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-Início»Entrevistas»Filipe Melo: “Estudava piano durante o dia, à noite via filmes de terror”

Filipe Melo: “Estudava piano durante o dia, à noite via filmes de terror”

Paulo Teixeira 20 Jun 2017 Entrevistas

Homem dos sete ofícios e mais algum, Filipe Melo conseguiu arranjar tempo para a organização das Sessões de Culto, que decorrem no Espaço Nimas, em Lisboa. Uma quarta-feira aleatória de cada mês, é por ele apresentado um filme que nunca foi exibido no circuito comercial. Para além de deliciar os fãs do insólito, estas sessões têm contado com a presença e participação de alguns dos realizadores dos filmes escolhidos.

Ao som harmonioso do piano e na companhia dos afáveis felinos, Simba e Mufassa, no seu home studio, em pleno coração de Lisboa, Filipe Melo, escritor, músico e realizador de 39 anos, fala um pouco mais sobre as Sessões de Culto e do despoletar da paixão pelo cinema, em específico, pelas películas de terror.

Escritor de banda desenhada, músico, compositor, realizador, professor, com participação recente num podcast ao lado do Nuno Markl e do Bruno Nogueira, e ainda marido, conseguiste arranjar um tempinho para as Sessões de Culto, que arrancaram em 12 de Outubro de 2016. Gostava que me falasses um pouco sobre estas e também qual o significado delas para ti?

Ok, vou fazer o seguinte: vou encostar aqui a porta e vou explicar porquê. Depois dessa introdução, a minha mulher fica com desculpa para me gozar durante algum tempo. [Risos] Então, vamos cá ver. Há uns tempos, recebi um telefonema da Leopardo Filmes, a empresa do Paulo Branco [produtor e distribuidor de cinema]. O convite era para programar lá uma quarta feira por mês e tinha carta branca para escolher o filme que me apetecesse. Então pareceu-me uma ótima desculpa, não só para pôr filmes que gostava muito de ver na companhia de outras pessoas, como para convidar as pessoas que os fizeram, e poder, de alguma forma, entrar naquele modo de fanboy e fazer perguntas.

“Uma coisa que gosto muito nos filmes é a experiência de vê-los com outra pessoa que ainda não os viu”

Uma pessoa quase que está a ver o filme outra vez. É quase como transformar aquilo numa gigante sala de estar. É um bocadinho o que acontece, porque muitas vezes programo um filme que alguém viu e leva alguém que não o viu para ter essa sensação. Tem sido isso e já estamos há meio ano a organizar estas sessões.

O filme “Dellamorte Dellamore”, realizado por Michele Soavi, que é baseado num romance do Tiziano Sclavi, de 1991, esteve em exibição no dia 19 de abril. Que importância teve este filme na tua vida?

Basicamente, o meu dia a dia é passado a trabalhar em música, mas tive sorte, na verdade, sorte um bocadinho condicionada, porque quando comecei a estudar música a sério não havia um curso superior de Jazz. Eu não gostava de Comunicação Social que era o que estudava, não conseguia mesmo. Então, falei com o meu pai e ele disse que queria que eu continuasse a estudar. Ainda tentei estudar à noite, só que, de facto, já estava tão condicionado… Tu, sendo jornalista e músico, percebes muito bem o problema que é: à noite, de vez em quando, uma pessoa vai tocar até às tantas da manhã e, depois, tens aulas de manhã… não é possível. Ou o inverso: durante a noite não podia praticar piano.

Tive de ir para os Estados Unidos estudar, o que foi uma maravilha e uma benção. Conclusão da história: estudava piano durante o dia, à noite via filmes de terror. Um dia, vi na prateleira da Tower Records, que era uma loja emblemática naquela altura, um filme que se chamava Cemetery Men, com o Rupert Everett. Pensei que era um filme de zombies normal, terror com gore para relaxar mas, na verdade, foi um filme muito importante porque misturava ali uma série de elementos que me pareceram muito mais poéticos e muito mais mágicos do que via normalmente nos filmes de terror. Uma mistura daquele cinema italiano dos anos 70, do Dário Argento, etc, com aquele realismo mágico que uma pessoa encontra, por exemplo, nos filmes do Terry Gilliam, e não é uma coincidência, porque o realizador deste filme, o Michele Soavi, era assistente do Dário Argento e do Terry Gilliam. Conclusão: fui investigando sobre o filme e descobri que se baseava numa banda desenhada, que se chama Dylan Dog, que saía nos quiosques em Itália e que foi feita por um senhor que se chama Tiziano Sclavi que é muito reservado, é um ermita, não dá entrevistas, não se deixa fotografar e, no entanto, tem uma obra vasta como autor de banda desenhada, em italiano.

Não sei falar italiano, então arranjei aqui a versão em inglês que é a “preguiçosa”. Mas isto teve um papel muito importante também, porque depois, mais tarde, este filme motivou-me a fazer o meu próprio filme de zombies, uma curta-metragem feita em 2004, e a fazer uma banda desenhada que, na verdade, é um tributo direto. A banda desenhada chama-se Dog Mendonça e Pizzaboy, como tributo direto ao Dylan Dog, portanto, é quase como se fosse uma versão obesa e “tuga” do Dylan Dog. Este filme foi muito importante para mim e foi um escape para aquela altura da minha vida.

Ou seja, ao fim e ao cabo, um tributo autêntico ao Tiziano Sclavi, não é?

Sim. Por isso é que também estas sessões de culto têm-me dado uma oportunidade tremenda de conhecer algumas das pessoas que, para mim, eram nomes numa prateleira de DVDs e aprender, não é?

Até quando está previsto que estas Sessões de Culto sejam levadas avante?

Bem, é meio imprevisível. Porquê? Porque, até agora, temos conseguido esgotar sempre, o que é uma maravilha. Isso permite-nos ter capacidade de gastar dinheiro na vinda de pessoas para apresentarem as sessões, para que o público que tem ido às sessões possa fazer as suas perguntas e receber um bocadinho de inspiração das pessoas que fizeram os filmes. Por mim continuo com isto, mas também a verdade é que só é possível continuar se conseguirmos manter o interesse. Para manter o interesse é preciso trazer cá pessoas e escolher bons filmes, o que muitas vezes implica ter público. Portanto, é um bocadinho assim: enquanto as pessoas forem, cá estaremos!

Assim sendo, as Sessões de Culto superaram as tuas expectativas?

Sim, diria até que a maior compensação é ter uma sala cheia de pessoas que querem mesmo ver aquilo. Gera-se ali uma energia esquisita que te faz gostar efetivamente mais do filme ou odiá-lo ainda mais. Não é uma ida normal ao cinema!

A oferta cultural “cabe às instituições mais do que às pessoas como eu ou tu”

Num país como Portugal, onde as programações ligadas ao entretenimento estão no topo das audiências, que contribuição poderão ter iniciativas como esta na cultura popular?

Não vejo propriamente a coisa como um combate do entretenimento contra a cultura. Percebo que, de alguma maneira, a cultura deve ser sempre incentivada e deve haver uma oferta cultural. Isso, muitas vezes, cabe às instituições mais do que às pessoas como eu ou tu. Não nos cabe a nós encontrar uma forma de o fazer… Quer dizer, de vez em quando, temos que improvisar porque não temos o devido apoio mas, de alguma forma, o que acho é que as questões culturais muitas vezes partem da curiosidade individual das pessoas.

A oferta cultural, no fundo, acaba por ser importantíssima e deve ser apoiada, mas acabo sempre por achar que o que é realmente importante é a curiosidade das pessoas. Se calhar, tenho curiosidade por determinado tipo de coisas, outra pessoa terá curiosidade por outro tipo de coisas… Conclusão da história: estas sessões acabam por ser um bocadinho a forma que encontrei de organizar sessões que gostaria mesmo de ter visto e que não tiveram estreia comercial cá. Portanto, a questão da oferta cultural é sempre muito relativa porque não vejo isto como uma oferta cultural. Isto é uma coisa muito mais egoísta que isso. É um programa de sábado à noite que, na verdade, se passa às quartas à noite. Não deixa de ser oferta cultural, mas não foi esse o propósito. Acho que essa é uma preocupação muito maior e muito mais séria que deve ser discutida e apoiada estatalmente, porque é preciso criar, obviamente, público. Isto é uma coisa muito menos ambiciosa: um grupo de pessoas que gosta da mesma coisa e que arranjaram esta maneira de se juntar.

E achas que a maioria das pessoas ainda oferece alguma resistência às ofertas culturais mais minimalistas?

Acho que, em boa verdade, claro que sendo uma coisa mais de nicho como é, o cinema de terror acaba por encontrar um público que existe. Se calhar, quando estamos a falar de entretenimento, haverá um público muito maior, mas que também não é o público que nós queremos ali, porque se calhar não gosta dos filmes que estamos a exibir. Conclusão: acho que quando uma pessoa tem uma iniciativa, um projeto, depende também do tipo de pessoas a quem quer chegar. Obviamente que, ao fazer estas sessões, não posso ter a esperança de encher o São Jorge que tem 800 lugares, porque sei que possivelmente não haverá tanta gente que queira ver estes filmes que não são tão conhecidos. No entanto, para este género de filmes mais estranhos, ou filmes de terror, acho que há um público e tem-se provado isso. Temos o festival MOTELX que está sempre cheio, portanto, encontramos sempre alguns dos nossos pares por aí, eles estão escondidos! Mas não sendo uma coisa para o grande público, acaba por também definir quem são as pessoas que temos lá e que nos interessam.

“A banda desenhada é o cinema dos pobres”

Há pouco falaste na tua curta-metragem, “I’ll see you in my dreams”, de 2004. Sendo tu um apaixonado pela Sétima Arte, gostaria de saber se tens em mente algum projeto para breve, que possas revelar.

Acabei por encontrar uma forma de transformar a minha paixão pelo cinema em resultados práticos através da banda desenhada. É um processo criativo muito semelhante. Hoje em dia, acabo por fazer aquilo que um grande herói meu, o Alejandro Jodorowsky, diz: a banda desenhada é o cinema dos pobres. Quando uma pessoa não tem dinheiro para fazer um filme e quer contar “aquela” história, a banda desenhada é perfeita. O que não significa que não tenha a ambição de voltar a filmar, porque não há sensação melhor do que estar num set de rodagem. Portanto, há algumas ideias, sendo que ultimamente tenho pensado mais em função da banda desenhada. Se acontecer alguma coisa será, provavelmente, algo que seja realista. Há algum tempo, queria fazer uma longa-metragem enorme, com monstros…

“Este gajo teve uma boa ideia!”

Esta banda desenhada que fiz era suposto ser uma longa-metragem, só que não era realista, porque a indústria em Portugal não está completamente desenvolvida. Uma pessoa tem que contar uma história que seja possível, sem que pareça um filme de “série z”, não é? Os projetos que tenho são: continuar a fazer histórias através da música, através da banda desenhada e, possivelmente, através dos filmes. Se há alguma coisa concreta? Há umas ideias. Mas também tenho aquela política de não gostar de falar das coisas até ter a certeza que elas vão acontecer, porque senão temos medo que não se concretizem e fica ali um projeto de que nós falámos e não aconteceu. Prefiro o contrário, que é não falar e depois acontecer.

E nas áreas da música, composição e banda desenhada, onde estás envolvido, há alguma novidade que queiras partilhar?
Penso sempre muito no dia-a-dia. Sendo a minha profissão, acaba por não ser muito diferente de qualquer pessoa que vai para o seu trabalho, no escritório, no café ou onde seja. Aparece trabalho e concretizo-o, é muito específico. Obviamente que há sempre uma ambição artística, só que acaba por não ser aquela história de “agora quero dedicar isto a este grande projeto”. Não, ultimamente não tenho tido tempo para pensar assim. Neste momento, tenho um arranjo para acabar e tenho exatamente dois dias para o terminar. Um arranjo é uma orquestração de uma canção. Conclusão: é sempre uma corrida contra o relógio, o que faz com que, se acontece de facto algo artístico, acaba por ser uma consequência e não propriamente um ponto de partida. Há coisas muito práticas para fazer, da melhor maneira possível, e é sempre uma solidão e um sofrimento terrível para chegar aos prazos. Basicamente, o meu projeto neste momento é conseguir acabar isto a tempo!

Falando um pouco do Filipe Melo em si, gostava que me dissesses qual a tua maior motivação para tudo o que tu já fizeste na vida.

É uma boa pergunta, uma pergunta muito difícil. Mas, ao mesmo tempo, acho que sou capaz de respondê-la de uma forma clara, vou tentar. Objetivamente, a minha motivação é uma coisa muito abstrata, mas acho que consigo definir. É a sensação que acontece muito de vez em quando, de que tivemos uma boa ideia e esta não fica arquivada: transforma-se numa realidade. Isto é, ter uma boa ideia, por exemplo, uma boa ideia musical, um exemplo prático com o qual te poderás relacionar. Agarras numa guitarra e tocas qualquer coisa… Uau, isto pode funcionar! E, de repente, aquilo não ser uma ideia que apareceu e foi embora. Tu concretizas aquilo e alguém, algures, ouve e diz: “Este gajo teve uma boa ideia!” Isso vai motivar alguém a ter uma boa ideia. Acho que é este o ciclo do qual eu próprio fui vítima. Alguém teve uma boa ideia que, de repente, vejo e digo: “Quem me dera ter tido esta ideia” quer seja na música, nos filmes, na banda desenhada, é uma função tão importante como a de um médico, de um advogado, de um cozinheiro… Objetivamente, pessoas que tiveram boas ideias fizeram com que passasse não sei quantas horas a trabalhar e a ganhar uma energia para tentar, de alguma maneira, criar essa sensação noutras pessoas. É uma herança de energia cíclica. A motivação é essa. É naquele momento em que, independentemente da área, surge uma ideia da qual nos orgulhamos e conseguimos não a estragar, ao ponto de que o resultado final também nos orgulhe. E normalmente isso pode durar algum tempo, isto é, posso ficar orgulhoso durante um ano, durante cinco anos ou durante uma semana…

Ou durante a vida toda.

Ou durante a vida toda, coisa que até agora ainda não aconteceu, mas pode ser que aconteça.

Se pudesses definir a tua vida num título cinematográfico existente qual seria e porquê?

Essa é muito difícil. Essa ia ter que ficar a pensar. Ou então podia dar uma resposta disparatada. Epá, não consigo… Num título cinematográfico já existente? Não há!

Então vou pedir-te que completes a frase: Eu não gostava de morrer sem…

Sem… vá, posso dizer uma assim honestamente e sem pensar muito: sem fazer uma longa-metragem de cinema!

Faz todo o sentido. E já agora posso perguntar, se não for demasiado óbvio, sobre o que é que seria?

Não faço ideia. Se soubesse estava a fazer!

Trabalho realizado no âmbito da disciplina Atelier de Imprensa e Jornalismo Online, no ano lectivo 2016/2017 em regime de pós-laboral.
    
2017-06-20
Autor UALMedia
Artigo anterior :

Puzzle Room: entre a ficção e a realidade. Aqui, o filme é vivido por si

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O Ninho: há sempre alguém que escuta, compreende, respeita

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