Num laboratório da Faculdade de Ciências de Lisboa, uma equipa de investigadores recria compostos ilícitos para travar o seu impacto na saúde pública. Longe das sirenes e do aparato policial, a ciência corre contra o tempo para identificar novas substâncias antes que elas façam vítimas.
O movimento tão característico do Campo Grande e da cidade de Lisboa fica à entrada do Edifício C8. No quinto andar, um corredor estreito e escuro conduz à última porta: o laboratório B 5.6.1. O silêncio é apenas interrompido pelo zumbido das máquinas e pelo brilho das bancadas. Entre batas brancas, luvas azuis, frascos e folhas cheias de números, a equipa tenta desmascarar a química de psicoativos que, em 2014, circulavam livremente nas smartshops.
Nas montras dessas lojas, pacotes coloridos (que pareciam produtos banais) eram, à data, vendidos à luz do dia e sem qualquer aviso sobre o impacto no corpo. Foi esse contraste entre aparência normal e risco desconhecido que levou Helena Gaspar, de 56 anos, professora e investigadora no Departamento de Química e Bioquímica da FCUL, a entrar nesses espaços e a perceber o que havia por detrás das prateleiras. Ao balcão, os funcionários aconselhavam com uma naturalidade inabalável, embora a cientista admita que, na altura, não fazia “a mínima ideia” do que aqueles produtos continham.
A resposta a esse desconhecimento exigia ciência. A docente comprou os produtos e levou-os para a sua bancada. Começou pelas matrizes vegetais, mas os pós sintéticos depressa exigiram a sua atenção. A experiência de mais de duas décadas a identificar moléculas complexas sem qualquer padrão de referência foi decisiva. “Comecei a analisar os pós com as minhas técnicas, a identificar os produtos e a ficar muito preocupada”, recorda. O pior cenário confirmou-se: circulavam fórmulas sem controlo, desconhecidas e “altamente perigosas”.
A gravidade dos resultados saiu depressa do plano académico quando Helena pensou nos filhos adolescentes. Aquelas misturas podiam circular em festas, passar de mão em mão e chegar a jovens incapazes de avaliar a toxicidade do que tinham diante de si. A especialista levou o alerta para casa, explicou o risco e pediu-lhes que a informação chegasse aos amigos. “Foi assim que comecei isto tudo: para tentar proteger os meus filhos. Foi a mãe cientista a agir, com a capacidade protetora que as mães têm”, confidencia, com um sorriso.
“As pessoas têm uma ideia muito exagerada da Química. Acham que é só misturar compostos malucos, criar várias cores e pôr chamas nas coisas”
Esse gesto de proteção ultrapassou a família e tornou-se uma colaboração dupla. A Polícia Judiciária envia apreensões para o laboratório quando não tem padrões de referência para as identificar. Já a Kosmicare, associação de drug checking, pede ajuda quando testes rápidos em festivais deixam dúvidas sobre a composição de uma droga. As origens mudam, mas a exigência mantém-se: transformar a incerteza numa identificação exata.
Atribuir um nome é apenas o ponto de partida. Perante uma estrutura inédita, a equipa recria a molécula em pequenas quantidades e em segurança. O objetivo não é vender, mas criar uma referência que permita reconhecê-la se voltar a circular.
Não são, contudo, apenas especialistas veteranos a executar esta tarefa. Sofia Camões, de 20 anos, e Tomás Roque, de 24, frequentam o terceiro ano de Química e assumem uma responsabilidade rara nesta fase. Longe de aceitar um papel de observadora, a estudante prepara a base química que permitirá descodificar novos estupefacientes. “O nosso trabalho é tão importante como o dos restantes membros da equipa”, sublinha.
Para o colega, a exigência ganha forma atrás do vidro de uma hotte de ventilação. Prepara-se para manipular bromo, reagente tóxico usado na construção de catinonas, próximas das anfetaminas. A máscara respiratória e os óculos denunciam o perigo, mas a cena afasta-se da imagem criada pelos filmes: “As pessoas têm uma ideia muito exagerada da química. Acham que é só misturar compostos malucos, criar várias cores e pôr chamas nas coisas”, descreve o licenciando. Não há explosões espetaculares, apenas “uma paciência cega perante a monotonia” de lidar com incontáveis “pós brancos e aborrecidos”.
Helena reforça essa distância entre ficção e ciência quando fala da identificação. “Não pomos um produto numa máquina e sai a resposta do outro lado. Não é assim”, alerta a docente. Da entrada da amostra ao veredicto, escolhem-se técnicas, cruzam-se espectros e eliminam-se falsas pistas. O resultado nunca surge por magia — constrói-se pela confirmação exaustiva.

“Não queremos que as únicas pessoas a fazê-las sejam as que as estão a vender para lucrarem num mercado negro”
A corrida contra o tempo nasce da velocidade das ruas. Enquanto a ciência tenta fixar padrões, os circuitos clandestinos alteram receitas para contornar a lei. Basta uma mudança molecular mínima para tornar a droga mais destrutiva. Ao sintetizá-la primeiro, a equipa antecipa-se. “Não queremos que as únicas pessoas a fazê-las sejam as que as estão a vender para lucrarem num mercado negro”, remata Tomás.
No caso dos nitazenos, a tensão passa para Sofia. Estes opioides fortíssimos, comparáveis ao fentanilo, exigem reações longas e margem de erro quase nula. “Basta um pequeno descuido e o meu trabalho de dias ou semanas fica todo arruinado”, confessa. “Ganhamos uma sensibilidade pelas pessoas que são prejudicadas”, explica, consciente do risco. “As overdoses podem ser muito mais drásticas e rápidas”. Quando a estrutura química está definida, a investigação avança para as incubadoras. Saber o que é o composto já não basta: é preciso perceber o que faz quando entra em contacto com células humanas.
Miriam Veloso, mestranda de 26 anos, assegura esta passagem para a biologia. Ao passar dosagens dos frascos para culturas biológicas, encontrou a rebeldia da vida microscópica: “As células quase têm vontade própria. É imprevisível perceber como vão reagir”, constata. O processo obriga a recuar, refazer planos e acumular horas invisíveis, sustentadas por uma “repetição exaustiva”.
A imprevisibilidade da matéria viva não desaparece com os anos. A ciência aprende a antecipá-la. Rita Pacheco, de 52 anos, professora adjunta no ISEL e investigadora no Centro de Química Estrutural da FCUL, sente o desgaste desta dedicação diária. Ao contrário das substâncias, as células exigem alimento, vigilância e estabilidade, ignorando o calendário. “Não há fins de semana, não há feriados e não há férias. Não podemos deixar as células sozinhas”, adverte.
“A ciência tem este grande problema: só se publicam os sucessos e não os insucessos”
Mesmo com todos os cuidados, muitos exercícios obrigam a recomeçar. Para a orientadora, o obstáculo não está no erro da pesquisa, mas na forma como a comunidade académica lida com a falha. “A ciência tem este grande problema: só se publicam os sucessos e não os insucessos”, aponta. “Os insucessos é que nos ensinam que existem mais caminhos possíveis”.
A convivência com resultados incertos afasta a equipa da ideia de uma ciência feita só de moléculas puras. As drogas chegam cortadas, adulteradas e envoltas numa composição caótica. “O que anda por aí não são moléculas puras — é a mistura de tudo e mais alguma coisa”, avisa Rita, justificando a dificuldade dos testes.
Responder a esta roleta russa química exige tempo, rigor e fundos que escasseiam. Apesar de o laboratório ajudar apreensões policiais, orientar intervenções de drug checking e converter dúvidas em informação útil, o esforço continua sem financiamento externo garantido. Helena assume a fragilidade do sistema: “No fundo, estou a fazer um trabalho voluntário. Ninguém paga estas análises, nem o drug checking nem a polícia”-
Novas substâncias continuarão a aparecer nas ruas. Algumas obrigarão a repetir ensaios longos. Outras deixarão à espera de respostas que podem chegar tarde. Em cada estrutura decifrada, mantém-se a missão: perceber a ameaça antes que alguém a descubra no próprio corpo. Para a docente, esse esforço já não se mede em reconhecimento. “Se com o meu trabalho puder evitar que uma pessoa morra, já me dou por feliz”, conclui.







