Na Cruz Quebrada, concelho de Oeiras, encontra-se uma das poucas lojas do país especializada na venda, afinação e restauro de pianos. Uma espécie de território sagrado onde instrumentos há muito esquecidos ou silenciados ganham o seu brilho e som original.
Logo à entrada, somos surpreendidos pelo cheiro intenso a madeira envernizada e damos de caras com duas das pessoas responsáveis por tudo o que aqui se passa. Édgar Fontes é técnico da área sonora. Noemi Erika trata da parte mais estética dos instrumentos. Com três salas espaçosas no piso térreo e uma oficina com várias bancadas no andar cimeiro, a Fernando Rosado Pianos, loja localizada na Rua Bento de Jesus Caraça, é um nome incontornável para quem pretende comprar, afinar ou restaurar um piano.
Edgar fala sobre o seu trabalho nesta loja “única” fundada em 1989. “Gosto do que faço. Desde criança que sempre adorei música e o meu trabalho aqui é reflexo disso.” O afinador assegura que cada piano tem a sua história. “Temos pianos que passam por aqui regularmente e outros que estavam há anos sem que ninguém lhes toque. O nosso trabalho passa por garantir que os instrumentos ganhem vida.”
Restaurar um piano não é, contudo, uma tarefa simples. Cada instrumento requer uma abordagem personalizada. Uma combinação de ciência, arte e paciência, como explica Erika. “Quando um piano chega à loja, a primeira coisa que temos de fazer é avaliá-lo de forma completa.” É preciso ver como se encontra a parte interior, as cordas, o teclado e a parte externa. “Em alguns casos, o restauro não é muito complexo, mas eu diria que, na maioria deles, fazemos quase um piano novo.”
Erika fala também sobre a solidão associada a este trabalho. “Trabalhar como restauradora de pianos envolve muito silêncio e solidão. Passo cinco ou seis dias por semana maioritariamente sozinha, porque muitas vezes o Edgar está a afinar os pianos lá em baixo e eu aqui em cima na bancada a acabar restauros.” O que a salva é a música. “Trago os meus auscultadores, que dão uma certa ajuda. Quando não os tenho só ouço as ferramentas. É um trabalho solitário que exige um certo gosto e uma certa adaptação.”

Entre a tradição e a modernidade
Com o crescente uso de pianos digitais, menos dispendiosos e com menor manutenção, lojas como Fernando Rosado Pianos enfrentam grandes desafios para preservar a tradição do piano acústico. Ainda assim, tanto Édgar quanto Erika acreditam que o piano tradicional nunca perderá o seu valor. “O som de um piano acústico é algo único. O piano digital até pode ser mais conveniente, mas nunca será a mesma coisa”, afirma Édgar. “Ainda existem muitos músicos que preferem restaurar um bom piano a investir em um digital.”
Enquanto houver música, haverá pianos e espaço para a arte do restauro. “Não reparamos apenas pianos, damos vida a algo mais profundo, porque a música não é barulho só em si. É arte. Arte que molda a nossa sociedade”, refere Erika.
A loja adaptou-se aos tempos modernos dispondo de um site, redes sociais e oferece também serviços online. Segundo Erika, a pandemia acelerou este processo, permitindo com que se conectasse ainda mais com os clientes. “Começámos a fazer avaliações por video e até oferecemos dicas de manutenção aos nossos clientes. Esse período trouxe uma dinâmica diferente, mas ainda assim, conseguimos manter a proximidade com os clientes, algo que procurávamos que não se perdesse com a pandemia.”
Histórias que ficarão para sempre
Entre os muitos pianos que passaram pela loja, há histórias que ficam na memória do staff. Um dos casos mais marcantes para Édgar envolveu um piano que estava em péssimo estado. “Era um piano antigo, mas de grande qualidade. O dono, um senhor já idoso, trouxe-o para restaurar porque tinha sido o piano do seu avô e ele, visto que a neta estava a aprender a tocar, gostaria que ainda tivesse o privilégio de a ver a tocar nele.” Um piano com muita ferrugem, as cordas quase todas partidas e a madeira bastante riscada. “Foi um trabalho demorado, mas quando terminamos foi fantástico. Foi um dos trabalhos que mais me marcou.”
Erika partilha também uma lembrança que guardou com carinho. “Era um piano de uma escola de música e já estava bastante desgastado. Quando o recebemos, estava cheio de marcas e riscos, mas a mecânica ainda estava relativamente boa.” Após o restauro, conseguiram devolver o piano à escola, onde ainda hoje é usado pelas crianças. “A sensação de saber que o nosso trabalho ajudou e ajuda novas gerações de músicos é algo gratificante para mim.”
Uma história ainda mais significativa para Erika aconteceu quando teve a oportunidade de acompanhar Fernando Rosado, o fundador e proprietário, para afinar um piano de Maria João Pires. “Foi uma experiência única. O piano era muito valioso, dos mais bonitos que já tive oportunidade de ver e a Maria João Pires tratava-o como se fosse um filho. Ela própria estava interessada no processo de afinação, fazendo questão de ver os ajustes que realizávamos. Foi marcante ver como uma pianista reconhecida internacionalmente se importa tanto com cada detalhe do instrumento.”
Três conselhos para conservar o (seu) piano
Para terminar, Edgar e Erika deixam três conselhos para quem deseja manter o seu piano em bom estado. Desde logo, a afinação regular. “Um piano deve ser afinado pelo menos uma vez por ano, mesmo que não seja tocado com frequência.” A proteção contra a humidade é igualmente obrigatória. “A humidade é o pior inimigo. O piano deve estar numa sala com temperatura controlada, longe de fontes de calor e janelas.” Para terminar, a manutenção mecânica: “se perceber que as teclas estão duras ou o som está estranho, chame um técnico. Problemas pequenos tornam-se graves se não forem corrigidos a tempo.”
À saída da loja, conseguimos ouvir as teclas de um piano que acaba de ser afinado, lembrando-nos o poder da música. Fernando Rosado Pianos não é apenas uma loja: é um lugar onde a arte e a tradição se cruzam, onde cada piano conta uma história.