugal se sagrou campeão europeu?
Eu sou jornalista, mas sou português. Tenho emoções e também gosto que Portugal ganhe, tenho orgulho do meu país. Poder fazer um relato em que o meu país se torna campeão da Europa é para mim uma alegria imensa, de uma realização pessoal e profissional brutal. Foi um privilégio poder estar nesse momento, foi indescritível. Quando o árbitro apita e eu consigo dizer que somos campeões da Europa, olhar para as bancadas e ver aqueles portugueses que estão fora do seu país a poderem ter um momento para eles tão importante como aquele, as lágrimas a caírem pelo rosto… É como digo, há imagens que a memória não apaga mais. Vamos ver quando é que Portugal vai voltar a conseguir ganhar um Campeonato da Europa, um Campeonato do Mundo — Deus queira que seja o próximo.
“Quero ser um jornalista e um narrador global, quero poder chegar a todos”
A evolução tecnológica e o crescimento das plataformas digitais transformaram profundamente a forma como o público consome informação e conteúdos mediáticos. Qual considera ser hoje o papel da rádio num contexto dominado pela imagem e pelas redes sociais?
A rádio foi talvez dos órgãos de comunicação social que melhor se adaptou às novas plataformas. A rádio tradicional existe e até tem o seu encanto, mas tu hoje podes ouvir rádio no carro, nos telemóveis, em todo o lado, portanto a rádio adaptou-se muito bem. Hoje em dia, estou a fazer um relato e as pessoas estão a visualizar-me, estão a ouvir a minha narração e ao mesmo tempo a acompanhar as minhas reações no direto que estou a fazer. Eu trabalho na rádio, mas aproveito esta nova geração que são as novas plataformas, a era digital, para poder fazer esse acompanhamento, porque quem não acompanha hoje a era digital está morto.
No programa Postal do Dia, o escritor e jornalista Luís Osório sublinhou o impacto do seu relato durante a participação da Seleção Nacional no Euro 2024, destacando a sua narração como um dos elementos mais marcantes para os adeptos portugueses. De que forma recebeu este reconhecimento público e que significado atribui ao facto de o seu trabalho ter sido associado a um momento de grande relevância para o desporto nacional?
Com muito orgulho, ainda mais vindo do Luís Osório, que é uma pessoa por quem tenho enorme consideração, por aquilo que escreve e que transmite melhor que ninguém. Nem estava à espera de um elogio. Foi um momento alto da minha carreira. Se o Luís Osório sentiu isso, então eu estou claramente num bom caminho. Eu sinto também que estou no bom caminho quando o público jovem me adora; o futuro do país são os jovens. Penso assim: “Espera aí, tu já não és novo, antes pelo contrário, mas consegues ter uma empatia com os teus ouvintes dos zero aos cem”. E isso é brutal, porque eu não quero ser o jornalista da classe A, B ou C, eu quero ser o jornalista da classe A ao Z, quero ser um jornalista e um narrador global, quero poder chegar a todos.






