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Quando a ansiedade não mata, mas… mói

Patrícia Campos 17 Mai 2016 Reportagens

Ana, Sofia e Filipa são jovens e sofrem de ansiedade. Confessam a pressão que sentem na escola e explicam como combatem os momentos de maior stress.

O relógio marcava as 15h na Escola Secundária Padre António Macedo, em Vila Nova de Santo André. O objetivo da visita era saber mais acerca de um tema que ainda é considerado tabu nos dias de hoje: a ansiedade. Os interlocutores também já estavam escolhidos: os alunos e respetivos professores.

Quando começou a conversa, Ana parecia um pouco desconfortável. A causa desse estado de desconforto podia passar pela reticência em falar do seu caso ou pelo pé partido. Mas isso não foi um impedimento para as questões que lhe foram colocadas, às quais, surpreendentemente respondeu calmamente. Afinal, a primeira impressão não passou disso mesmo.

Tem 15 anos e frequenta o 9º ano na Escola Secundária Padre António Macedo. Ana começou por contar que não existem motivos específicos para andar ansiosa. É assim que se sente todos os dias. “Tenho várias vezes falta de ar e começo a transpirar imenso”, explica. Quando questionada sobre a forma como combate o desconforto que a ansiedade provoca, Ana confessa que todas as manhãs toma um comprimido e acrescenta: “ando com outro na mala para o caso de piorar”.

Quando chegam os momentos de avaliação, fica extremamente ansiosa e o coração começa a bater muito forte, explica ao levar a mão ao peito. A solução para se acalmar é “comer chocolate”, confessa entre risos.

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Ao contrário de Ana, Sofia e Filipa não lidam com a ansiedade diariamente, mas em episódios com alguma periodicidade. Têm ambas 13 anos. Os momentos de ansiedade manifestam-se apenas quando as avaliações se aproximam. Contudo, Sofia é um pouco nervosa por natureza, mas não é coisa que se note ao longo da conversa. Aliás, conversa não lhe falta. Começa por confessar que, quando entrou para o liceu, tinha medo dos mais velhos. Ainda hoje se sente incomodada se algum passar por ela.  Confessa ser uma aluna aplicada, estuda todos os dias e só não o faz quando não pode. Mesmo assim, sente sempre um nervosismo quando as alturas das avaliações se aproximam. Quando quer descrever esses momentos mais tensos, ela não sabe explicar bem, mas acaba por dizer: “O meu coração parece que está sempre a bater muito, e às vezes sinto-me quente.” Por vezes, o nervosismo é tanto que não o consegue combater, mas quando o faz, inspira e expira, conta até dez e já acabou.

Filipa sempre sentiu motivação para ir às aulas, reconhece que o tem de fazer para o bem do seu futuro. Os testes são uma preocupação, mas as orais são o que a deixa mais nervosa. Confessa que é tímida. No seu caso, as preocupações manifestam-se de uma maneira menos saudável. “Normalmente, uma semana antes dos testes, custa um pouco a deixar-me dormir”, explica. Para contrariar este estado nervoso, Filipa gosta de ler, aproveita para rever a matéria e pensar positivo.

A palavra dos professores 

Os sintomas referidos por estas alunas são apenas alguns dos que compõem o conceito de “ansiedade”.  A professora Luísa Ribeiro ajuda a desmistificar este tema. “A ansiedade, por definição, é uma preocupação excessiva e, ao ser excessiva, já deixa de ser saudável. Existem outros estados que são muito parecidos com a ansiedade, como, por exemplo, angústia – quando sentimos outro tipo de sintomatologia física. Depois, a ansiedade pode-se revelar em picos de ataques de pânico. São coisas um pouco diferentes, mas que estão ligadas à ansiedade”, continua a professora, doutorada em Psicologia. Uma questão que temos de ter em atenção é o momento em que as crianças deixam de querer fazer as rotinas do dia-a-dia, devido à ansiedade.

Ana, por exemplo, gosta de se refugiar em casa. Admite que há dias em que não lhe apetece sair, prefere ficar a dormir e não ver ninguém. “Há dias em que me sinto muito triste, mas há outros em que me sinto muito feliz”, acrescenta. Sem razão aparente, nestes últimos meses é assim que lhe apetece estar.

Quando o quotidiano é posto em causa devido à ansiedade começa a tornar-se um problema. Luísa Ribeiro salienta que, “quanto mais exacerbada for a ansiedade, mais vai interferir com o dia a dia da pessoa. Se a pessoa está ansiosa mas consegue ir trabalhar é uma coisa, mas se a pessoa está ansiosa, com um ataque de pânico, e não consegue sair de casa, claro que isso tem consequências diferentes”.

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De acordo com estudos realizados no Reino Unido e nos EUA, e publicados num artigo da Oficina de Psicologia, cerca de 2% a 4% das crianças com idades compreendidas entre os 5 e os 16 anos, sofrem de ansiedade. Quando uma criança entra para a escola, não sabe que vai ter um peso tão significativo na sua vida, nem uma interferência tão grande no seu bem-estar físico e psicológico.

Patrícia Figueira, 43 anos, professora de Educação Física, dá a sua opinião relativamente às responsabilidades da escola: “Penso que se exige muito da escola, penso que tem de haver um aumento das responsabilidades também a outros níveis. Há uma competição atroz e, na minha opinião, a escola não está adaptada às pessoas, aos jovens.”

Apesar de a sua profissão exigir um gosto especial por aquilo que faz e pelo local de trabalho, Patrícia mostra-se desiludida com o sistema e tenta recordar aos seus alunos que a escola não pode ser o mais importante. A professora refere que “alguns alunos têm a escola como prioridade de vida e isso não faz sentido. O meu objetivo é desconstruir isso um bocadinho e faço-os lembrar que, primeiro, são pessoas, primeiro, têm família e há valores que têm de ultrapassar”. Para ela, é importante que se pense nos alunos como pessoas e não como notas e números, mas o seu trabalho assim o exige.

Maria Salgado Gomes tem 62 anos e uma perspetiva uma pouco diferente. Começa por dizer que não é contra o facto de se responsabilizarem as crianças e os jovens, até porque, na sua opinião, devem ser responsabilizados desde cedo para as tarefas e para a escola. Mas concorda que também tem o seu senão. “Isto tem de ser feito com cuidado, conta, peso e medida, porque uma pressão exagerada a esse nível vai desenvolver uma maior ansiedade”, conclui a professora de História.

A professora Sónia Deus, 45 anos, é especialista em questões ligadas especificamente à ansiedade no liceu. Concorda com o facto de os mais novos estarem a ser cada vez mais assoberbados com responsabilidades, por exigência dos professores, mas também devido à pressão exercida por parte dos pais. Defende que isto está a fazer com que haja um aumento da ansiedade por parte das crianças e jovens. Diz que está sempre com atenção ao comportamento dos alunos, defendendo que é importante que assim seja, que haja uma deteção rápida, para que a prevenção e o nível de atuação sejam o mais rápidos possível.

“Nós, enquanto professores, temos formação e agora estamos a dar formação a outros professores exatamente para conseguirem detetar  para fazermos a tal prevenção. Se achamos que eles podem estar com ansiedade, ataques de pânico ou depressão, temos que falar com os diretores de turma, com os encarregados de educação e o psicólogo da escola. Depois, se for caso disso, direccioná-los para o centro de saúde e para as consultas de psicologia ou psiquiatria, consoante já seja o caso”, conclui, afirmando ainda que, “de ano para ano, notamos essa ansiedade a aumentar”.

Mitos ligados à ansiedade

De acordo com o professor Csongor Juhos, psicoterapeuta, professor universitário no ISPA, membro da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e membro da Ordem dos Psicólogos Portugueses, ainda existem muitos mitos associados este transtorno.

Eis alguns deles:

  • Desmaiar ou perder o controlo
  • Evitar o stress
  • A medicação cria dependência
  • A medicação é o melhor tratamento

A ansiedade ainda é vista como um tabu e, como tal, muitas vezes os recursos não são procurados por quem necessita. No caso dos alunos, os professores reconhecem que eles procuram mais rapidamente os pares ou os próprios professores para desabafarem do que os serviços oferecidos a nível escolar. Segundo a professora Luísa Ribeiro, ainda existe um certo estigma, a nível social, relativamente às pessoas que pedem este tipo de ajuda e, se tal não existisse, a procura seria maior.

Mas, na verdade, as condições para a oferta deste tipo de serviço também não estão reunidas. Maria Salgado Gomes e Patrícia Figueira dão conta da existência de uma psicóloga no liceu, mas reconhecem que é muito pouco para a quantidade de alunos, visto que os seus serviços estão à disposição de todo o agrupamento. “É uma para 600”, conta Patrícia. Já Sónia acrescenta que a psicóloga também não está só vocacionada para estes assuntos.

Luísa Ribeiro defende que a figura do psicólogo escolar é muito importante, na medida em que, “muitas vezes, as crianças mais ansiosas têm problemas na sala de aula. Pode ser ao nível do comportamento, mas às vezes não é. São crianças ou jovens bem comportados, mas isso acaba por ter repercursões no seu comportamento”.

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Para além dos professores e psicólogos, a ação dos pais é bastante importante. É fundamental que estejam sempre atentos aos comportamentos dos filhos, que eles melhor do que ninguém conhecem. “Estarem atentos se a criança anda mais irritadiça, mais nervosa, se tem problemas de sono, se tem problemas no rendimento escolar”, explica Luísa Ribeiro. No entanto, é preciso ter em atenção o excesso de conforto e atitudes que possam alimentar a ansiedade e não contribuam para uma forma de a enfrentar.

Ansiedade: como diagnosticar

Para que as consequências não sejam graves, é preciso que o diagnóstico seja realizado atempadamente, de maneira a que o tratamento não seja tardio, para que não existam sequelas: “É frequente quando, nestas situações, não se recebe ajuda haver tendência a piorar. É  muito difícil melhorar sozinho e a tendência é a pessoa entrar numa espiral”, sublinha Luísa Ribeiro. Para além disso, também é necessário “compreender, através da criança ou do adolescente, se já há um comportamento mais ansioso ou não. Só explorando o problema é que se deteta se, realmente, esse é o foco, se é uma questão de ansiedade ou se há outras problemáticas associadas”.

Quando questionada sobre a perceção que as crianças têm sobre este assunto, explica que elas têm noção que passam por dificuldades: “Muitas vezes, as crianças acham que estão mal porque elas próprias fizeram alguma coisa de errado ou porque são menos inteligentes ou menos qualquer coisa do que outros. Não têm um pensamento cognitivo tão desenvolvido como têm os adultos.” Nestes casos, as crianças e os jovens conseguem relativizar mais as coisas, mas reconhecem que existe uma diferença de comportamentos entre eles e os colegas, e que têm uma dificuldade acrescida.

Csongor Juhos explica no seu site que, “apesar de os problemas com a ansiedade serem as dificuldades psicológicas mais frequentes em crianças, muitas vezes são negligenciados. Na escola, elas podem não chamar a atenção dos professores porque esta problemática não interfere com a aprendizagem. Na família, o problema pode passar despercebido porque, frequentemente, os próprios pais são ansiosos e os sinais de alarme passam despercebidos porque todos os têm”. Acrescenta ainda, que “o desespero destas crianças é frequentemente negligenciado, porque elas são conscienciosas na escola e em casa, e o seu constante estado de alerta fica camuflado”.

Pais e professores devem estar atentos aos comportamentos das crianças para que, caso se verifique algum sinal de alerta, o diagnóstico e o tratamento sejam feitos atempadamente. Caso contrário, a tendência será um agravamento progressivo deste transtorno.

    
2016-05-17
Autor UALMedia
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