A presença do Sporting CP traz ao Jamor a habitual onda verde, mas é o SCU Torreense, de regresso a uma final da Taça de Portugal 70 anos depois, que dá à partida um simbolismo especial. O clube de Torres Vedras, vindo da II Liga, mobiliza uma cidade inteira em torno de um momento histórico. Um dia de convívio ímpar no desporto nacional.
Ainda faltam várias horas para o pontapé de saída e já o cheiro a carvão se mistura com os cânticos e as bandeiras na mata do Jamor, no concelho de Oeiras. Entre churrascos, famílias, grupos de amigos e adeptos vindos de várias zonas do país, a final da Taça de Portugal volta a transformar o Estádio Nacional num ritual popular que vai muito além dos 90 minutos dentro de campo.
O encontro decisivo tem grande importância para ambas as equipas. O Sporting procura terminar a época de 2025/2026 com a conquista de um troféu, enquanto o Torreense quer surpreender e conquistar um título histórico. O encontro conta com grande atenção mediática e mostra a importância da competição no futebol português.
Nas zonas exteriores do recinto, alguns adeptos comentam ainda as possíveis escolhas dos treinadores para o onze inicial e discutem as expectativas para o encontro. As conversas centram-se não só no resultado, mas também na importância que a conquista do troféu traz para a época de ambas as equipas.
A final começa bem antes do jogo. Para muitos, o Jamor é, sobretudo, convívio. “O futebol é isto, porco no espeto, beber uns copos todos juntos, boa música”, diz Daniel, 35 anos, adepto do Sporting, enquanto observa dezenas de pessoas espalhadas pela mata. “Há pessoas que entram para ver o jogo, outras ficam cá fora. É a festa da Taça.”
Ao longo da manhã, o ambiente vai crescendo. Famílias chegam carregadas de geleiras, mesas e cadeiras de campismo. Muitos adeptos não têm bilhete, mas recusam faltar ao ritual. “O ambiente é ótimo porque isto continua a ser popular, fora daquilo que querem fazer do futebol moderno”, acrescenta Daniel.
Junto aos acessos principais do estádio, dezenas de vendedores aproveitam o movimento para vender cachecóis, bandeiras, camisolas e chapéus alusivos ao encontro. O som das buzinas mistura-se com os apelos dos comerciantes, que tentam captar a atenção de quem passa. Há quem pare apenas para comprar uma recordação do dia, outros procuram completar a indumentária antes da entrada no estádio.
Muitas crianças jogam à bola, enquanto os pais aproveitam para descansar da viagem. O som constante dos cânticos mistura-se com risos e conversas que se prolongam durante toda a manhã. Em vários pontos, a rivalidade dá lugar à convivência, adeptos dos dois emblemas cruzam-se sem tensão, trocando palavras de respeito ou simples comentários sobre o ambiente.

“O Jamor é uma festa”
Para os sportinguistas, habituados a finais e grandes decisões, o Jamor é sempre especial. “O Sporting tem respeitado muito esta competição”, afirma António Alves, de 64 anos. “Espero que os sportinguistas saiam felizes deste dia de festa e alegria.” No meio da moldura verde e branca, o ambiente é de confiança, mas, acima de tudo, de respeito pelo adversário. António insiste nisso mesmo. “Temos de respeitar muitíssimo o Torreense para conseguirmos ser merecedores desta taça.”
Mais do que o resultado, o destaque vai para o o ambiente fora do estádio. “Nós somos diferentes por causa da festa, incluímos toda a gente”, diz Marco Macias, de 30 anos, enquanto abraça os amigos. Também Nádia, de 40 anos, destaca a ligação emocional ao clube. “Mesmo muitos anos sem ganhar, nunca perdemos a garra nem a paixão pelo Sporting”, explica. “Estamos sempre aqui a lutar pela vitória.”
O Jamor tornou-se, ao longo dos anos, um símbolo de tradição e de encontro popular, mantendo uma ligação forte com gerações anteriores. A ideia é partilhada por muitos dos presentes. A possibilidade de passar o dia inteiro no mesmo espaço, partilhando momentos com milhares de pessoas, transforma este dia num evento único no calendário futebolístico nacional. Entre memórias de finais passadas e a expectativa da partida atual, o ambiente ganha um carácter quase nostálgico: recordam-se finais anteriores, comparam-se ambientes, equipas e as emoções vividas ao longo dos anos.
“O sonho improvável do Torreense”
Do outro lado da mata, o ambiente vive-se de forma diferente. Setenta anos depois da última presença numa final da Taça de Portugal, o Torreense regressa ao Jamor e os adeptos carregam no rosto uma emoção difícil de esconder. “A sensação foi ótima, foi uma alegria enorme e um orgulho para Torres Vedras”, conta Carlos, de 50 anos. “Ao fim de setenta anos voltámos novamente ao Jamor. Mesmo sem jogar, já ganhámos.”
Entre fotografias ao estádio e vídeos para mais tarde recordar, os adeptos tentam absorver o que está a acontecer. “Somos diferentes em tudo, nas pessoas, nos valores e no clube”, diz Manuel, de 60 anos. “Torreense Sempre”. O facto do clube da cidade marcar presença na final, já faz desta época um ano histórico. “Esta época está a ser um orgulho”, afirma Diogo, de 25 anos. “Estamos na final da Taça de Portugal e a lutar para subir. Se sairmos daqui com uma derrota, não interessa, já estamos muito felizes por estar aqui.”
O contraste entre as duas massas adeptas acaba por definir o ambiente. De um lado, o Sporting e a experiência de quem já conhece o Jamor quase como se de uma segunda casa se tratasse. Do outro, um Torreense inesperado, movido pela emoção de um momento raro. Mas, durante horas, a diferença parece desaparecer e todos fazem o mesmo: cantar, beber e esperar pelo jogo.

À caminho do estádio, já a poucos minutos da partida, os cânticos tornam-se mais altos. Os cachecóis começam a erguer-se no ar e o ambiente ganha tensão. Também as roulotes e bancas de comida acumulam filas constantes. Entre bifanas, hambúrgueres e cervejas, muitos adeptos aproveitam os últimos momentos de convívio antes da entrada para as bancadas.
Tudo acalma após o apito inicial. No exterior, permanecem alguns adeptos que não têm acesso ao estádio, mas que decidem acompanhar o encontro a partir das zonas envolventes do Jamor, recorrendo a televisões portáteis e outros equipamentos improvisados para seguir a transmissão do jogo.
Independentemente do resultado final, o Jamor volta a afirmar-se como um espaço de experiência coletiva, onde o futebol se cruza com a cultura popular e a tradição. Entre a experiência e o sonho, entre o habitual e o improvável, a final da Taça de Portugal continua a afirmar-se como um dos momentos mais simbólicos do futebol português. Mais do que um jogo, um encontro de identidades, emoções e histórias que se cruzam durante algumas horas e que permanecem na memória de quem as vive.





![Tânia Laranjo: “[CMTV] não é sensacionalista, senão não era líder” Tânia Laranjo: “[CMTV] não é sensacionalista, senão não era líder”](https://ualmedia.pt/wp-content/uploads//2026/09/image1-2-360x240.jpeg)